Pela primeira vez depois de 1945, a Europa voltou a ver um Estado a invadir outro, reivindicando pela força das armas um ajustamento de fronteiras e a protecção de minorias alegadamente ameaçadas. Embora tenham surgido, depois de 24-02-2022, opiniões que recusam como exageradas e insensatas as comparações entre Hitler e Putin, não há como não reconhecer que as semelhanças existem e devem ser tidas em conta, olhando para Hitler como ele era avaliado antes da guerra e no seu início, e não com o conhecimento que dele se teve após a derrota da Alemanha.
DO MODELO DE CULPABILIZAÇÃO DOS INVADIDOS
EUROPA 1939-2022
As
fronteiras dos Estados são feitas pelo homem e alteradas pelo homem.
Adolf Hitler, Mein Kampf
David Martelo
É oficial do Exército (coronel) reformado
Conselho Científico da Comissão Portuguesa de História
Militar
15 de maio, 2022
https://a-bigorna.webnode.pt/_files/200001066-6bf726bf74/Culpabiliza%C3%A7%C3%A3o_invadidos.pdf
Enquanto o início da 1.ª Guerra Mundial
(ataque do Império Austro-Húngaro à Sérvia) teve o objectivo imediato de punir
a Sérvia pelo atentado que vitimara o arquiduque Francisco Fernando e a esposa,
o início da 2.ª Guerra Mundial foi, desde logo, uma acção de conquista
territorial, de clara expansão imperialista, conforme preconizado pela
ideologia nazi. De facto, após a anexação da Áustria, logo surgiu a
reivindicação dos Sudetas, territórios que seriam integrados no Reich, nos
termos negociados com a Grã-Bretanha e a França, em Munique, em Setembro de 1938.
Depois de conseguir estes sucessos, sem oposição das potências ocidentais, a Alemanha não tardou a incumprir o acordado em Munique e a ocupar totalmente a Checoslováquia. Ciente de que os Aliados não queriam envolver-se noutra guerra mundial, Hitler, em 8 de Março de 1939, informou os seus generais de que decidira submeter a Polónia através da conquista do país, e não da diplomacia, ainda antes de se voltar para o Ocidente. A conquista podia ser vista, em parte, como uma recuperação de território germânico, dado que uma área substancial do que era então a Polónia havia integrado o Império Alemão, até ao final da 1.ª Guerra Mundial (ver mapa). Todavia, ainda antes de montar uma operação militar de grande envergadura para a conquista da Polónia, o mesmo desejo de reconquista veio a ser aplicado ao território de Memel (ver mapa), o qual, tendo pertencido igualmente ao Império Alemão, até 1919, havia posteriormente sido incorporado na Lituânia. Depois de um ultimato oral, o território foi anexado ao III Reich (Prússia Oriental), em 23 de Março de 1939.
Esta sucessão de anexações e conquistas,
antecedendo o início oficial do conflito armado que ficaria na História como
2.ª Guerra Mundial, estabeleceu um padrão estratégico que, no essencial,
consistia em exigir, perante as potências rivais, a satisfação de
reivindicações territoriais, ameaçando com o emprego da força no caso de lhe
ser negado o direito à conquista e absorção. Este método, na Europa daquele
tempo e perante as recordações ainda frescas do holocausto da 1.ª Guerra
Mundial, proporcionava uma clara vantagem ao partido que aparentava estar
preparado para combater e uma patética inferioridade dos que, a qualquer preço,
desejavam a paz.
O ataque à Polónia teve início em 1 de Setembro de 1939, provocando a imediata declaração de guerra da Grã-Bretanha e da França à Alemanha. A operação iniciou-se estando já em vigor o entendimento com a URSS proporcionado pelo Pacto Germano-Soviético de 23-08-1939, mediante o qual o território polaco era dividido entre alemães e soviéticos (ver, abaixo, 1.º mapa). A URSS só invadiria a sua parcela de território em 17 de Setembro seguinte, alegando que iam proteger as populações etnicamente bielorrussas e ucranianas da Polónia. Este apoderamento da Polónia Oriental (cinzento no segundo mapa) teve a particularidade de o território ter sido incorporado na URSS e assim ter permanecido após 1945, o que obrigaria as potências vencedoras a “compensar” a Polónia com duas regiões do Reich (cor-de-rosa no segundo mapa). Na prática, a Polónia, após 1945, “moveu-se” para oeste.
