domingo, 23 de novembro de 2025

Barrilha

 

Miguel Boieiro

Barrilha

 

O Grande Dicionário da Língua Portuguesa de José Pedro Machado, editado pela malograda Sociedade de Língua Portuguesa, define, deste modo, a palavra halófitas:

 

Plantas que prosperam em solos que contenham cloreto de sódio em dose mais ou menos elevada e impróprios para a maior parte da vegetação.

 

Pela breve descrição, pode parecer aos incautos que tais plantas estão destituídas de vantagens, comparando com a maior parte dos restantes vegetais, tendo, por isso, exígua valia. Contudo, com o avanço das investigações científicas, hoje é bem claro que as halófitas constituem uma provisão preciosa para a subsistência da Humanidade no seu porvir arriscado e quiçá, armadilhado. Elas são também um fator de equilíbrio dos ecossistemas como suporte biológico e proteção de outras espécies vegetais e animais.

Residindo numa zona adjacente ao estuário do Tejo, tenho vindo a concitar algum interesse pelo desenvolvimento das halófitas e já redigi singelas croniquetas que podem ser encontradas nos vários volumes publicados de “As Plantas, Nossas Irmãs”, alusivas às seguintes espécies:

Salicórnia (Salicornia ramosissima), gramata-branca (Halimione portulacoides), setembrista (Aster tripolium), inula-marítima (Inula crithmoides), salgadeira (Atriplex halimus), rabo-de-raposa-amarelo (Cistanche phelypaea).

As cinco primeiras, para além dos seus méritos fitoterápicos, são comestíveis. A última, que eu saiba, ainda não. A “procissão ainda vai no adro”, o que significa que, enquanto me sobrar ânimo e saúde, continuo a investigar sobre mais espécies que vegetam em meios salinos.

Ora, na última edição da Festisal, organizada pela Fundação das Salinas do Samouco, despertou-me a atenção a embalagem de outra halófita alimentar, apresentada pela Salina Greens da infatigável amiga Márcia Vaz Pinto, que já está a comercializar.

Falo da Suaeda vera, da família das Amaranthaceae, conhecida popularmente por barrilha.

É uma arbustiva suculenta perene muito ramificada que coloniza solos hipersalinas, e que se alastra por sapais e muros das salinas nas áreas costeiras da região mediterrânica.

Possui pequenas folhas alternadas, inteiras, carnudas, destituídas de pecíolo e de forma arredondada que se distribuem ao longo do seu caule lenhoso. Este pode atingir cerca de 1 metro de altura, no princípio de cor verde, mas, com o passar do tempo, acaba por ficar avermelhado.

As inflorescências são terminais, constituídas por minúsculas flores hermafroditas verde-amareladas que geram sementes lisas.

O género Suaeda, nome de origem árabe, integra mais de uma centena de espécies usadas como forragem para alimentar o gado.

Comprovou-se depois que a barrilha era adequada para corrigir solos salinos poluídos por metais pesados.

Devido à sua riqueza em sais de carbonato de potássio (K2CO3), chegou a servir como matéria-prima destinada à produção de vidro e sabão.

No que concerne à fitoterapia, apurou-se que a barrilha é antioxidante, anti-inflamatória e diurética, sendo adequada para indigestões, inchaços e doenças da pele.

A medicina popular recomenda o uso das folhas frescas, ou secas, para preparar um “chá” a fim de aliviar transtornos digestivos.

Convém, no entanto, ter algum cuidado para quem se encontra a tomar medicamentos diuréticos, pois poderá haver interações, aumentando o risco de desidratação.

Por fim, há que acentuar o seu uso alimentar. As pequenas folhas polvilhadas nos pratos de peixe, carne, ou mesmo vegetarianos, esmeram a apresentação das ementas e enriquecem o paladar.

Novembro de 2025

Miguel Boieiro

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