terça-feira, 16 de dezembro de 2025

A verdadeira espuma dos dias

Mário Adão Magalhães

jornalista

A ameaça de interrupção da distribuição de jornais no Interior do País, anunciada pela distribuidora VASP, não é apenas um problema logístico nem um episódio menor num sector em crise. Como escrevi há dias, trata-se de um sinal grave de empobrecimento democrático. Quando a imprensa deixa de chegar, não falha apenas o papel. Falha o acesso à informação, à pluralidade, ao espaço comum onde a sociedade se reconhece, se questiona e se discute. O Interior do País não pode ser tratado como território dispensável, como se a cidadania fosse graduada pela densidade populacional ou pela rentabilidade de uma rota.


Foi a partir desta inquietação que me dei conta de outra evidência, mais íntima e pessoal, mas não menos interessante. A velocidade com que tudo mudou em tão poucos anos é, vista à distância, quase desconcertante. E digo isto sem me colocar na posição confortável ou desconfortável, conforme o olhar, da idade. Não sou velho por aí além. Ainda assim, a sucessão de transformações que vivi, não apenas na Comunicação Social mas também na forma geral de comunicar, é suficiente para provocar espanto e, confesso, alguma perplexidade.
A geração que, como eu, nasceu entre as décadas de sessenta, setenta e oitenta atravessou uma mutação profunda dos meios, dos gestos e do tempo. Mudaram os telefones, mudaram as formas de escrever, de enviar e de esperar. Mudou o modo como a palavra circula e o valor que lhe é atribuído. Não se trata apenas de progresso tecnológico, com o seu saldo inevitável de ganhos e perdas. Trata-se de uma alteração estrutural da própria experiência humana do tempo e da espera.
Não havia Google nem Inteligência Artificial. Havia memória. E, no meu caso, uma memória reconhecida por quem me conhece, que sempre foi instrumento essencial. Talvez o fosse porque não havia alternativa imediata. Havia dicionários e enciclopédias, que nos obrigavam a levantar da mesa, a interromper o fluxo da escrita para procurar uma palavra, um dado, uma confirmação. Esse gesto fazia parte do pensamento. A memória era, então, fundamental. Era uma ferramenta.
Quando hoje se fala com ligeireza de saúde mental, não será descabido interrogarmo-nos até que ponto esta aceleração permanente, esta exigência de imediatismo absoluto, não cobra um preço silencioso a quem viveu ambos os mundos. O da lentidão funcional e o da rapidez constante. O mundo em que se esperava e o mundo em que tudo se exige para agora.
Convém sublinhar que este “hoje”, quando falamos dos jovens, não corresponde a um intervalo remoto. Não passaram séculos, nem sequer muitas gerações. Em poucas décadas, quase num pestanejar de pálpebras, transformou-se por completo a forma de fazer jornalismo. Nos anos noventa, uma máquina de escrever, um gravador de reportagem e uma máquina fotográfica grande e pesada - o bloco no bolso e a esferográfica faziam parte do corpo, sempre prontos para aquele apontamento, aquela memória instantânea, bastavam para compor um jornalista. Nada mais. Esses instrumentos parecem hoje, aos olhos de muitos, acessórios românticos. Para mim conservam valor, método e uma memória saudável, razão pela qual gostaria de os dar a conhecer aos meus pósteros, não apenas como curiosidade, mas como forma de proximidade, de memória.
Gosto de os imaginar hoje arrumados num canto do gabinete, não como relíquias inúteis, mas como um pequeno museu íntimo de um tempo ainda recente. Um tempo em que escrever exigia corpo, ruído e resistência. Comecei por escrever, ainda jovem, textos à mão para jornal. Escrevi outros numa máquina mecânica, e que luxo era, cujo som atravessava a noite e roubava o sono à minha mãe. Havia ali escopo. Uma cadência quase musical, uma verdadeira escultura de cada letra, de cada palavra, de cada frase. Um cinzel físico aplicado ao texto.

Comprava rolos de trinta e seis fotografias para que o desperdício fosse menor do que num rolo de doze ou de vinte e quatro. Fazia quatro ou cinco imagens, ia a correr mandá-las revelar: cortava-se o rolo com muita dinâmica para poder ser reaproveitado. Seguia-se a ida ao Correio, a carta enviada com a esperança de que chegasse a Lisboa a tempo de, na Quarta ou na Quinta-Feira, aquilo que se escrevera estar impresso em papel, visível, vivo, a sair para as bancas.
Enviei artigos em cartas de correio de Felgueiras para a Lixa. Sete quilómetros! Houve um dia em que entreguei uma carta a uma ambulância dos Bombeiros da Lixa para a fazer chegar ao jornal da cidade. Cruzámo-nos no semáforo da passadeira. Perguntei se a podiam entregar. Disseram que sim, com uma naturalidade que hoje é inexistente. Havia outros circuitos, outras urgências e outras formas que não passavam por algoritmos nem por confirmações automáticas.
Entretanto, muitos outros circuitos se instalaram. Vieram novas etapas. A disquete foi, à época, uma novidade espantosa, uma revolução silenciosa que poucos perceberam de imediato. Hoje escreve-se um texto, edita-se de imediato a composição gráfica, algo que em papel exigia um trabalho aturado na gráfica, e em poucos instantes esse texto circula pelo mundo inteiro. Tudo se tornou veloz, imediato, quase etéreo. A palavra perdeu peso físico, mas ganhou ubiquidade.
Não se trata de lamentar o passado nem de recusar o presente. Trata-se de reconhecer que algo se perdeu pelo caminho. O tempo da espera, a paciência do percurso, a consciência do intervalo entre escrever e chegar. Essa distância impunha responsabilidade, cuidado e reflexão. Talvez por isso a ameaça de que os jornais deixem de chegar ao Interior do País seja tão simbólica. Não é apenas o papel que falha. É uma forma de relação com a informação que se rompe.
Esta não é uma nostalgia vazia. É uma saudade lúcida. A consciência clara de que, em poucos anos, mudaram os gestos, os ritmos e os caminhos da palavra escrita. E de que, no meio da vertigem tecnológica, ainda guardamos a memória viva de quando tudo exigia tempo, paciência e uma certa fé no percurso até chegar. Talvez seja essa memória que nos permita perceber que uma democracia sem imprensa acessível, sobretudo no Interior do País, é uma democracia mais pobre, mais frágil e, inevitavelmente, mais curta

Mário Adão Magalhães

(Não pratico deliberadamente o chamado Acordo Ortográfico).

 

1 comentário:

  1. LEVEI, GUARDEI, E PUBLIQUEI ESTE GRANDE TEXTO! - GRANDE LUPA QUE O EXMO. SENHOR TEM... -E QUE MEDO DO MUNDO TECNOLÓGICO QUE VAI "ENTRANDO"...

    ResponderEliminar

250 anos de "A Riqueza das Nações"

 

Os mais lidos