Se todos os dias tivesse de
escrever uma crónica para um jornal diário, o que me daria muito gozo,
escolheria temas do quotidiano, algo que despertasse logo o interesse geral. Mas
em Lisboa o quotidiano está entrosado com a História de Portugal, inscrita nos
edifícios, ruas e até nas pedras das calçadas.
Por exemplo, andar por Lisboa
seria uma inesgotável fonte de temas pois nunca o faço que se não me deparem
situações que, bem contadas, dariam bons momentos de leitura geral. Como já vou
poucas vezes à Baixa sempre que o faço, comigo veem ter personagens e
flagrantes que me prendem e me suscitam logo ali um textinho à medida.
Um destes dias fui ao encontro de
alguns dos meus amigos da tertúlia transmontana. O ponto de encontro habitual
ou é o Fernando Pessoa, da Brasileira, ou o Camões, ali no seu espaço próprio. Muitas
vezes começo pela saída da Baixa-Chiado. E sempre me pergunto quem teria sido
mesmo aquela personagem do Chiado, embrulhado num manto de pobre, o poeta
obscuro que teve direito a estátua em espaço nobre! Olha, isto até rimou,
talvez por influência do vate que se exibe em sítio mais nobre do que o do
poeta maior, em plano superior, como que interpelando quem passa. Pessoa, no
seu recanto, em remanso, não se levanta nem para ir beber mais um copo, que se
vai fazendo tarde. Farto de aturar todos os que junto dele se sentam para a
foto histórica, submete-se assim à presença do António Ribeiro, por alcunha o
Chiado, um actor menor e um poeta afim.
Um dia o novel presidente do
município resolveu deixar obra, antes que o apeassem do poder e assim acabou
com o Largo das Duas Igrejas (Italianos e da NSEncarnação) que passou a Largo
do Chiado e nasceu um icónico espaço público que gerações posteriores
enobreceram, como Eça, Alexandre Herculano, Pessoa, etc.
Em A Brasileira ficou célebre o
encontro de Fernando Pessoa com Adolfo Casais Monteiro, crítico literário. Só
que nesse dia quem veio não foi FP, mas sim Álvaro de Campos!! E o pobre do
ACMonteiro levou toda a manhã com o heterónimo. FP, quando se referia aos
heterónimos, configurava-os tão bem que chegava a chorar ao falar deles. Vejam
só isto:
Eu vejo diante de mim, no espaço incolor, mas real do sonho, as caras,
os gestos de Caeiro, Ricardo Reis e Álvaro de Campos. Construi-lhes as idades e
as vidas. Ricardo Reis nasceu em 1887 (não me lembro do dia e mês, mas tenho-os
algures), no Porto, é médico e está presentemente no Brasil. Alberto Caeiro
nasceu em 1889 e morreu em 1915; nasceu em Lisboa, mas viveu quase toda a sua
vida no campo. Não teve profissão nem educação quase alguma. Álvaro de Campos nasceu
em Tavira, no dia 15 de Outubro de 1890 (às 1.30 da tarde, diz-me o Ferreira
Gomes; e é verdade, pois, feito o horóscopo para essa hora, está certo). Este,
como sabe, é engenheiro naval (por Glasgow), mas agora está aqui em Lisboa em
inactividade. Caeiro era de estatura média, e, embora realmente frágil (morreu
tuberculoso), não parecia tão frágil como era. Ricardo Reis é um pouco, mas
muito pouco, mais baixo, mais forte, mas seco. Álvaro de Campos é alto (1,75 m
de altura, mais 2 cm do que eu), magro e um pouco tendente a curvar-se. Cara
rapada todos — o Caeiro louro sem cor, olhos azuis; Reis de um vago moreno
mate; Campos entre branco e moreno, tipo vagamente de judeu português, cabelo,
porém, liso e normalmente apartado ao lado, monóculo. Caeiro, como disse, não
teve mais educação que quase nenhuma — só instrução primária; morreram-lhe cedo
o pai e a mãe, e deixou-se ficar em casa, vivendo de uns pequenos rendimentos.
Vivia com uma tia velha, tia-avó. Ricardo Reis, educado num colégio de jesuítas,
é, como disse, médico; vive no Brasil desde 1919, pois se expatriou
espontaneamente por ser monárquico. É um latinista por educação alheia, e um
semi-helenista por educação própria. Álvaro de Campos teve uma educação vulgar
de liceu; depois foi mandado para a Escócia estudar engenharia, primeiro
mecânica e depois naval. Numas férias fez a viagem ao Oriente de onde resultou
o Opiário. Ensinou-lhe latim um tio beirão que era padre.
Pois, alguns heterónimos até
assinatura tinham!
Mas era também este o destino do
Alexandre Herculano quando, já no retiro da Quinta de Santarém, que era da
mulher com quem casou já tarde e que foi namorada de juventude, e que lhe
permitiu ser o primeiro exportador de azeite de Portugal, então, o azeiteiro,
quando subia a calçada assoava-se ruidosamente ao seu famoso lenço tabaqueiro e
assim se anunciava, espalhafatosamente o nosso primeiro historiador
pós-romântico.
Por ali nasceram as famosas Viagens
no Chiado do menos famoso Beldemónio, pseudónimo de Eduardo Barros Lobo,
cronista e jornalista, que “me foi apresentado” por familiares e que vale uma
visita ao Google para se ver como um homem que viveu apenas 36 anos firmou um
tão grande currículo. Neste intelectual, amigo de Trindade Coelho e tradutor de
inúmeros clássicos franceses, me inspirei para as minhas viagens no Chiado,
lembrando agora, de memória, como ele se inspirou para as escrever: um dia
visitou a Sociedade de Geografia e ficou espantado com as viagens dos
portugueses, mas como não tinha dinheiro para as fazer, fez as do Chiado e,
nestas, extasiava-se com as mulheres que todos os dias subam e desciam o Chiado
e, se algum dia elas faltavam, e acontecia, ele perdia o dia! O Beldemónio faz-me
sair do sério, mas se me alegra pelo seu humor e rebeldia, depois entristece-me
porque via falhar rapidamente todos os projectos em que se metia. Morreu cedo e
pobre.
Sempre, ou quase, dependendo da
hora, entro na Brasileira e miro a mesa dos artistas e intelectuais, onde está
o António Carmo. Dois dedos de conversa e ala que se faz tarde. Os Largos do
Chiado e do Camões são hoje, talvez, os espaços mais icónicos de Lisboa e de
Portugal.
Pronto, tenho de ir lá atrás
porque acho que já fugi do tema inicial e assim, volto então à espera dos
transmontanos, tertulianos, que se apresentam para amesendar.
Sempre que falo destes lugares
sagrados perco a noção do tempo e da escrita. Com sorte ainda chego a tempo do
almoço. Até já!
CNX02MAI2026JG85

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