sexta-feira, 16 de janeiro de 2015

A REPRESENTAÇÃO PICTÓRICA DA VISITAÇÃO DO SÉC. XV AO SÉC. XVII ALGUNS EXEMPLOS



Eugénio Cavalheiro
A Visitação, isto é, o episódio da visita da Virgem Maria a sua prima Isabel, apresenta-nos uma série de variações da sua representação visual na pintura europeia durante os séculos XV, XVI e XVII. Os padrões apresentados parecem de certo modo relacionados com as variações do pensamento religioso e da sensibilidade artística ao longo desse período.
A narrativa em questão conta-nos que após a aparição à Virgem do Anjo Gabriel que lhe anuncia o nascimento de Cristo, esta vai visitar Isabel, que apesar da sua avançada idade, irá dar à luz João Baptista, o Precursor.

Lucas narra-nos esse episódio em Lc. 1.39 a 1.46: “39.Por aqueles dias, Maria pôs-se a caminho e dirigiu-se à pressa para a montanha, a uma cidade da Judeia. 40. Entrou em casa de Zacarias e saudou Isabel. 41.Quando Isabel ouviu a saudação de Maria, o menino saltou-lhe de alegria no seio e Isabel ficou cheia de Espírito Santo. 42.Então, erguendo a voz, exclamou: Bendita és tu entre as mulheres e bendito é o fruto do teu ventre’. 43.E donde me é dado que venha ter comigo a mãe do meu Senhor? 44.Pois logo que chegou aos meus ouvidos a tua saudação, o menino saltou de alegria no meu seio. 45.Feliz de ti que acreditaste, porque se vai cumprir o que te foi dito da parte do Senhor.”

Desde finais do século XIV até inícios do século XVI o padrão de representação utilizado pelos artistas do Norte da Europa mostra-se invariável nos seus traços gerais. Maria e Isabel abraçam-se com familiaridade. As mãos de cada uma dirigem-se para o ventre da outra. A representação é realista. Os gestos exprimem alegria contida, carinho entre as duas primas, que se regozijam com os eventos maravilhosos que as suas vidas experimentam. Os gestos das suas mãos são a expressão visual, o equivalente pictórico das palavras expressas em 1.42., 1.43 e 1.44.

Na “Visitação” proveniente do retábulo da Sé de Viseu (c. 1500, ver fig.1), actualmente no Museu Grão Vasco, obra duma “equipa” de pintores flamengos que provavelmente teria incluído o próprio Vasco Fernandes, podemos observar Isabel, de cabeça coberta por uma touca branca, indicativo da sua idade avançada, colocando a mão direita sobre o ventre da Virgem, cujo modelo é uma mulher muito jovem. O padrão provém directamente da pintura flamenga do século XV, exemplificado pela “Visitação” de Van der Weiden (Tríptico da Anunciação, Turim) obra executada cerca de 1435 (fig.2).
No crepúsculo da Idade Média o pensamento católico oscilava entre a argumentação escolástica, preocupada com a justificação da Fé através da suposta concordância com o pensamento filosófico da Antiguidade Clássica, e a “Devoção Moderna”que considerava fundamental a justificação da Fé por meio duma vida orientada pelo exemplo de Cristo, tal como é apresentado pela narrativa evangélica. Esta corrente, iniciada entre outros por Tomás de Kempis, autor da “Imitação de Cristo” vai desembocar no Humanismo Cristão de Tomás More e Erasmo de Roterdão. Daí estas representações realistas, impregnadas de afecto humano e de simplicidade, longe das especulações teóricas dos escolásticos.
Chegamos seguidamente ao século XVI, à época da Reforma e da Contra-Reforma Católica, do paradoxal saque da Roma Papal (1527) perpetrado pelos exércitos mercenários descontrolados ao serviço do próprio campeão do catolicismo, Carlos V, o Imperador do Sacro Império. Época de angústias e de dúvidas, de sentimentos obscuros e trágicos, de lutas fratricidas que retalham a Cristandade. No pensamento, na arte e na literatura surge uma nova sensibilidade, o Maneirismo. Encontramos novas maneiras na expressão artística: as cores ácidas, as vestes animadas por uma estranha inquietação, rostos de expressões profundas, enigmáticas, como podemos observar na versão de Pontormo da Visitação. Esta tela encontra-se na igreja de S. Michele, em Carmigniano, Itália e foi executada em 1529 (fig.3).
Para travar o avanço da Reforma Protestante a Igreja Católica reconheceu a necessidade de se disciplinar. Para tal convocou o Concílio de Trento cujas sessões se prolongaram desde 1545 até 1563. A preocupação com a “ordem” levou-a a regulamentar minuciosamente a actividade imagética até ao pormenor; como demonstra a seguinte citação: “… Toda a lascívia deve ser evitada, de forma a que as imagens não sejam pintadas e adornadas com um encanto sedutor”. O desenvolvimento do culto mariano torna-se um sinal de distinção entre a ortodoxia católica e as doutrinas protestantes. Até as experiências místicas são olhadas com suspeição; Teresa de Ávila e Juan de La Cruz são vigiados pela Inquisição. A obra de El Greco foi ignorada e escarnecida no seu tempo e ele não foi de modo algum o pintor preferido de Filipe II.
Pintores estimáveis mas convencionais como Luís de Morales, no seu tempo conhecido por El Divino, eram mais apreciados. A sua Visitação (Igreja de S. Martin, Placencia, c.1567) representa a prima Isabel rojada aos pés de Maria, sinal de que a Virgem passara a ser considerada como um ser quase divino a quem se deve maior homenagem, quase a raiar a adoração. Outros pormenores curiosos: qualquer sugestão de rotundidade do ventre de mulher grávida é omitida ou disfarçada por meio da posição dos braços das figuras. Por seu lado, como se pode notar neste quadro, a figura de S. José é secundarizada. Diremos mesmo que é aqui representado como um velho desgrenhado.   
Com o tempo as grandes paixões e intransigências do século das guerras da religião vão-se esbatendo lentamente. A figuração do mesmo tema por Marcos da Cruz, obra de 1676 destinada à igreja de Santa Maria de Óbidos (fig. 5) já demonstra menos sujeição às regras de Trento. A futura maternidade de Maria volta a ser sugerida pelas curvas do vestuário. Mas falta a paixão, a candura e simplicidade de outros tempos. Resta o convencionalismo.


                

É na arte popular que os sentimentos humanos podem às vezes aparecer com uma expressão mais acentuada. Na Visitação representada no retábulo da igreja de Ajo, na Cantábria (fig.6), obra executada em 1630 por humildes barristas, as duas primas abraçam-se fraternalmente num gesto de ternura. A mão esquerda de Isabel afaga o ventre de Maria pare sentir a palpitação da criança, recordando o padrão tantas vezes repetido pelos artistas flamengos medievais. Em segundo plano, a cumplicidade dos seus maridos expressa-se num viril aperto de mãos.

in: Trás-os-Montes e Alto Douro, Mosaico de Ciência e Cultura, exoterra, 2011

EUGÉNIO CAVALHEIRO

Nasceu em Lisboa em 1935. É capitão-de-mar-e-guerra na situação de reforma. Frequentou várias disciplinas referentes a História de Arte na Open University inglesa e na Universidade Aberta portuguesa. É autor de monografias sobre monumentos de Trás-os-Montes e Alto Douro, tais como “A igreja Matriz de Torre de Moncorvo” (em colaboração com N. Rebanda),  “Os frescos da capela da Srª. da Teixeira”, “Arte dos frescos em Vila Real” e “Igreja de Santiago da Adeganha”, esta última ainda no prelo.

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