JORGE LAGE
Desculpem a informalidade, mas, na
escrita gosto dela e poucas são as vezes que cumpro com a formal civilidade,
mesmo com os desconhecidos.
Duma assentada li duas crónicas do
Jorge, cada qual a mais interessante, a primeira açoriana, por força da
deslocação militar, ao que penso, lá foi o Jorge para os Açores uns tempos,
onde se tornou pescador e gastrónomo quanto baste.
A crónica do Chiado tinha que ser
mais intelectual e magistral, porque os figurões e criadores literários
eternizaram-se pelo seu gigantesco talento. Logo, o Coronel Jorge Golias tinha
que subir a parada e fundamentar toda a elevação.
Assim, nesta crónica, o Pessoa da
Mensagem não esteve com meias medidas e contratou, não sei se inspirou no José
Malhoa ou outro artista, apresentando 3 figurões para guarda-costas. Assim,
enquanto o público se distraía com Alberto Caeiro, Ricardo Reis e Álvaro
Campos, Fernando Pessoa podia ir até ao Martinho da Arcada e, na mesa habitual,
pode ser apanhado por algum citadino bisbilhoteiro, «em flagrante delitro» do
néctar de colares ou alentejano, pelos quais o Baco se roeria de inveja.
O Luís de Camões, como flaviense
(sim, o único local em que a tradição oral popular indica a casa em que o épico
nasceu, Nantes), de sangue galego, encarna a máxima que assenta, em muitas
situações aos portugueses e que ele fez jus à exaustão: «putas e vinho verde».
Estourava o pouco que tinha e que não tinha. Foi a moralidade de seiscentos que
nos privou de a sua vida desde o nascimento até à ida para Ceuta.
Talvez uma das mulheres da vida
dele o terá levado a Ceuta. Pouco depois, numa festa do Corpo de Deus uma rixa
atirou-o para a Cadeia do Tronco e de seguida para as naus da carreira marítima
do Oriente. Desconfio que foi para justificar os gastos à tripa forra, dele e
doutros, em três anos de abundância em Macau, sem assentamentos e contas
prestadas, que o barco de regresso que o trouxe de novo a Goa terá naufragado.
Onde perdeu a sua querida chinesa Di Na Mem e talvez a filha de muita tenra
idade.
Aliás, alguns dos grandes
escritores tiveram uma vida muito precária e foi o facto de viverem momentos
dificílimos, que se lhes «aguçou o engenho», como diz o povo. Por exemplo,
Miguel Cervantes, Honoré de Balzac, Camilo Castelo Branco e o próprio Luís de
Camões não teriam subido tão alto na criatividade literária.
Por fim, vou decifrar a
interessante sigla, «CNX02MAI2026JG85» que o Jorge deixa sempre no final das
crónicas para que leitores futuros não tenham dores de cabeça ou dúvidas: CNX,
é a abreviatura de Carnaxide, onde vive; 02MAI2026 a data da escrita; JG as
iniciais do nome (Jorge Sales Golias); 85 a provecta idade do autor. Esta todos
os anos vai aumentando e rijo como uma rocha transmontana.
Parabéns, Jorge! Por tanta fluência
da pena, tanto saber e tanta elevação na escrita!
https://tempocaminhado.blogspot.com/2026/05/cronica-lisboeta.html

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