Custa-me encontrar um título apropriado à escrita de António
Lobo Antunes que, podendo ganhar dinheiro com a profissão de médico, prefere a
escrita para envergonhar os portugueses. Talvez este início de crónica
escandalize quem costume venerá-lo. Eu, por maior benevolência que queira usar
não posso, nem devo. Por várias razões, algumas das quais vou enunciar. Porque
não gosto de atirar a pedra e esconder a mão.
Este senhor foi mobilizado como médico, para a guerra do
Ultramar. Nunca terá sabido manobrar uma G-3 ou mesmo uma Mauser. Certamente
nem sequer chegou a conhecer a estrutura de um pelotão, de uma companhia, de um
batalhão. Não era operacional mas bota-se a falar como quem pragueja. Refiro-me
ao seu mais recente livro:
«Eu tinha talento para matar e para morrer. No meu batalhão
éramos seiscentos militares e tivemos cento e cinquenta baixas. Era uma
violência indescritível para meninos de vinte e um, vinte e dois ou vinte e
três anos que matavam e depois choravam pela gente que morrera. Eu estava numa
zona onde havia muitos combates e para poder mudar para uma região mais calma
tinha de acumular pontos. Uma arma apreendida ao inimigo valia uns pontos, um
prisioneiro ou um inimigo morto outros tantos pontos. E para podermos mudar,
fazíamos de tudo, matar crianças, mulheres, homens. Tudo contava, e como quando
estavam mortos valiam mais pontos, então não fazíamos prisioneiros».
Penso que isto que deixo transcrito da página 391 do seu
referido livro, se vivêssemos num país civilizado e culto, com valores básicos
e uma sociedade de mente sã e de justiça firme, bastaria para internar este
«escriba», porque todo o livro é uma humilhação sistemática e nauseabunda, aos
Combatentes Portugueses que prestaram serviço em qualquer palco de operações,
além fronteiras.
É um severo ataque à Instituição Militar e uma infâmia aos
comandantes de qualquer ramo das Forças Armadas, de qualquer estrutura
hierárquica e de qualquer frente de combate. Isto que Lobo Antunes escreve e
lhe permite arrecadar «350 contos por mês da editora» (p. 330), deveria ser
motivo de uma averiguação pelo Ministério Público. Porque, em democracia, não
deve poder dizer-se tudo, só porque há liberdade para isso. Essa liberdade que
Lobo Antunes usou para enriquecer à custa do marketing que os mass media
repercutem, sem remoques, porque se trata de um médico com irmãos influentes na
política, ofendeu um milhão de Combatentes, o Ministério da Defesa e uma
juventude desprevenida, porque vai ler estes arrotos literários, na convicção
de que foi assim que se fez a Guerra, entre 1961 e 1974. E ofende, sobretudo, a
alma da Portugalidade porque a «aldeia global» a que pertencemos vai pensar que
isto se passou na vida real nos finais do século XX.
Fui combatente, em Angola, uns anos antes de Lobo Antunes.
Também como ele, fui alferes miliciano (ranger). Estive numa zona muito mais
perigosa do que ele: nos Dembos, com operações no Zemba, na Maria Fernanda, em
Nambuangongo, na Mata Sanga, na Pedra Verde, enfim, no coração da guerra. Nunca
um militar, qualquer que fosse a sua graduação ou especialidade, atirou a
matar. Essa linguagem dos pontos é pura ficção. E essa de fazer cordões com
orelhas de preto, nem ao diabo lembraria. E pior do que tudo é a maldade com
que escarrou no seu próprio batalhão que tinha seiscentos militares e registou
centena e meia de baixas… Como se isto fosse crível.
Se o seu comandante, que na altura deveria ser tenente-coronel,
mais o segundo comandante, os capitães, os alferes, os sargentos e os soldados
em geral, lerem estas aldrabices e não exigirem uma explicação pública, ficarão
na história da guerra do Ultramar como protagonistas de um filme que de
realidade não teve ponta por onde se lhe pegue.
Em primeiro lugar esta mentira pública atinge esses heroicos
combatentes, tão sérios como todos os outros. Porque não há memória de um único
Batalhão ter um décimo das baixas que Lobo Antunes atribui àquele de que ele
próprio fez parte. É preciso ter lata para fazer afirmações tão graves sobre
profissionais que, para serem diferentes deste relatório patológico, basta
terem a seu lado a Bandeira Portuguesa e terem jurado servi-la e servir a
Pátria com honra, dignidade e humanismo.
Não conheço nenhum desses seiscentos militares que acolheram António Lobo Antunes no seu seio e até trataram bem a sua mulher que lhes fez companhia, em pleno mato, segundo escreve nas páginas 249 e 250. Mereciam eles outro respeito e outros elogios. Porque insultos destes ouvimos e lemos muitos, no tempo do PREC. Mas falsidades tão obscenas, nem sequer foram ditas por Otelo Saraiva de Carvalho, quando mandou prender inocentes, com mandados de captura, em branco e até quando ameaçou meter-me e a tantos, no Campo Pequeno, para a matança da Páscoa. Estas enormidades não matam o corpo, mas ferem de morte a alma da nossa Epopeia Nacional.
Barroso da Fonte
Nota do autor:
Em 15/11/2009 na qualidade de oficial miliciano, em
Angola, travei polémica na imprensa com António Lobo Antunes, médico de apoio à
unidade militar, do BART 3835, e com a Mulher a fazer-lhe companhia,
entre 1971 e 1973, em que, também ele miliciano, após o regresso à metrópole e
virar escritor, fez afirmações descabidas sobre a guerra, completamente
distorcidas da realidade, usando para com os soldados, linguagens que misturava
sem nexo, descabidamente. Das muitas e variadas insinuações «picantes», com que
baralhava os combatentes, as obras que publicou, em livros que foram crescendo,
somaram fantasias eróticas e afins com que, hoje, todos nos confrontamos. O
autor de quem aqui falamos, no texto em anexo, faleceu de 5 de março. Paz à sua
alma.

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