domingo, 9 de julho de 2023

PISOTEIO

JORGE  GOLIAS

Há quase 50 anos que piso quase diariamente estes terrenos junto do local onde moro. Conheço as pedras da calçada, dito em onda metafórica, como as palmas da minha mão. Cruzo-me com estas pessoas que sobreviveram à pandemia, sabendo quem são, mesmo ao longe, ainda que nunca tenha trocado palavras, pois as gentes daqui não são de grandes cumprimentos. Sei dos jardins e árvores, arbustos, e de muitos poderia contar uma história parecida com a do Sr. Pinheiro, que já aqui contei e que continuo a saudar diariamente. Reconheço as espécies que por aqui se enraízam como os negrilhos, pinheiros, oliveiras, iúcas, jacarandás, buganvílias, hibiscos, eucaliptos, palmeiras, e todas as espécies tropicais que por aqui pululam e que nunca me foram apresentadas.

Das varandas vejo a povoação e o casario, que se desenha geometricamente por pracetas, e de uma delas vejo o estádio nacional e avisto uma faixa de foz e mar.

Ou seja, tenho aqui o suficiente para me enraizar, e por aqui me sentir em casa, tal como estas árvores de maior porte, que vieram de algures, mas que se adaptaram bem, sem remoques nem protestos de saudade da terra que as viu nascer.

Acontece, porém, o contrário! Não me identifico com este território nem com esta casa, minha de jure e de facto, mas que depressa a despacharia sem deixar saudade. A casa e a terra, esta ou qualquer outra, excepto a minha, que não tenho, mas que existe na minha imaginação. Na minha terra natal. Lá, está a minha casa e o meu território, aquele que pisoteio fugazmente quando a sorte de poder viajar me acompanha.

Caminho por aquelas ruas antigas, da minha meninice e juventude, e sinto os passos dos que já não passam, mas que sempre estarão por perto. Talvez sinta mais agora que sou mais velho do que todos eles que se foram. O velho hoje sou seu, meu velho! Com te ririas com aquele teu ar de bem com a vida se me visses com os meus 82 e tu com os 74, sem rugas, com que te partiste! Cheio de saúde saíste de cena em tempo de não sentires as chatices do velho que é o teu filho. Não provaste o sal de uma artrose ou de uma bursite (sabes lá o que isso é, como eu também não sabia. Bursite!!).

Como gostava de te ter aqui hoje que recebi da nossa terra um tinto de verano muito amigável. As voltas que davas pelo concelho à procura de um vinho bom, leve, clarete, com espuma a desfazer rapidinho e, se possível, com agulha. E como gostavas de partilhar um bom copo na roda dos teus amigos, que eram também meus porque eu andava sempre por perto dos teus terrenos. Gostava de vos ouvir e será também por isso que guardei muita da vossa sabedoria, que me permitiu muitas páginas de crónicas no nosso NM. Ajudaste-me a ser um contador de estórias, que vou escrevinhando assim ao correr da pena, deixando que ela muitas vezes faça o trabalho que devia ser meu, e eu deixo a coisa andar assistindo de cima, achando graça a esta geração espontânea de um texto cheio de sumo, assim numa ligação tipo wireless, gerada com se fosse uma fonte de IA.

Com este discurso os velhos afastaram-se, eu próprio estou aqui curioso de saber como é que isto vai acabar!

E acaba, comigo na dúvida de se o que aqui fica inscrito é meu ou uma produção da Inteligência Artificial?! Ora respondam lá…

Carnaxide, 9 de Julho de 2023                                                  JG82


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