Partilha
da Polónia segundo Pacto Germano-Soviético / Mapa reajustamento de fronteiras, pós-1945
A campanha alemã, depois de uma brava
resistência polaca, terminaria, em 1 de Outubro, com a rendição de Varsóvia. Em
5 de Outubro, depois de passar revista às tropas, numa parada triunfal em
Varsóvia, dirigindo-se aos jornalistas presentes afirmou Hitler: “Meus
senhores, vocês viram as ruínas de Varsóvia. Que isso seja um aviso para os
estadistas de Londres e Paris que pensam em continuar a guerra.”[1] No dia anterior, a
brutalidade consentida do ataque germânico ficara bem patente, num despacho em
que Hitler ordenava uma amnistia para os soldados alemães que haviam morto
prisioneiros e civis, mostrando compreensão pelo facto de, alegadamente, esses
crimes serem o resultado de anteriores violências dos polacos contra as
populações alemãs da Polónia[2]
(Putin, no actual conflito na Ucrânia, fez algo de semelhante, louvando a
unidade que tinha estado em Bucha).
Um pouco mais tarde, haveria que fazer o
elogio fúnebre dos mortos em combate e recordar as glórias do passado, tal como
Vladimir Putin cuidou de fazer, relativamente ao conflito ainda em curso, no
passado 9 de Maio. Hitler fê-lo, em 10 de Março de 1940, no Arsenal (Zeughaus)
de Berlim, no Dia de Consagração dos Heróis, de cujo discurso relevo as
seguintes passagens:
Os soldados que em Setembro sacrificaram a vida nada mais
deram que os guerreiros de há mil anos, que então lutaram para defender a terra
alemã, mas também não deram menos do que aquilo que hoje nos é exigido. [...]
Celebramos hoje o dia consagrado aos nossos heróis com o sentimento de termos adquirido
uma nova dignidade interior. Lutamos pelos mesmos objectivos por que lutaram os
nossos antepassados, e aquilo que eles consideraram suficientemente sublime
para justificar o sacrifício da vida, encontra-nos hoje prontos para a mesma
acção. [...] O nosso povo encontra hoje, na consciência da sua força vital, o
impulso necessário ao seu desenvolvimento.
Se o mundo das democracias plutocráticas se empenha numa
luta feroz contra ele, proclamando como objectivo supremo da guerra a
destruição da Alemanha Nacional-Socialista, vem isso confirmar o que todos nós
já sabíamos: que o regime nacional-socialista unifica o povo alemão e o torna
particularmente forte, a ponto de ele aparecer aos olhos dos adversários como
invencível. [...]
Os nossos inimigos querem fazer prevalecer os interesses
capitalistas, mas nós queremos que seja a comunidade nacional-socialista que
saia vencedora da luta. [...] Como nacional-socialista e como soldado, tenho
sempre observado o princípio de salvaguardar os direitos do povo alemão por
meios pacíficos, mas, se necessário, também pela guerra. É esta a razão por
que, como Führer da nação, como chanceler do Reich e como chefe supremo do
exército, me consagro hoje, exclusivamente, à tarefa de alcançar a vitória.
[...] Como soldado, tomei parte na Grande Guerra e agora dirijo-me à
Providência, pedindo-lhe que nos conceda a graça de ver terminar, com honra, o
último capítulo desta grande luta. Juremos, pois, solenemente que a guerra,
imposta ao Grande Reich alemão pelo potentado capitalista da França e Grã-Bretanha,
será a mais gloriosa da história alemã.[3]
Segundo Hitler, a Alemanha havia,
então, sido uma vítima das potências ocidentais. Ainda assim, julgou que a
rapidez da vitória permitiria convencer os Aliados a aceitarem um acordo de
paz. Uma paz decorrente de uma “negociação” em que, sempre em nome da dita paz,
fosse aceite a liquidação da Polónia, como hoje se pede a paz na Ucrânia como
forma de premiar o invasor.
No entanto, as cedências já haviam
sido tantas que não houve forma decente de aceitar semelhante “diplomacia” e
desejos de “paz”. A humilhante derrota dos Aliados, em França, em Maio-Junho de
1940, proporcionaria a Hitler mais uma incursão nos meandros da “paz”. Perante
o Reichstag, em 19 de Julho de 1940,
deixava o Führer a seguinte mensagem:
Convoquei-vos
para aqui, no meio da luta grandiosa para a libertação futura da nação alemã,
por dois motivos: por um lado, a necessidade de explicar ao nosso próprio povo
os acontecimentos históricos de que fomos testemunhas e o desejo de agradecer
aos nossos soldados alemães; por outro, a intenção de dirigir novo – e desta
vez último – apelo ao bom senso do Mundo.
