domingo, 19 de abril de 2026

Os crimes do PREC a nu


O período do Processo Revolucionário em Curso (PREC) ainda é, estupidamente, tema tabu. Factos são factos.


Vítor Rainho ( Jornal Nascer do Sol )

18 de abril 2026


Já passaram 50 anos do 25 de Abril e os traumas deixados pelo Estado Novo e pelo período do PREC ainda estão bem frescos. Quer num período, como no outro houve quem sofresse às mãos dos seus carrascos, leia-se PIDE e revolucionários. Uns cederam à tortura, outros não. Como os traumas ainda estão bem vivos é natural que ao falar-se do assunto logo se levantem vozes contra, de acordo com o lado da barricada em que cada um está. O que se passou no tempo da ditadura está mais do que documentado e ninguém coloca em causa as atrocidades que foram cometidas. Mas falar do período do PREC, onde centenas, ou milhares, sofreram às mãos dos revolucionários, ainda é quase proibido. Que se está a desvalorizar o que se passou na ditadura, onde muitos pagaram com a vida por lutarem por democracia e liberdade, dizem. Como estou fora dos dois lados, isto é, tinha oito anos no 25 de Abril, gosto de ler e falar dos dois períodos livremente, pois um dos grandes objetivos do 25 de Abril era precisamente esse: o da liberdade.

Ao ler o livro No Terramoto de 1975, de Tomás Moreira, que recomendo vivamente, para fazer a Entrevista Imprevista, da página 2,  interroguei-me sobre as razões de se querer ‘esconder’ factos que se passaram no Verão Quente. O autor – filho de Ruy Moreira, o empresário que criou a famosa marca Molaflex, e esteve oito meses preso sem culpa formada – fala da extrema-esquerda como da extrema-direita de uma forma desempoeirada.

Relatório

https://www.arquivo.presidencia.pt/viewer?id=989&FileID=302741&recordType=Description


Há quem argumente que o período do PREC foi devidamente analisado pelo Relatório da Comissão de Averiguação de Violências sobre Presos Sujeitos às Autoridades Militares, vulgo Relatório das Sevícias, e que o mesmo demonstra que se vivia em liberdade em 1976. Têm toda a razão, mas esquecem-se de dizer que se não tivesse existido o 25 de Novembro teria sido impossível fazer tal relatório.

Depois há a questão de se saber se havia mais presos políticos no dia 25 de Abril de 1974 do que durante o PREC. Parece óbvio que em Portugal continental havia menos presos políticos do que durante o PREC. Também é óbvio que se juntarmos os presos nas ex-colónias, a balança inverte-se. Esta comparação, como é óbvio, não inclui os numerosos presos políticos durante os 48 anos anteriores a 74.

Mas também me parece óbvio que se a PIDE prendia todos aqueles que achava que eram subversivos e os torturava – principalmente operários e estudantes, pois os advogados e ‘doutores’ tiveram melhor sorte – também o mesmo se passou durante o período do PREC, onde a extrema-esquerda, com o PCP com papel principal, fizeram aos outros o que lhes tinham feito a si. Prenderam, com mandados em branco, assinados por Otelo Saraiva de Carvalho, centenas de pessoas sem qualquer culpa formada, muitas delas apenas por serem empresários de sucesso, como era o caso de Ruy Moreira.

Digamos que se muitos informadores da PIDE, depois do 25 de Abril, procuraram vestir a camisola do PCP ou de outros partidos de extrema-esquerda, dizendo-se os maiores democratas, também os comunistas e outros companheiros de luta, durante o PREC, vestiram a pele de pides, prendendo e torturando pessoas que foram detidas por pensarem de forma diferente.

Tomás Moreira lembra no livro que Balsemão e Sá Carneiro chegaram a ir visitar presos políticos antes do 25 de Abril, mas que, durante o PREC,não quiseram fazer ‘ondas’ sobre as prisões arbitrárias assinadas por Otelo. O tema era escaldante, mas 50 anos depois ainda fará algum sentido ser tema tabu? 

Francisco Sousa Tavares, que tinha defendido presos políticos durante a ditadura, foi depois advogado de Ruy Moreira e escreveu o seguinte sobre esse período: «Regressámos, por isso, às prisões arbitrárias, às acusações falsas, ao domínio da comunicação social pela mentira do governo e pela mentira partidária. Regressámos às coordenadas fascistas de não respeito pelas pessoas, de desprezo pelos direitos individuais, de repúdio da verdade e de destruição da simples liberdade». É assim tão difícil reconhecer o que se passou durante o Processo Revolucionário em Curso?

vitor.rainho@nascerdosol.pt


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