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| Eugénio Cavalheiro |
A narrativa em questão conta-nos que
após a aparição à Virgem do Anjo Gabriel que lhe anuncia o nascimento de
Cristo, esta vai visitar Isabel, que apesar da sua avançada idade, irá dar à
luz João Baptista, o Precursor.
Lucas narra-nos esse episódio em Lc. 1.39 a 1.46: “39.Por aqueles
dias, Maria pôs-se a caminho e dirigiu-se à pressa para a montanha, a uma
cidade da Judeia. 40. Entrou em casa de Zacarias e saudou Isabel. 41.Quando
Isabel ouviu a saudação de Maria, o menino saltou-lhe de alegria no seio e
Isabel ficou cheia de Espírito Santo. 42.Então, erguendo a voz, exclamou: Bendita
és tu entre as mulheres e bendito é o fruto do teu ventre’. 43.E donde me é
dado que venha ter comigo a mãe do meu Senhor? 44.Pois logo que chegou aos meus
ouvidos a tua saudação, o menino saltou de alegria no meu seio. 45.Feliz de ti
que acreditaste, porque se vai cumprir o que te foi dito da parte do Senhor.”
Desde finais do século XIV até inícios
do século XVI o padrão de representação utilizado pelos artistas do Norte da
Europa mostra-se invariável nos seus traços gerais. Maria e Isabel abraçam-se
com familiaridade. As mãos de cada uma dirigem-se para o ventre da outra. A
representação é realista. Os gestos exprimem alegria contida, carinho entre as
duas primas, que se regozijam com os eventos maravilhosos que as suas vidas
experimentam. Os gestos das suas mãos são a expressão visual, o equivalente
pictórico das palavras expressas em 1.42., 1.43 e 1.44.
Na
“Visitação” proveniente do retábulo da Sé de Viseu (c. 1500, ver fig.1),
actualmente no Museu Grão Vasco, obra duma “equipa” de pintores flamengos que
provavelmente teria incluído o próprio Vasco Fernandes, podemos observar
Isabel, de cabeça coberta por uma touca branca, indicativo da sua idade
avançada, colocando a mão direita sobre o ventre da Virgem, cujo modelo é uma
mulher muito jovem. O padrão provém directamente da pintura flamenga do século
XV, exemplificado pela “Visitação” de Van der Weiden (Tríptico da Anunciação,
Turim) obra executada cerca de 1435 (fig.2).
No
crepúsculo da Idade Média o pensamento católico oscilava entre a argumentação
escolástica, preocupada com a justificação da Fé através da suposta
concordância com o pensamento filosófico da Antiguidade Clássica, e a “Devoção Moderna”que
considerava fundamental a justificação da Fé por meio duma vida orientada pelo
exemplo de Cristo, tal como é apresentado pela narrativa evangélica. Esta
corrente, iniciada entre outros por Tomás de Kempis, autor da “Imitação de
Cristo” vai desembocar no Humanismo Cristão de Tomás More e Erasmo de Roterdão.
Daí estas representações realistas, impregnadas de afecto humano e de
simplicidade, longe das especulações teóricas dos escolásticos.
Chegamos
seguidamente ao século XVI, à época da Reforma e da Contra-Reforma Católica, do
paradoxal saque da Roma Papal (1527) perpetrado pelos exércitos mercenários
descontrolados ao serviço do próprio campeão do catolicismo, Carlos V, o
Imperador do Sacro Império. Época de angústias e de dúvidas, de sentimentos
obscuros e trágicos, de lutas fratricidas que retalham a Cristandade. No
pensamento, na arte e na literatura surge uma nova sensibilidade, o Maneirismo.
Encontramos novas maneiras na expressão artística: as cores ácidas, as vestes
animadas por uma estranha inquietação, rostos de expressões profundas,
enigmáticas, como podemos observar na versão de Pontormo da Visitação. Esta
tela encontra-se na igreja de S. Michele, em Carmigniano, Itália e foi
executada em 1529 (fig.3).
Para
travar o avanço da Reforma Protestante a Igreja Católica reconheceu a
necessidade de se disciplinar. Para tal convocou o Concílio de Trento cujas
sessões se prolongaram desde 1545 até
Pintores
estimáveis mas convencionais como Luís de Morales, no seu tempo conhecido por
El Divino, eram mais apreciados. A sua Visitação (Igreja de S. Martin,
Placencia, c.1567) representa a prima Isabel rojada aos pés de Maria, sinal de que
a Virgem passara a ser considerada como um ser quase divino a quem se deve
maior homenagem, quase a raiar a adoração. Outros pormenores curiosos: qualquer
sugestão de rotundidade do ventre de mulher grávida é omitida ou disfarçada por
meio da posição dos braços das figuras. Por seu lado, como se pode notar neste
quadro, a figura de S. José é secundarizada. Diremos mesmo que é aqui
representado como um velho desgrenhado.
Com
o tempo as grandes paixões e intransigências do século das guerras da religião
vão-se esbatendo lentamente. A figuração do mesmo tema por Marcos da Cruz, obra
de 1676 destinada à igreja de Santa Maria de Óbidos (fig. 5) já demonstra menos
sujeição às regras de Trento. A futura maternidade de Maria volta a ser
sugerida pelas curvas do vestuário. Mas falta a paixão, a candura e
simplicidade de outros tempos. Resta o convencionalismo.
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Nasceu em Lisboa em 1935. É capitão-de-mar-e-guerra na
situação de reforma. Frequentou várias disciplinas referentes a História de
Arte na Open University inglesa e na Universidade Aberta portuguesa. É autor de
monografias sobre monumentos de Trás-os-Montes e Alto Douro, tais como “A
igreja Matriz de Torre de Moncorvo” (em colaboração com N. Rebanda), “Os frescos da capela da Srª. da Teixeira”,
“Arte dos frescos em Vila Real” e “Igreja de Santiago da Adeganha”, esta última
ainda no prelo.
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