O período do Processo Revolucionário em Curso (PREC) ainda é, estupidamente, tema tabu. Factos são factos.
Vítor Rainho ( Jornal Nascer do Sol )
18 de abril 2026
Ao ler o livro No Terramoto de 1975, de Tomás Moreira, que recomendo vivamente, para fazer a Entrevista Imprevista, da página 2, interroguei-me sobre as razões de se querer ‘esconder’ factos que se passaram no Verão Quente. O autor – filho de Ruy Moreira, o empresário que criou a famosa marca Molaflex, e esteve oito meses preso sem culpa formada – fala da extrema-esquerda como da extrema-direita de uma forma desempoeirada.
Relatório
https://www.arquivo.presidencia.pt/viewer?id=989&FileID=302741&recordType=Description
Há quem argumente que
o período do PREC foi devidamente analisado pelo Relatório da Comissão de
Averiguação de Violências sobre Presos Sujeitos às Autoridades Militares, vulgo
Relatório das Sevícias, e que o mesmo demonstra que se vivia em liberdade em
1976. Têm toda a razão, mas esquecem-se de dizer que se não tivesse existido o
25 de Novembro teria sido impossível fazer tal relatório.
Depois há a questão
de se saber se havia mais presos políticos no dia 25 de Abril de 1974 do que
durante o PREC. Parece óbvio que em Portugal continental havia menos presos
políticos do que durante o PREC. Também é óbvio que se juntarmos os presos nas
ex-colónias, a balança inverte-se. Esta comparação, como é óbvio, não inclui os
numerosos presos políticos durante os 48 anos anteriores a 74.
Mas também me parece
óbvio que se a PIDE prendia todos aqueles que achava que eram subversivos e os
torturava – principalmente operários e estudantes, pois os advogados e
‘doutores’ tiveram melhor sorte – também o mesmo se passou durante o período do
PREC, onde a extrema-esquerda, com o PCP com papel principal, fizeram aos
outros o que lhes tinham feito a si. Prenderam, com mandados em branco,
assinados por Otelo Saraiva de Carvalho, centenas de pessoas sem qualquer culpa
formada, muitas delas apenas por serem empresários de sucesso, como era o caso
de Ruy Moreira.
Digamos que se muitos
informadores da PIDE, depois do 25 de Abril, procuraram vestir a camisola do
PCP ou de outros partidos de extrema-esquerda, dizendo-se os maiores
democratas, também os comunistas e outros companheiros de luta, durante o PREC,
vestiram a pele de pides, prendendo e torturando pessoas que foram detidas por
pensarem de forma diferente.
Tomás Moreira lembra
no livro que Balsemão e Sá Carneiro chegaram a ir visitar presos políticos
antes do 25 de Abril, mas que, durante o PREC,não quiseram fazer ‘ondas’ sobre
as prisões arbitrárias assinadas por Otelo. O tema era escaldante, mas 50 anos
depois ainda fará algum sentido ser tema tabu?
Francisco Sousa Tavares, que tinha defendido presos políticos durante a ditadura, foi depois advogado de Ruy Moreira e escreveu o seguinte sobre esse período: «Regressámos, por isso, às prisões arbitrárias, às acusações falsas, ao domínio da comunicação social pela mentira do governo e pela mentira partidária. Regressámos às coordenadas fascistas de não respeito pelas pessoas, de desprezo pelos direitos individuais, de repúdio da verdade e de destruição da simples liberdade». É assim tão difícil reconhecer o que se passou durante o Processo Revolucionário em Curso?


%20-%20C%C3%B3pia%20-%20C%C3%B3pia.png)
Sem comentários:
Enviar um comentário