Adolf Hitler preparava-se, por
conseguinte, para chamar à razão os tontos que teimavam em continuar a
resistir-lhe, sem nenhum sentido prático dos acontecimentos e, provavelmente,
sem o respeito pelas perdas de vidas e bens que semelhante resistência
implicaria. Deste modo, prosseguia:
Quem comparar as causas desta guerra com a extensão e o
alcance dos acontecimentos militares, verificará que as acções e os sacrifícios
da luta estão fora de toda a proporção com elas, mesmo que não se queira dizer
que os motivos aduzidos não passaram de pretextos para a realização de
intenções secretas. O Programa do Partido Nacional-Socialista [...] tendia a
chegar, em todos os casos, se isso fosse possível, à revisão do Tratado de
Versalhes, pela via pacífica. A revisão era necessária, por natureza.
A impossibilidade de manter as decisões de Versalhes não
assentava apenas na descriminação humilhante, para reduzir o povo alemão à
privação dos seus direitos, o que era assegurado pelo desarmamento, mas,
sobretudo, no aniquilamento material da época de hoje, em consequência do
“diktat”, e na destruição intencionada do futuro de um dos maiores povos
civilizados do Mundo, no parcelamento absolutamente insensato de territórios
enormes, que foram colocados sob domínio de alguns Estados, no rapto, ao
vencido, das suas bases indispensáveis de vida e de bens, sem os quais não podia
passar.
A revisão do Tratado de Versalhes
corresponde, no drama dos nossos dias, à exigência de Putin de um retraimento
do dispositivo da OTAN. Mais adiante, Hitler descarrega as culpas da guerra
para cima dos judeus e dos fabricantes de armas, numa opção muito próxima da
argumentação de uma corrente de opinião que hoje procura demonstrar compreensão
e simpatia pela Rússia de Putin:
Mais uma vez, o
veneno internacional judeu começou a destruir o bom senso do mundo. Judeus e
franco-mações, fabricantes de armas e especuladores da guerra, mercadores e
exploradores internacionais, encontraram políticos e naturezas à Heróstrato[4], que pretendiam ser a
guerra desejável.
Foram estes elementos que encorajaram o Estado polaco a
adoptar uma atitude que não correspondia às reivindicações alemãs e, ainda
muito menos, às consequências provocadas pelas circunstâncias. [...]
Depois, tal como Putin faz
presentemente, atira as culpas da guerra para quem a não começou e até se
deixou dominar pelo medo da confrontação.
Churchill e os outros fautores da guerra, se tivessem
mostrado, apenas, uma pequena parcela do sentimento de responsabilidade que eu
demonstrei, a respeito da Europa, não teriam podido realizar a sua manobra
infame. Só a eles e a todos os outros interessados na guerra europeia, e
não-europeia, é que se deve atribuir o facto de a Polónia ter recusado as
propostas que não atingiam de maneira alguma a sua honra nem a sua integridade
territorial e de haver preferido recorrer às armas.[5]
Putin, em 9 de Maio do corrente ano,
seguia o modelo de vitimização do agressor, declarando, nomeadamente:
Em Dezembro do ano passado, propusemos um acordo sobre as
garantias de segurança. A Rússia apelou ao Ocidente para um diálogo justo, para
procurar compromissos, para considerar os interesses de cada uma das partes.
Tudo em vão. Os países da OTAN não quiseram nos ouvir, o que significa que, na
realidade, tinham planos completamente diferentes. E estamos agora a ver isso
mesmo.[6]
Pela sua parte, a presença soviética
na Polónia Oriental, em Setembro de 1939, após a rendição do exército polaco,
ficaria tristemente assinalada pelo massacre da Floresta de Katyn, levado a
cabo em Abril/Maio de 1940, pelo qual foram liquidados mais de 20.000 polacos,
dos quais cerca de 8.000 eram militares prisioneiros de guerra.
O método pelo qual se deu execução a
esta correcção de fronteiras ficou registado nas páginas dos livros da história
da Europa. O final da 2.ª Guerra Mundial trouxe o poderio militar da Rússia
Soviética até Berlim e não foi necessário decorrer muito tempo para a
instauração de nova rivalidade entre os Aliados ocidentais e a URSS, situação
que iria permanecer, sem guerra na Europa, até à desagregação da pátria do
comunismo, em Dezembro de 1991. O Estado herdeiro da URSS – a Federação Russa –
tinha pela frente uma tarefa gigantesca de restabelecimento do seu prestígio,
após uma humilhação que não podia considerar-se senão como auto-infligida.
