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| JORGE GOLIAS |
Há quase 50 anos que piso quase diariamente estes terrenos junto do local onde moro. Conheço as pedras da calçada, dito em onda metafórica, como as palmas da minha mão. Cruzo-me com estas pessoas que sobreviveram à pandemia, sabendo quem são, mesmo ao longe, ainda que nunca tenha trocado palavras, pois as gentes daqui não são de grandes cumprimentos. Sei dos jardins e árvores, arbustos, e de muitos poderia contar uma história parecida com a do Sr. Pinheiro, que já aqui contei e que continuo a saudar diariamente. Reconheço as espécies que por aqui se enraízam como os negrilhos, pinheiros, oliveiras, iúcas, jacarandás, buganvílias, hibiscos, eucaliptos, palmeiras, e todas as espécies tropicais que por aqui pululam e que nunca me foram apresentadas.
Das varandas vejo a povoação
e o casario, que se desenha geometricamente por pracetas, e de uma delas vejo o
estádio nacional e avisto uma faixa de foz e mar.
Ou seja, tenho aqui o
suficiente para me enraizar, e por aqui me sentir em casa, tal como estas
árvores de maior porte, que vieram de algures, mas que se adaptaram bem, sem
remoques nem protestos de saudade da terra que as viu nascer.
Acontece, porém, o
contrário! Não me identifico com este território nem com esta casa, minha de
jure e de facto, mas que depressa a despacharia sem deixar saudade. A casa
e a terra, esta ou qualquer outra, excepto a minha, que não tenho, mas que
existe na minha imaginação. Na minha terra natal. Lá, está a minha casa e o meu
território, aquele que pisoteio fugazmente quando a sorte de poder viajar me
acompanha.
Caminho por aquelas ruas
antigas, da minha meninice e juventude, e sinto os passos dos que já não
passam, mas que sempre estarão por perto. Talvez sinta mais agora que sou mais
velho do que todos eles que se foram. O velho hoje sou seu, meu velho! Com te
ririas com aquele teu ar de bem com a vida se me visses com os meus 82 e tu com
os 74, sem rugas, com que te partiste! Cheio de saúde saíste de cena em tempo
de não sentires as chatices do velho que é o teu filho. Não provaste o sal de
uma artrose ou de uma bursite (sabes lá o que isso é, como eu também não sabia.
Bursite!!).
Como gostava de te ter aqui
hoje que recebi da nossa terra um tinto de verano muito amigável. As
voltas que davas pelo concelho à procura de um vinho bom, leve, clarete, com
espuma a desfazer rapidinho e, se possível, com agulha. E como gostavas de
partilhar um bom copo na roda dos teus amigos, que eram também meus porque eu
andava sempre por perto dos teus terrenos. Gostava de vos ouvir e será também
por isso que guardei muita da vossa sabedoria, que me permitiu muitas páginas
de crónicas no nosso NM. Ajudaste-me a ser um contador de estórias, que vou
escrevinhando assim ao correr da pena, deixando que ela muitas vezes faça o
trabalho que devia ser meu, e eu deixo a coisa andar assistindo de cima, achando
graça a esta geração espontânea de um texto cheio de sumo, assim numa ligação
tipo wireless, gerada com se fosse uma fonte de IA.
Com este discurso os velhos
afastaram-se, eu próprio estou aqui curioso de saber como é que isto vai
acabar!
E acaba, comigo na dúvida de
se o que aqui fica inscrito é meu ou uma produção da Inteligência Artificial?!
Ora respondam lá…
Carnaxide, 9 de Julho de
2023
JG82


Mas que rica sobremesa que aqui nos esperava...
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