Mário Adão Magalhães
jornalista
A ameaça de interrupção da distribuição de jornais no Interior do País,
anunciada pela distribuidora VASP, não é apenas um problema logístico nem um
episódio menor num sector em crise. Como escrevi há dias, trata-se de um sinal
grave de empobrecimento democrático. Quando a imprensa deixa de chegar, não
falha apenas o papel. Falha o acesso à informação, à pluralidade, ao espaço
comum onde a sociedade se reconhece, se questiona e se discute. O Interior do
País não pode ser tratado como território dispensável, como se a cidadania
fosse graduada pela densidade populacional ou pela rentabilidade de uma rota.
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Foi a partir desta inquietação que me dei conta de outra evidência, mais íntima
e pessoal, mas não menos interessante. A velocidade com que tudo mudou em tão
poucos anos é, vista à distância, quase desconcertante. E digo isto sem me
colocar na posição confortável ou desconfortável, conforme o olhar, da idade.
Não sou velho por aí além. Ainda assim, a sucessão de transformações que vivi,
não apenas na Comunicação Social mas também na forma geral de comunicar, é
suficiente para provocar espanto e, confesso, alguma perplexidade.
A geração que, como eu, nasceu entre as décadas de sessenta, setenta e oitenta
atravessou uma mutação profunda dos meios, dos gestos e do tempo. Mudaram os
telefones, mudaram as formas de escrever, de enviar e de esperar. Mudou o modo
como a palavra circula e o valor que lhe é atribuído. Não se trata apenas de
progresso tecnológico, com o seu saldo inevitável de ganhos e perdas. Trata-se
de uma alteração estrutural da própria experiência humana do tempo e da espera.
Não havia Google nem Inteligência Artificial. Havia memória. E, no meu caso,
uma memória reconhecida por quem me conhece, que sempre foi instrumento
essencial. Talvez o fosse porque não havia alternativa imediata. Havia
dicionários e enciclopédias, que nos obrigavam a levantar da mesa, a
interromper o fluxo da escrita para procurar uma palavra, um dado, uma
confirmação. Esse gesto fazia parte do pensamento. A memória era, então,
fundamental. Era uma ferramenta.
Quando hoje se fala com ligeireza de saúde mental, não será descabido
interrogarmo-nos até que ponto esta aceleração permanente, esta exigência de
imediatismo absoluto, não cobra um preço silencioso a quem viveu ambos os
mundos. O da lentidão funcional e o da rapidez constante. O mundo em que se
esperava e o mundo em que tudo se exige para agora.
Convém sublinhar que este “hoje”, quando falamos dos jovens, não corresponde a
um intervalo remoto. Não passaram séculos, nem sequer muitas gerações. Em
poucas décadas, quase num pestanejar de pálpebras, transformou-se por completo
a forma de fazer jornalismo. Nos anos noventa, uma máquina de escrever, um
gravador de reportagem e uma máquina fotográfica grande e pesada - o bloco no
bolso e a esferográfica faziam parte do corpo, sempre prontos para aquele
apontamento, aquela memória instantânea, bastavam para compor um jornalista.
Nada mais. Esses instrumentos parecem hoje, aos olhos de muitos, acessórios
românticos. Para mim conservam valor, método e uma memória saudável, razão pela
qual gostaria de os dar a conhecer aos meus pósteros, não apenas como
curiosidade, mas como forma de proximidade, de memória.
Gosto de os imaginar hoje arrumados num canto do gabinete, não como relíquias
inúteis, mas como um pequeno museu íntimo de um tempo ainda recente. Um tempo
em que escrever exigia corpo, ruído e resistência. Comecei por escrever, ainda
jovem, textos à mão para jornal. Escrevi outros numa máquina mecânica, e que
luxo era, cujo som atravessava a noite e roubava o sono à minha mãe. Havia ali
escopo. Uma cadência quase musical, uma verdadeira escultura de cada letra, de
cada palavra, de cada frase. Um cinzel físico aplicado ao texto.
Comprava rolos de trinta e seis fotografias para que o desperdício fosse menor
do que num rolo de doze ou de vinte e quatro. Fazia quatro ou cinco imagens, ia
a correr mandá-las revelar: cortava-se o rolo com muita dinâmica para poder ser
reaproveitado. Seguia-se a ida ao Correio, a carta enviada com a esperança de
que chegasse a Lisboa a tempo de, na Quarta ou na Quinta-Feira, aquilo que se
escrevera estar impresso em papel, visível, vivo, a sair para as bancas.
Enviei artigos em cartas de correio de Felgueiras para a Lixa. Sete
quilómetros! Houve um dia em que entreguei uma carta a uma ambulância dos
Bombeiros da Lixa para a fazer chegar ao jornal da cidade. Cruzámo-nos no
semáforo da passadeira. Perguntei se a podiam entregar. Disseram que sim, com
uma naturalidade que hoje é inexistente. Havia outros circuitos, outras
urgências e outras formas que não passavam por algoritmos nem por confirmações
automáticas.
Entretanto, muitos outros circuitos se instalaram. Vieram novas etapas. A
disquete foi, à época, uma novidade espantosa, uma revolução silenciosa que
poucos perceberam de imediato. Hoje escreve-se um texto, edita-se de imediato a
composição gráfica, algo que em papel exigia um trabalho aturado na gráfica, e
em poucos instantes esse texto circula pelo mundo inteiro. Tudo se tornou
veloz, imediato, quase etéreo. A palavra perdeu peso físico, mas ganhou
ubiquidade.
Não se trata de lamentar o passado nem de recusar o presente. Trata-se de
reconhecer que algo se perdeu pelo caminho. O tempo da espera, a paciência do
percurso, a consciência do intervalo entre escrever e chegar. Essa distância
impunha responsabilidade, cuidado e reflexão. Talvez por isso a ameaça de que
os jornais deixem de chegar ao Interior do País seja tão simbólica. Não é
apenas o papel que falha. É uma forma de relação com a informação que se rompe.
Esta não é uma nostalgia vazia. É uma saudade lúcida. A consciência clara de
que, em poucos anos, mudaram os gestos, os ritmos e os caminhos da palavra
escrita. E de que, no meio da vertigem tecnológica, ainda guardamos a memória
viva de quando tudo exigia tempo, paciência e uma certa fé no percurso até
chegar. Talvez seja essa memória que nos permita perceber que uma democracia
sem imprensa acessível, sobretudo no Interior do País, é uma democracia mais
pobre, mais frágil e, inevitavelmente, mais curta
Mário Adão Magalhães
(Não pratico
deliberadamente o chamado Acordo Ortográfico).
LEVEI, GUARDEI, E PUBLIQUEI ESTE GRANDE TEXTO! - GRANDE LUPA QUE O EXMO. SENHOR TEM... -E QUE MEDO DO MUNDO TECNOLÓGICO QUE VAI "ENTRANDO"...
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