![]() |
| Miguel Boieiro |
Barrilha
O
Grande Dicionário da Língua Portuguesa de José Pedro Machado, editado pela
malograda Sociedade de Língua Portuguesa, define, deste modo, a palavra halófitas:
Plantas
que prosperam em solos que contenham cloreto de sódio em dose mais ou menos elevada
e impróprios para a maior parte da vegetação.
Pela
breve descrição, pode parecer aos incautos que tais plantas estão destituídas
de vantagens, comparando com a maior parte dos restantes vegetais, tendo, por
isso, exígua valia. Contudo, com o avanço das investigações científicas, hoje é
bem claro que as halófitas constituem uma provisão preciosa para a subsistência
da Humanidade no seu porvir arriscado e quiçá, armadilhado. Elas são também um
fator de equilíbrio dos ecossistemas como suporte biológico e proteção de
outras espécies vegetais e animais.
Residindo
numa zona adjacente ao estuário do Tejo, tenho vindo a concitar algum interesse
pelo desenvolvimento das halófitas e já redigi singelas croniquetas que podem
ser encontradas nos vários volumes publicados de “As Plantas, Nossas Irmãs”,
alusivas às seguintes espécies:
Salicórnia (Salicornia ramosissima), gramata-branca (Halimione portulacoides), setembrista (Aster tripolium), inula-marítima (Inula crithmoides), salgadeira (Atriplex halimus), rabo-de-raposa-amarelo (Cistanche phelypaea).
As
cinco primeiras, para além dos seus méritos fitoterápicos, são comestíveis. A
última, que eu saiba, ainda não. A “procissão ainda vai no adro”, o que
significa que, enquanto me sobrar ânimo e saúde, continuo a investigar sobre mais
espécies que vegetam em meios salinos.
Ora,
na última edição da Festisal, organizada pela Fundação das Salinas do
Samouco, despertou-me a atenção a embalagem de outra halófita alimentar,
apresentada pela Salina Greens da infatigável amiga
Márcia Vaz Pinto, que já está a comercializar.
Falo
da Suaeda vera, da família das Amaranthaceae, conhecida
popularmente por barrilha.
É
uma arbustiva suculenta perene muito ramificada que coloniza solos hipersalinas,
e que se alastra por sapais e muros das salinas nas áreas costeiras da região
mediterrânica.
Possui
pequenas folhas alternadas, inteiras, carnudas, destituídas de pecíolo e de
forma arredondada que se distribuem ao longo do seu caule lenhoso. Este pode
atingir cerca de 1 metro de altura, no princípio de cor verde, mas, com o
passar do tempo, acaba por ficar avermelhado.
As
inflorescências são terminais, constituídas por minúsculas flores hermafroditas
verde-amareladas que geram sementes lisas.
O
género Suaeda, nome de origem árabe,
integra mais de uma centena de espécies usadas como forragem para alimentar o
gado.
Comprovou-se
depois que a barrilha era adequada para corrigir solos salinos poluídos por
metais pesados.
Devido à sua riqueza em sais de carbonato de potássio (K2CO3), chegou a servir como matéria-prima destinada à produção de vidro e sabão.
No
que concerne à fitoterapia, apurou-se que a barrilha é antioxidante, anti-inflamatória
e diurética, sendo adequada para indigestões, inchaços e doenças da pele.
A
medicina popular recomenda o uso das folhas frescas, ou secas, para preparar um
“chá” a fim de aliviar transtornos digestivos.
Convém,
no entanto, ter algum cuidado para quem se encontra a tomar medicamentos
diuréticos, pois poderá haver interações, aumentando o risco de desidratação.
Por fim, há que acentuar o seu uso alimentar. As pequenas folhas polvilhadas nos pratos de peixe, carne, ou mesmo vegetarianos, esmeram a apresentação das ementas e enriquecem o paladar.
Novembro de 2025
Miguel
Boieiro

.png)
Sem comentários:
Enviar um comentário