quinta-feira, 15 de janeiro de 2015

“MARRON GLACÉ” A CASTANHA DIVINIZADA


Jorge Lage
jorgelage@portugalmail.com

Um pasteleiro de Bragança pôs a criatividade a funcionar para homenagear “o fruto dos frutos” (no dizer de Miguel Torga) e oferecer os “Ouriços das Castanhas de Bragança” aos amantes da boa pastelaria transmontana.
Fiz várias tentativas, sem sucesso, para que o Museu do Pão, em Seia, produzisse pão-de-castanha, tal como sucede em Curral das Freiras, município de Câmara dos Lobos e muito divulgado nas castanícolas regiões de Itália.
Ah! E se em Portugal surgisse uma «Feira das Falachas», como houve várias em séculos transactos? Era uma das formas mais telúricas de se promover a castanha e um pão-de-castanha ancestral.
Já me contento em ver multiplicadas as feiras da castanha e os concursos com doces e pratos de castanha. Gostava, como quem sonha, ver os doces de castanha afirmarem-se na nossa região, seguindo a senda do doce fino de amêndoa algarvio, das tortas de Azeitão, dos travesseiros ou das queijadas de Sintra, do pão-de-rala de Évora (a boleima está a definhar), dos pastéis de Tentúgal (Coimbra), dos ovos moles (Aveiro) ou dos pastéis de Vouzela. Os pastéis de carne de Chaves, o folar ou bola-de-carne de Valpaços, o bolo-podre de Santa Maria de Émeres (Valpaços) ou os dormidos de Mirandela são dos meus preferidos. Além disso são património gastronómico da nossa terra mátria, Trás-os-Montes.
Os “Ouriços de Castanhas de Bragança” juntam-se a um conjunto de receitas com castanhas que temos promovido e incentivado o seu consumo e divulgação pelo país. Porque a solução para a venda, a um preço digno, da nossa castanha passa muito pela capacidade em a absorvermos no mercado. A castanha congelada, disponível ao longo do ano, e a castanha em verde, na época, são as duas formas mais comuns. Mas há um conjunto de pequenas indústrias, manufacturas artesanais e até domésticas que geram interessantes mais valias locais. Hoje, já se consome alguma da deliciosa compota de castanha, licores de castanha e alguns bolos de castanha.
É pacífico dizer-se que o processo de apuramento do expoente máximo da castanha, o marron glacé, foi iniciado pelos gregos devido ao hábito de conservarem os frutos secos em ânforas com mel e aperceberam-se que as castanhas se tornavam num alimento divinal. Os romanos herdaram-lhes este processo de conservação, cuja origem poderá remontar à Idade da Pedra, uma vez que o mel e a castanha já eram utilizados na alimentação do Homem de então.
No livro “Castanea uma dádiva dos deuses” referimos que “o mel era um produto boticário, já referido várias vezes na Bíblia, como alimento de eleição, conservante e curativo. Também os apicultores gregos ofereciam a Júpiter, seu deus protector, as primeiras fatias de pão barradas com mel, ritual acompanhado de grandes festejos. Segundo a mitologia grega, Zeus foi alimentado, nos primeiros anos de vida, com leite e mel. Tanto os gregos, como os romanos, chamavam ao mel, <ambrósia>, que significava <alimento dos deuses>”.
Nos tempos contemporâneos, os mestres do marron glacé são os confeiteiros franceses, mas os galegos de Ourense (Galiza) ao se aperceberem da mais-valia da castanha cristalizada, vendida em Paris a preços altíssimos, lançaram-se na mesma doce aventura. Hoje, produzem do melhor marrón glacé e vendem bem este mágico produto para o mercado global, em especial para o japonês e russo.
Dado que a castanha é sazonal, não é fácil montar uma indústria transformadora específica e as empresas com alguma dimensão englobam outros produtos de diferentes épocas, como a amora, o morango, a cereja e outros. Por isso, criar uma empresa nesta fileira requer grande engenho e imaginação. Não se está perante «petróleo», como tem propagandeado um exuberante académico, mas numa fileira para empreendedores de algum risco. Risco não terá a produção de farinha de castanha, havendo potencial mercado na Península Ibérica e Europa.
Para se fazer excelente marron glacé têm que as castanhas ter uma textura especial e o próprio descasque é um processo delicado, bem diferente do que é submetida a castanha vulgar. Depois, a castanha tem que percorrer um xaroposo e doce calvário até à coroação.
As próprias firmas não abrem todo o jogo do know how para o fabrico do excelente marron glacé, porque ao visitar uma grande fábrica da Península Ibérica o texto explicativo não dizia tudo o que os olhos viram foi algo de mais completo.
Fazer marron glacé, ao longo dos séculos, começava sempre por um jogo de paciência dos cozinheiros ao retirarem a «camisa» às castanhas e iniciar o processo de cristalização. A amêndoa da castanha, depois de descacada, tinha que estar sem a mínima beliscadura ou mochête, que a pudesse diminuir no seu mágico aspecto e beleza.
Na época romântica os galanteadores, seduziam as caprichosas damas, nos saraus e salões, servindo-lhe o marron glacé em baixelas de prata.
As castanhas cristalizadas são o marron glacé dos gauleses e marrón glacè dos espanhóis, afirmando-se dentro dos produtos transformados da castanha como o mais distinto e requintado.
O marron glacé não deve ser confundido com os bombons (como alvitrava uma engenhosa e deslumbrada mente numas jornadas do castanheiro), porque são dois produtos distintos.
Há coisas de que não podemos falar só de orelha, temos que as ver criar, podendo não chegar a consulta bibliográfica. Isto é válido mesmo para algumas fantasias do meio universitário. Confundir bombons com marron glacé é como dizer que os doces de amêndoa do Algarve são amêndoas ou os ovos-moles de Aveiro são ovos. E não são.
Nas feiras temáticas chamarem morron glacé às castanhas em calda ou xarope, até é admissível o desconhecimento. Mas, o meio académico devia usar de mais cautela ao falar sobre aquilo que se conhece mal!
Portanto, podem fazer-se bombons de castanhas, mas o marron glacé é, tão só, uma castanha cristalizada e impregnada de açúcar, com frágeis equilíbrios na consistência. Um marron glacé é tanto mais nobre e rico quanto mais açúcar absorveu.
Para terminar esta singela lavra, atrevo-me a deixar aqui uma receita artesanal com castanhas cristalizadas e que qualquer um poderá experimentar e retirada da nossa obra atrás referida.

