quinta-feira, 15 de janeiro de 2015

Musica nas terras de Miranda do Douro - Galandum Galundaina


Características das terras de Miranda

Miranda do Douro situa-se no profundo território trasmontano, assenta na parte mais meridional da província e estende-se pelos terrenos montanhosos que se erguem do lado direito do imponente Rio Douro.
 Dentro da província Trasmontana, e numa perspectiva climática, Miranda do Douro situa-se em plena Terra Fria, o que lhe confere características próprias dos usos e costumes em relação à restante província. Como actividades principais, destacam-se a agricultura e pastorícia, sector primário predominante na região.
É uma região fronteiriça com Castela e Leão (Espanha). Desde o inicio da nacionalidade esteve sempre exposta e condenada às invasões Castelhanas. Foi uma terra muito influenciada pelos variados povos e culturas que por aqui passaram e permaneceram. Entre muitos destaco os Romanos, os Mouros, os Judeus e por último os invasores Franceses. Todos estes povos, com mais ou menos intensidade, aqui deixaram rastos da sua cultura.
Desde sempre, devido à dureza da vida nestas terras, à sua fraca produtividade, ao clima rigoroso e ao constante cenário de guerra, a população era como que obrigada a procurar novos mundos, daí as terras de Miranda serem sempre e ainda hoje pouco povoadas.
A situação geográfica e o abandono político foram dois factores que “obrigaram” estas terras a viverem num isolamento profundo, como se fossem uma ilha. Estes factores impuseram um atraso no desenvolvimento tecnológico e cultural. A vida, ao longo dos séculos, pouco variava, os saberes e a cultura eram transmitidos de pais para filhos sem haver muitas inovações, o que se arrastou até meados do séc. XX. Com este isolamento Miranda ganhou apenas a preservação da cultura, do folclore e da sua língua, reconhecida como 2ª língua oficial Portuguesa.

A música Mirandesa
A música Mirandesa com todos os factores anteriormente referidos, tornou-se como que um santuário arqueológico para muitos musicólogos que por aqui passaram e continuam a passar. Devo destacar entre outros: Kurt Shindler; Rodney Gallop;  Michel Giacometti;  Lopes Graça; Padre Firmino Martins; Abade de Baçal; Serrano Batista; Padre António M. Mourinho e recentemente; Paulo Meirinhos e Paulo Preto (Galandum Galundaina).
O trabalho de muitos destes etnomusicólogos foi fazer recolhas, ouvirem e gravarem o que era mais badalado em terras de Miranda. Em quase todos os livros e artigos de folclore ou de música tradicional se referencia a música mirandesa, e foram editados também alguns discos de recolhas e de outros de grupos que a utilizaram no seu reportório. É caso para dizer que a música mirandesa esteve e está na moda na península Ibérica, pelo facto de ter uma estrutura melódica própria e diferente da restante música tradicional.

A situação actual da musica mirandesa está de boa saúde, têm-se feito recolhas e estudos exaustivos, dos quais destacamos o trabalho do “Centro de musica tradicional Sons da Terra” em Sendim, o trabalho da associação Galandum Galundaina e do seu grupo musical. O caminho e o trabalho futuro é inesgotável, ainda é necessário fazer as transcrições musicais, organizar e editar documentos e implantar o ensino da música mirandesa, para que surjam grupos que a possam interpretar e desenvolver numa perspectiva cultural e económica, à semelhança do que se faz noutros países. 

O papel de Galandum Galundaina.
Galandum Galundaina iniciou o conceito de modernidade da música tradicional Mirandesa porque:
- Recolheu e recolhe o principal reportório musical Mirandês, gravando e transcrevendo partituras, com o intuito de elaborar o cancioneiro, os métodos e manuais de ensino.
- Colocou a música tradicional Mirandesa no panorama musical dos principais festivais da especialidade em Portugal e no mundo, com o seu trabalho discográfico e com os concertos que tem realizado.
- Contribuiu para a implantação dos principais festivais de música tradicional na região,
 colaborando com os organizadores e produtores.
- Promove o ensino da música tradicional na região.
- Recolhe e reconstrói os principais instrumentos tradicionais.
- Padronizou a gaita de fulhes Mirandesa permitindo o ensino e o aparecimento das várias escolas de gaita de fulhes.

A Padronização da gaita de fulhes
 - Em 2007 iniciou-se o estudo de várias gaitas antigas para se chegar a um padrão de construção do instrumento em série, sem perder as principais características melódicas e tímbricas da gaita de fulhes, única gaita portuguesa.
Esta padronização permitiu que todos os construtores possam construir instrumentos iguais e assim desenvolver as escolas de gaita de fulhes implantadas em Miranda do Douro, Sendim, Palaçoulo, Mogadouro, Bragança, Macedo de Cavaleiros e Vila Real. Contam-se mais de 10 professores e 150 alunos.
Esta padronização recuperou o principal instrumento musical trasmontano que estava em vias de extinção.
Neste momento a gaita de fulhes é um instrumento recuperado e que, ao mesmo tempo, sofreu uma enorme evolução, o que lhe permitiu um potencial melódico excepcional. É um instrumento cromático com a tessitura de uma escala e meia e permite ser acompanhado com instrumentos convencionais.

                neto.exoterra@sapo.pt
Galandum Galundaina é juventude a olhar a cultura mirandesa e trasmontana, (música, folclore, língua), numa perspectiva moderna e actual, com orgulho de ser mirandês e trasmontano, honrando os antepassados.

 “ Nien mais ua fiesta sien gaita”.

                                                                                    Paulo Preto
                                                                             Galandum Galundaina. 
  
in: "Trás-os-Montes e Alto Douro, Mosaico de Ciência e Cultura", Exoterra, 2011.

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