Eu quero
ser democrata, e um democrata não admite alternativas nem dissensões. Nós,
democratas, temos de ser uns para os outros – e todos contra o Outro.
24 jan. 2026, 00:20143
Faltam duas
semanas para as eleições e, como é próprio das democracias consolidadas, o
resultado está decidido: tem de ganhar o candidato que as pessoas virtuosas
dizem que tem de ganhar. E as pessoas virtuosas dizem que tem de ganhar António
José Seguro, sob pena de ganhar o Outro e afundar o país nas trevas do
fascismo.
O dr.
Seguro não é fascista. O dr. Seguro esteve com Guterres e nem por uma vez
criticou as maravilhas do rendimento mínimo. O dr. Seguro esteve com Sócrates e
jamais proferiu um ataque populista à corrupção. O dr. Seguro esteve na
liderança do PS e nunca pactuou com a austeridade cega ditada pela “troïka” e aplicada pelo pérfido governo de Pedro
Passos Coelho. O dr. Seguro só não esteve com Costa por meras vicissitudes do
destino. O dr. Seguro é bom e humanista. Não acreditam? Perguntem-lhe. E é
virtuoso, como os virtuosos que o apoiam e ao contrário da cáfila de filhos de
uma mãe desavergonhada que não o apoiam. Tirando o pormenor de ser militante do
PS há 45 anos, o dr. Seguro quase nem é socialista.
E não se
trata apenas de uma questão ideológica. Está em jogo uma dimensão clínica. Com
ponderação, Sérgio Sousa Pinto garante que somente os “atrasados mentais” [sic]
hesitam entre o partido do Outro e o PS, leia-se entre o Outro e o dr. Seguro.
Além de ninguém desejar ser fascista, ninguém deseja ser atrasado mental, pelo
que não há hesitação possível quanto ao caminho a trilhar. Não basta não votar
no Outro, é preciso votar no dr. Seguro. E não basta votar no dr. Seguro: é
preciso anunciá-lo ao mundo (ou aos espectadores da Sic, vá) com toda a força
que o desrespeito pelos pulmões e o respeito pelas instituições nos conferem.
Temos a
obrigação cívica de espalhar o anúncio através dos meios que pudermos, nas
televisões, nas rádios, nos jornais, nos cafés, nos escritórios, nos autocarros
e nos jantares em família. Devemos gritar nas ruas (até às dez da noite, por
causa dos vizinhos e da polícia) que estamos perante a eleição mais importante
desde a insurreição de Viriato e que o voto em Seguro é decisivo para impedir
que em dois meses Portugal se transforme na Alemanha de 1933. Ou no Portugal de
1973. Ou na América de 2026.
Assim, é
com urgência e orgulho que eu, que não quero ser fascista, racista, xenófobo,
homofóbico e columbófilo, e que não sou menos virtuoso que os demais, venho por
este meio anunciar o meu apoio inequívoco ao dr. Seguro. À semelhança de cerca
de 99,8% dos notáveis da nação, e de braço metaforicamente dado a socialistas
moderadíssimos e democratas encartados do gabarito da dra. Temido, da dra.
Leitão, do dr. Pedro Nuno e do dr. Tavares, além do cançonetista Tordo,
votarei Seguro no dia 8. Eu quero ser democrata, e um democrata não admite
alternativas nem dissensões.
Nós,
democratas, temos de ser uns para os outros – e todos contra o Outro. A divisão
esquerda/direita é um instrumento insidioso dos fascistas e deixou de existir
quando os democratas, sobretudo os da direita, decidiram aboli-la. Os
democratas não dividem a sociedade, excepto para dividir a sociedade em
Decentes contra Indecentes (os Decentes somos nós). E em Fascismo versus
Civilização, sendo que na civilização cabem a direita civilizada, a
social-democracia civilizada, o liberalismo civilizado, o socialismo civilizado,
o comunismo civilizado, os civilizados adeptos do Hamas e o cançonetista Tordo.
Acima das diferenças microscópicas e da divertida golpada de 2015, partilhamos
os valores da integridade, sem esquecer a integridade de Catarina Martins, que
no parlamento europeu protege os aiatolas do fascismo dos manifestantes. É como
se navegássemos, unidos e fraternos, numa flotilha imaginária ao som da
“Tourada”.
No Domingo,
durante o discurso da vitória, o dr. Seguro deu o mote. Primeiro, prometeu
“unir os portugueses”. Aplaudi. Depois especificou a que portugueses se
referia: “Todos os democratas contra o extremismo de quem semeia o ódio”.
Aplaudi de pé. Reparem que nem o dr. Seguro, paradigma supremo da tolerância e
da benevolência e da inclusão, está disposto a incluir extremistas, para cúmulo
dos que semeiam ódio com a enxada do radicalismo. Numa democracia cabem aqueles
que os verdadeiros democratas permitem. Os portugueses que não são democratas
de acordo com a concepção consagrada do termo – os fascistas e atrasados mentais
que não votam no dr. Seguro – não são portugueses. Em nome do humanismo, o
ideal era mandá-los para a terra deles. Infelizmente, parece que a terra dos
fascistas é esta e os fascistas têm por enquanto o insuportável direito de aqui
viver e, raios partam isto, votar.
E este é o problema. Os fascistas andam por aí. E são imensos. E teimosos. E não se esforçam por se integrar nem se importam de destoar. E rejeitam que os critérios da decência sejam impostos por um sistema político que lhes parece progressivamente promíscuo e indecoroso. E insistem em questionar a natureza de uma democracia que permanentemente os segrega e humilha. E multiplicam-se em relação directa ao escárnio que os democratas lhes dedicam. Ainda não se multiplicaram o suficiente para vencer agora, mas um dia os fascistas chegam lá – graças ao desalmado empenho de tantos humanistas que seriam fascistas se não obedecessem às directivas dos humanistas restantes. Por isso obedecem. E eu também: voto no candidato da decência para não ser fascista. E para desfrutar da liberdade. É mais Seguro.
FONTE: https://observador.pt/opiniao/mais-4628-razoes-para-votar-pelo-seguro/


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