Castanhas Cristalizadas
       650 g de castanhas descascadas;
       500 g de açúcar.

Ponha as castanhas num tacho grande e junte água fria até as cobrir. Leve a lume forte e, quando levantar fervura, reduza o lume, e deixe ferver durante 30 minutos Deve ter cuidado para não as deixar cozer demasiado. Escorra-as bem e reserve 1,5 dl da água da cozedura.
1º dia - Num tacho, deite a água de cozedura que reservou, junte o açúcar e leve a lume brando, mexendo sempre até o açúcar se dissolver. Junte as castanhas, aumente o lume e, quando levantar fervura, retire, tape e deixe as castanhas de molho durante 24 horas, em local morno.
2º dia - Destape o tacho e leve a lume forte até levantar fervura. Retire o tacho do lume, tape e deixe as castanhas de molho durante mais 24 horas.


                neto.exoterra@sapo.pt

3º dia - Destape o tacho e leve novamente ao  lume a levantar fervura. Tire o tacho do lume e, com a escumadeira, retire as castanhas, para uma rede colocada sobre um tabuleiro. Deixe-as secar muito bem em local morno, durante 2 a 3 dias, até deixarem de estar pegajosas.
Guarde as castanhas em caixas de madeira ou em cartão forradas com papel vegetal e disponha-as em camadas intercaladas com papel vegetal.
Estas castanhas podem ser servidas ao café, num jantar de festa.

(Jorge Lage in “Castanea uma dádiva dos deuses” e recolha de Anália de Sousa – cedida por Belmira Sousa, ambas de Serapicos - Valpaços)

Jorge Lage – jorgelage@portugalmail.com – 09FEV2011

in: Trás-os-Montes e Alto Douro, Mosaico de Ciência e Cultura, Exoterra, 2011


 Curriculum

Jorge Joaquim Lage nasceu em Chelas - Mirandela, em 06/04/1948.
Fez a instrução primária na sua aldeia, o 5.º ano liceal, em 1966, no ex-Colégio Marista dos Pousos – Leiria e o 7.º ano liceal, em 1967, no Colégio da Boavista – Vila Real.
Em 1969, fez o Curso de Oficiais Milicianos e, em 1973, o Curso de Promoção a Capitães (combateu na ex-Guiné Portuguesa – 1973/74), possuindo a patente de Coronel do Exército.
Licenciou-se em História, em 1977 e em 2004/05 o Curso de Museologia.
Foi professor de História e esteve ligado à Educação de Adultos.
Foi assessor do Ministério de Educação em Braga, estando já reformado.
É certificado como Formador, tendo mais de 1.000 horas de formação.
Colabora com o PROSEPE/Clubes da Floresta desde 1996 e é Coordenador Distrital de Braga do PROSEPE desde 1998, com a assessoria de imprensa.
Tem assento (delegado da Educação) no Conselho Coordenador de Segurança Rodoviária (Distrito de Braga) há mais quinze anos, continuando, como voluntário, depois de reformado. Foi Delegado Distrital (Braga) de Segurança das Escolas, entre 1994 e 2007 e Formador dos Delegados de Segurança das Escolas e organizador de várias acções. Foi louvado, em 2000, pelo Secretário de Estado da Administração Educativa.
Jornalista e investigador colabora/colaborou na imprensa regional (por ex.: Notícias de Mirandela (há 25 anos), Poetas e Trovadores, Notícias de Chaves, www.netbila.nethttp://tempocaminhado.blogspot.pt/   e Folha Viva).
Profere conferências, colóquios e promove realizações culturais e participa em feiras do livro e temáticas. É consultado na área do castanheiro e transformação da castanha.
Os seus livros são objecto de estudo e bibliografia obrigatória em Universidades.
É autor dos livros: “A Castanha Saberes e Sabores” (2003), "Castanea uma dádiva dos deuses" (2006) e “As Maias entre mitos e crenças” (2010).
É co-autor: “Dicionário dos mais ilustres Transmontanos e Alto Durienses” (I vol. 1998; II vol. 2001; e III Vol. 2003), “Maio(s) em S. Victor” (2004) e  “Mirandelês”(2010).
Prefacio “Um Projecto Saudável”, do livro “Castanha um Fruto Saudável” (UTAD 2007).
Foi distinguido, na Galiza, com a medalha da Irmandade de Vinhos Galegos.
Publicou em revistas: “As Maias – na nossa cultura” (Folha Viva) e na revista TER (2008-2011) sobre Biodiversidade, Floresta, Árvores Monumentais e Urbanas.
Está fichado no “Dicionário dos mais Ilustres Transmontanos e Alto Durienses”e sócio (n.º 1 da Casa de Trás-os-Montes e Alto Douro em Braga) fundador de associações (culturais/solidariedade/gastronomia). Regionalista e “ser transmontano é uma religião”.
 jorgelage@portugalmail.com



Sem comentários:

Enviar um comentário

Quando os xuxas apoiam...

 

Os mais lidos