Em Dezembro de 1999, o presidente
Yeltsin seria substituído por Vladimir Putin, iniciando-se um novo rumo
político na Rússia: menos ambições de democratização, maior pendor
nacionalista, progressivo afastamento mental do modelo ocidental e reforço do
aparelho militar. Olhando para Ocidente, a nova Rússia de Putin via nas suas
fronteiras diversos países que haviam feito parte da URSS e outros que, sendo
oficialmente independentes, haviam sido aliados, no seio do Pacto de Varsóvia.
Do ponto de vista sentimental,
enquanto Putin não perdia nenhuma oportunidade para expressar a sua nostalgia
do Império Soviético, os países vizinhos, com a provável excepção do poder
dominante na Bielorrússia, não tinham saudades da proximidade russa e, na sua
pequena dimensão, olhavam com TEMOR para o gigantesco vizinho. Procuraram, por
conseguinte, integrar-se politicamente no espírito dos países da Europa
Ocidental. E, quando tal se tornou possível, fizeram-se membros da União
Europeia (UE) e da OTAN. Como afirmou o ex-primeiro-ministro da Suécia Carl
Bildt, “não foi tanto a OTAN que se empenhou em ir para Leste, foram
diferentes nações que se empenharam em ir para o Ocidente”.
O desprezo de Putin por tais opções não
tardaria a tornar-se público, sendo o caso da Polónia o que mais viria a dar
nas vistas. Após o final da 2.ª Guerra Mundial, a URSS negou persistentemente a
sua responsabilidade no massacre da floresta de Katyn. Em 1992, porém, o
Presidente Boris Yeltsin entregou ao governo de Varsóvia cópias dos documentos
que ordenavam a execução de milhares de oficiais polacos, ficando a questão do
massacre resolvida no plano histórico. Todavia, nos registos históricos da
ocupação soviética da Polónia Oriental, nunca a acção é descrita formalmente
como “invasão” – tal como, no presente, relativamente à Ucrânia. Em vez disso,
as palavras do Comissário S. Kozhevnikov, publicadas no Estrela Vermelha, sublinhavam que “o Exército Vermelho estendeu a mão de uma fraternal cooperação aos
trabalhadores da Ucrânia Ocidental e da Bielorrússia, libertando-os para sempre
da escravidão social e nacional”.[7]
Libertação, portanto.
No final de 2019, Vladimir Putin empenhou-se,
publicamente, em manifestar uma surpreendente hostilidade histórica para com a
Polónia, lançando sobre este país, tal como Hitler, a responsabilidade do início
da 2.ª Guerra Mundial. Para o efeito, declarou a um grupo de homens de negócios
russos que chegara a esta conclusão após ter consultado historiadores e lido
sobre a diplomacia polaca na década de 1930. Na mesma época, o presidente da
Duma, Vyacheslav Volodin, depois de se ter avistado com Putin, desafiou
publicamente a Polónia a apresentar desculpas por ter iniciado a 2.ª Guerra
Mundial. De nada servira, portanto, o facto de, em 1989, Gorbachev ter pedido
desculpa, em nome da URSS, pelas atrocidades em Katyn e haver declarado como
nulo o Pacto Germano-Soviético de 1939. A partir de 2009, voltaram a surgir na
Rússia alguns ensaios a defender a assinatura do Pacto. Uma colecção destes
ensaios seria publicada com um prefácio aprovador, escrito por Sergei Lavrov,
já então ministro russo dos Negócios Estrangeiros.[8]
Embora tenham surgido, depois de 24-02-2022,
opiniões que recusam como exageradas e insensatas as comparações entre Hitler e
Putin, não há como não reconhecer que as semelhanças existem e devem ser tidas
em conta, olhando para Hitler como ele era avaliado antes da guerra e no seu
início, e não com o conhecimento que dele se teve após a derrota da Alemanha.
[1] BEEVOR, Antony, A Segunda Guerra Mundial, pp. 61-62. 2
[2] Ibidem, p. 62.
[3] Discursos Históricos, 1939-1941, Livraria Latina Editora, Porto, 1944,
pp. 75-78.
[4]
Incendiário grego, responsável
pela destruição do templo de Artemis em Éfeso, na actual Turquia.
[5] Discursos Históricos, 1939-1941,
Livraria Latina Editora, Porto, 1944, pp. 103-106.
[6] PÚBLICO,
09-05-2022.
[7] APPLEBAUM, Anne, Putin’s Big Lie, https://www.theatlantic.com/ideas/archive/2020/01/putin-blames-polandworld-war-ii/604426/ 05-01-2020.
[8]
Ibidem.
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Se procura semelhanças entre Hitler e Putin...
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Palavras, para quê?