sábado, 17 de janeiro de 2015

Confraria dos Vinhos Transmontanos


José António Silva
Fundada em Agosto de 2009, a Confraria dos Vinhos Transmontanos (CVT) foi apadrinhada pela Confraria dos Enófilos e Gastrónomos de Trás-os-Montes e Alto Douro, consubstanciando uma forma de associação que remonta à Idade Média, então ligada a motivos essencialmente religiosos. Na actualidade, o fenómeno do reaparecimento em força de novas confrarias prende-se com a necessidade da defesa do património imaterial das diversas regiões do nosso país. Numa época em que a globalização constitui uma ameaça concreta à identidade dos povos, dos seus costumes, tradições e folclore, faz todo o sentido o ressurgimento destas associações que acentuam e estimulam, através dos seus ritos cerimoniais e dos seus trajes, o sentido de pertença e o desejo de valorizar e divulgar aquilo que se considera digno de ser conhecido e experimentado pelos outros. No nosso caso o objecto congregador – o vinho – conheceu uma evolução sem precedentes nos últimos cinco anos, que o alcandorou a um patamar capaz de competir com os melhores quer a nível nacional quer internacional, pelo que se legitima a criação da Confraria dos Vinhos Transmontanos subordinada  ao lema Honor et Gloria Transmontano Vino.

Embaixadores do néctar transmontano
Em apenas um ano e quatro meses de existência, e sendo membro efectivo da Federação das Confrarias Báquicas portuguesas, a Confraria dos Vinhos Transmontanos já realizou quatro capítulos, entronizando novos confrades, dispostos a ajudar, com a sua acção e prestígio e sob juramento solene, no alcance dos objectivos de divulgação e nobilitação dos preciosos néctares produzidos na região de Trás-os-Montes que, como é sabido, engloba Valpaços, Chaves e o Planalto Mirandês, cujos saberes na produção vinícola remontam, a avaliar pela quantidade de lagares escavados na rocha, a tempos anteriores à fundação da nacionalidade.
Tem ainda a CVT o objectivo de proporcionar, a par da divulgação dos vinhos, momentos de cultura transversal que englobaram, até agora, a poesia, a música clássica, a música popular e a música sacra, mas também possibilitando uma vertente didáctica na apreciação dos vinhos apresentados, a cargo dos seus confrades enólogo, Arnaldo Sampaio e Escanção – Mor, Modesto Junqueira que primam por elucidar os confrades e convidados sobre como apreciar um vinho e sobre as boas práticas do seu consumo.


Vinho Transmontano

Da terra, das raízes, do suor salgado do rosto,
Do labor de mãos nodosas e sedentas da jornada,
Vem o prémio generoso e gárrulo que é o mosto,
Tinto e alegre ardor de alma libertada.

As palavras, fáceis, escorrem aos bagos,
Inchadas de sumo e espuma de laço…
Ressumam, dançantes, de todos os tragos
E trazem no casco o calor de um abraço.

Ergamos os copos em pâmpanos gestos
Para brindar a dádiva desta natureza
De duros granitos e aráveis modestos.

Riqueza arrancada à terra todo o ano
Que no jarro enfeita a alva mesa
De todo e qualquer lar transmontano.

                         José António Silva
          

José António Soares da Silva é natural de Margaride, concelho de Felgueiras, mas reside em Valpaços há 25 anos. Licenciado em Línguas e Literaturas Modernas pela Faculdade de Letras da Universidade do Porto e Mestre em Ciências da Cultura pela Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro, é professor na Escola Secundária de Valpaços e tem cinco obras publicadas pelas respectivas câmaras municipais sobre história local relativa a Felgueiras e Valpaços.

Actualmente é Mestre de Cerimónias da Confraria dos Vinhos Transmontanos.

in: Trás-os-Montes e Alto Douro, Mosaico de Ciência e Cultura, Exoterra, 2011


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