quinta-feira, 5 de setembro de 2013

Virgilio Gomes - Pudins



Virgilio Gomes

Lá volto eu aos doces. O doce provoca uma satisfação emocional à grande maioria das pessoas. Não é necessário comer muitos. Mas vale muito provar e contentar-se. Os pudins incluem-se neste grupo. Com uma colher alegramos a boca e os sentidos.
O termo pudim surgiu possivelmente só no século XIX e, seguramente importado da terminologia inglesa. Mas os portugueses já faziam o que agora se apelida de “pudins”, que chamavam flans ou flaones, e poderemos afirmar que desde o século XVI.
Pudim Abade de Priscos em fatia (1)
Tratemos então os dois tipos de pudins mais importantes e que continuam a confecionar-se em Portugal: os de leite, e os de ovos. Estes últimos são verdadeiramente mais de gemas, e nunca de ovos inteiros. Alguns considerados de gemas também levam leite, e os de leite levam sempre ovos. Também existem ainda outros pudins como os de pão, de mel, de água, e de frutas mas que são integrados naquelas duas grandes categorias.
Podemos acreditar que os primeiros pudins tenham sido os de leite. Aliás, os elementos que os compõem deram também origem aos variados cremes de leite, muitas vezes polvilhados com açúcar e depois queimados. Quase todos os pudins utilizam na sua confeção tanto o leite como os ovos. A sua proporção, ou categoria com maior quantidade ditará a sua designação.
Atendendo ao receituário escrito, temos uma referência de um “Pudim Dourado” do Mosteiro de Santa Clara de Caminha que é verdadeiramente um pudim muito semelhante aos pudins que encontramos em restaurantes como “pudim da casa”, ou “pudim francês”, termo amplamente usado, também próximo dos pudins flans mas cuja receita utiliza manteiga para barrar a forma, em vez de caramelo. Ora o pudim de leite mais delicado que conhecemos é o que atualmente é apresentado como “Pudim Marfim”, possivelmente oriundo do Convento de Santa Clara, de Évora. Este pudim surge após estudos, destinados a elaborar uma lista de doçaria do século XVIII, para fixar num restaurante de luxo instalado nas antigas cozinhas do Palácio Nacional de Queluz, Cozinha Velha”, e que ainda mantém a receita e o pudim faz parte da oferta permanente. E a receita terá sido transmitida por uma familiar da doceira, possivelmente com relações com o convento, que iniciou os trabalhos de pastelaria na abertura daquele restaurante, que terá tido contactos diretos com o convento. De facto, este Pudim Marfim, tem uma elaboração muito delicada e são necessárias várias horas de muita atenção. Começa-se por colocar ao lume dois litros de leite com meio quilo de açúcar e uma vagem de baunilha. Quando o leite reduzir para metade, deixa-se arrefecer e retira-se a vagem baunilha. A frio, e mexendo lentamente, juntam-se catorze gemas de ovo. Barra-se uma forma de bolo inglês com manteiga e enche-se com o creme. Vai ao forno a cozer em lume brando e em banho-maria, até cerca de duas horas, e cobre-se com papel. Deixa-se arrefecer e só depois se desenforma. Polvilha-se com açúcar que é queimado com ferro em brasa. É tradição enfeitar também com fios de ovos. Este é, portanto, o pudim de leite mais famoso e delicado.


Os dias andam tão “azedos” pelo que um docinho pode alegra-nos mais:




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