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| LAGOAÇA |
| Vitor Fernando Barros |
«Nenhum cientista vai
ao encontro da realidade que quer explicar sem “informação”, sem formação: é
[…] uma ideia falsa a de acreditar que a observação é a fonte da descoberta.
Não se descobre senão aquilo que se estava pronto intelectualmente para
descobrir.»
Michele
Miaille, Introdução Crítica ao Direito, Editorial Estampa, 2005, p. 30.
Respondendo
ao convite que nos foi endereçado pelo Armando Palavras para escrever um artigo
para Trás-os-Montes e Alto Douro: Mosaico de Ciência e Cultura, aqui
deixamos algumas reflexões sobre um tema que nos apaixona. Infelizmente, a
distância que nos separa de Lagoaça e o curto intervalo de tempo que nos
concederam não nos permitiram um trabalho de campo sólido que sustentasse ou
infirmasse as considerações subsequentes. Apesar destas contrariedades,
aventuramo-nos a uma viagem pelos caminhos das antigas alianças matrimoniais,
baseada no conhecimento empírico da freguesia e na fragilidade da nossa
memória.
Casamento endogâmico
e exogâmico em Lagoaça
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| Douro - entre Lagoaça e Fornos |
Na realidade, particularmente no
tempo dos nossos avôs e dos nossos pais, ou seja, desde o princípio do século
XX até mais ou menos a década de 60 do mesmo século, esta possibilidade agâmica
estava muitíssimo condicionada pela situação geográfica de relativo isolamento
da aldeia – os meios de transporte públicos e privados eram escassos, tal como
os recursos económicos de uma parte significativa da população, o que
restringia os contactos com o exterior, que ficavam quase confinados às aldeias
vizinhas de Fornos e de Bruçó – e pela pressão social exercida pelas famílias.
Na prática, a endogamia territorial vigorava (e de certo modo ainda tem raízes
no presente), como regra geral, havendo poucos casos, antes de 1970, de
casamentos exogâmicos. Este tipo de casamentos aumentou significativamente a
partir de 1970 e, em especial, a partir das décadas seguintes. As razões que
levaram à proliferação dos casamentos exogâmicos prendem-se, em grande parte,
com a generalização dos transportes públicos e privados, pois eles vieram
facilitar os contactos com o mundo exterior à aldeia, e as mudanças provocadas
pela oferta de novos empregos que originaram um fluxo migratório, sobretudo
para as zonas litorais do país.
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| Fornos |
Se tivermos também em conta que
a situação económica de muitas famílias melhorou significativamente, o que
permitiu aos seus filhos prosseguirem estudos médios e superiores (neste caso,
sempre longe de Lagoaça), encontramos aqui mais um elemento susceptível de
enfraquecer o casamento endogâmico. De facto, os jovens e as jovens naturais da
aldeia que fizeram estudos médios ou superiores, tanto no passado como na
actualidade, casaram, na maioria dos casos, com não naturais e residem fora da
aldeia. Aqueles e aquelas que no passado mais recuado não frequentaram a escola
ou ficaram com as habilitações literárias mínimas, casaram, regra geral, com
naturais (muitos dos que se dedicaram/dedicam à agricultura ou trabalharam nos
“caminhos de ferro”, e alguns que se dedicaram a negócios, residem na aldeia;
os que se empregaram nas forças militares e militarizadas, em fábricas e na
administração pública, regra geral, residem fora de Lagoaça; contudo, é de
assinalar alguns casos recentes de reformados que regressaram à terra).
Segundo o censo de 2001, Lagoaça
tinha 491 residentes (238 homens e 253 mulheres). É muito provável que hoje
tenha menos de 400.
CENSO DE 2001
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População residente
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Homens
|
Mulheres
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238
|
253
|
Destes 400 (ou menos)
residentes, nem todos são naturais de Lagoaça. A maioria dos residentes casados
não naturais da terra é originária das aldeias mais próximas, tanto do concelho
como dos concelhos adjacentes. Conforme pudemos apurar, ainda que de forma não
exaustiva, 10 deles (7 homens e 3 mulheres) são naturais da aldeia vizinha de
Fornos.
População casada residente natural de
Fornos[1]
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|
Homens
|
Mulheres
|
7
|
3
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A posição geográfica de Lagoaça,
a estrutura familiar e social da comunidade, as questões do património tiveram
e, apesar de substancialmente mais circunscritas, têm ainda implicações na
estratégia de alianças matrimoniais tanto dentro como fora da aldeia.
Os casamentos entre naturais
residentes na aldeia enquadram-se, regra geral, no interior da mesma hierarquia
social e em níveis económicos e culturais equivalentes.
Os naturais residentes em
Lagoaça casados com não naturais da aldeia de Fornos têm, em regra, uma posição
social e económica superior ou ligeiramente superior.
Os homens e as mulheres (poucas)
de Lagoaça casados e residentes na aldeia vizinha de Fornos têm menos bens
económicos (essencialmente terras) do que estes.
Se compararmos o número de
homens e de mulheres naturais de Fornos, casados em Lagoaça e aqui residentes,
verificamos que a maioria das mulheres da aldeia conservou a residência na
terra, o que evidencia, regra geral, um maior desafogo económico destas em
relação aos seus cônjuges. Podemos assim afirmar que o elemento determinante da
residência está focalizado na quantidade e na qualidade das terras herdadas
e/ou na possessão de habitação própria.
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Os naturais da aldeia (homens e
mulheres) só casaram com naturais de Fornos, regra geral, nos seguintes casos:
1. Não encontraram em Lagoaça homem ou mulher
disponíveis com equivalente situação económica;
2. Não encontraram na aldeia homem ou mulher
disponíveis com semelhante estatuto sociocultural.
Vítor Fernando Barrosin: Trás-os-Montes e Alto Douro, Mosaico de Ciência e Cultura, Exoterra, 2011.





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