Miranda
do Douro situa-se no profundo território trasmontano, assenta na parte mais
meridional da província e estende-se pelos terrenos montanhosos que se erguem
do lado direito do imponente Rio Douro.
Dentro da província Trasmontana, e numa
perspectiva climática, Miranda do Douro situa-se em plena Terra Fria ,
o que lhe confere características próprias dos usos e costumes em relação à
restante província. Como actividades principais, destacam-se a agricultura e
pastorícia, sector primário predominante na região.
É
uma região fronteiriça com Castela e Leão (Espanha). Desde o inicio da
nacionalidade esteve sempre exposta e condenada às invasões Castelhanas. Foi
uma terra muito influenciada pelos variados povos e culturas que por aqui
passaram e permaneceram. Entre muitos destaco os Romanos, os Mouros, os Judeus
e por último os invasores Franceses. Todos estes povos, com mais ou menos
intensidade, aqui deixaram rastos da sua cultura.
Desde
sempre, devido à dureza da vida nestas terras, à sua fraca produtividade, ao
clima rigoroso e ao constante cenário de guerra, a população era como que
obrigada a procurar novos mundos, daí as terras de Miranda serem sempre e ainda
hoje pouco povoadas.
A
situação geográfica e o abandono político foram dois factores que “obrigaram”
estas terras a viverem num isolamento profundo, como se fossem uma ilha. Estes
factores impuseram um atraso no desenvolvimento tecnológico e cultural. A vida,
ao longo dos séculos, pouco variava, os saberes e a cultura eram transmitidos
de pais para filhos sem haver muitas inovações, o que se arrastou até meados do
séc. XX. Com este isolamento Miranda ganhou apenas a preservação da cultura, do
folclore e da sua língua, reconhecida como 2ª língua oficial Portuguesa.
A música
Mirandesa
A
música Mirandesa com todos os factores anteriormente referidos, tornou-se como
que um santuário arqueológico para muitos musicólogos que por aqui passaram e
continuam a passar. Devo destacar entre outros: Kurt Shindler; Rodney
Gallop; Michel Giacometti; Lopes Graça; Padre Firmino Martins; Abade de
Baçal; Serrano Batista; Padre António M. Mourinho e recentemente; Paulo
Meirinhos e Paulo Preto (Galandum Galundaina).
O
trabalho de muitos destes etnomusicólogos foi fazer recolhas, ouvirem e
gravarem o que era mais badalado em terras de Miranda. Em quase todos os livros
e artigos de folclore ou de música tradicional se referencia a música
mirandesa, e foram editados também alguns discos de recolhas e de outros de
grupos que a utilizaram no seu reportório. É caso para dizer que a música
mirandesa esteve e está na moda na península Ibérica, pelo facto de ter uma
estrutura melódica própria e diferente da restante música tradicional.
A
situação actual da musica mirandesa está de boa saúde, têm-se feito recolhas e
estudos exaustivos, dos quais destacamos o trabalho do “Centro de musica
tradicional Sons da Terra” em Sendim, o trabalho da associação Galandum
Galundaina e do seu grupo musical. O caminho e o trabalho futuro é inesgotável,
ainda é necessário fazer as transcrições musicais, organizar e editar
documentos e implantar o ensino da música mirandesa, para que surjam grupos que
a possam interpretar e desenvolver numa perspectiva cultural e económica, à
semelhança do que se faz noutros países.
O papel de
Galandum Galundaina.
Galandum
Galundaina iniciou o conceito de modernidade da música tradicional Mirandesa
porque:
-
Recolheu e recolhe o principal reportório musical Mirandês, gravando e
transcrevendo partituras, com o intuito de elaborar o cancioneiro, os métodos e
manuais de ensino.
-
Colocou a música tradicional Mirandesa no panorama musical dos principais
festivais da especialidade em Portugal e no mundo, com o seu trabalho
discográfico e com os concertos que tem realizado.
-
Contribuiu para a implantação dos principais festivais de música tradicional na
região,
colaborando com os organizadores e produtores.
-
Promove o ensino da música tradicional na região.
-
Recolhe e reconstrói os principais instrumentos tradicionais.
-
Padronizou a gaita de fulhes Mirandesa permitindo o ensino e o aparecimento das
várias escolas de gaita de fulhes.
A Padronização
da gaita de fulhes
- Em 2007 iniciou-se o estudo de várias gaitas
antigas para se chegar a um padrão de construção do instrumento em série, sem
perder as principais características melódicas e tímbricas da gaita de fulhes,
única gaita portuguesa.
Esta
padronização permitiu que todos os construtores possam construir instrumentos
iguais e assim desenvolver as escolas de gaita de fulhes implantadas em Miranda
do Douro, Sendim, Palaçoulo, Mogadouro, Bragança, Macedo de Cavaleiros e Vila
Real. Contam-se mais de 10 professores e 150 alunos.
Esta
padronização recuperou o principal instrumento musical trasmontano que estava
em vias de extinção.
Neste
momento a gaita de fulhes é um instrumento recuperado e que, ao mesmo tempo,
sofreu uma enorme evolução, o que lhe permitiu um potencial melódico
excepcional. É um instrumento cromático com a tessitura de uma escala e meia e
permite ser acompanhado com instrumentos convencionais.
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“ Nien mais ua fiesta sien gaita”.
Paulo Preto
Galandum
Galundaina.


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