Um
café original
Pelas
cinco da tarde,
É
a hora do café,
Sem
barulho e sem alarde,
Quase
numa atitude de fé,
Entramos
neste lindo ritual:
O
café com o “pão de ló” local! (1)
Convido
a Anastasiia,
Para
o café, ali ao lado,
Vivamos
um momento de alegria,
Com
alguém, deste povo massacrado,
Por
um déspota e sua loucura!
Jã
ninguém esperava esta aventura! (2)
A
língua até nem é uma barreira,
Embora
eu não saiba o ucraniano.
Em
inglês, a Anastasiia não é a primeira.
Mesmo
assim, num momento tão humano,
Encontramo-nos
para uma conversa,
Nesta
invasão da Ucrânia que a mata e dispersa. (3)
A
Anastasiia sente-se bem,
Nesta
casa marista de Ermesinde.
Assim
eu me senti, também,
Na
Rua dos Sonhos! O sonho não finde,
De
uma PAZ em tempo duradouro,
A
melhor das riquezas: o melhor tesouro! (4)
Assim
vamos conversando, pelo tempo fora,
Um
pouco sobre a situação deste lindo país.
De
facto, não é o que mais me interessa, agora!
Quero
apenas saber se ela, grávida, se sente feliz,
Nesta
situação terrível de família separada,
Por
um assassino, de mente perturbada! (5)
Teófilo Minga
Ermesinde,
22 de abril de 2022
1) Pelas
cinco da tarde, hoje, 22 de abril de 2022, convido a Anastasiia (assim me
escreve ela o seu nome) para um café. A Anastasiia é a primeira refugiada de
guerra que eu encontro pessoalmente. Foi acolhida na Casa Marista de Ermesinde,
onde eu por diversos afazeres, vim passar este fim-de-semana. “Pão de ló” é um
bolo especial que se come em Portugal por alturas da Páscoa. Estamos, portanto,
no tempo do Pão de ló que não tem faltado aqui, em casa.
2) Um
povo massacrado pelo execrável déspota de Moscovo. Já ninguém esperava essa
louca aventura. Contudo, a minha conversa com a Anastasiia para não lembrar
feridas que, provavelmente estão muito profundas no coração e na mente de
Anastasiia. A conversa é muito mais simples: quero saber como se sente desde
que chegou a Portugal e desde que entrou nesta Casa Marista de Ermesinde.
3) A
língua em encontros internacionais pode ser um limite, mas não é uma barreira
definitiva. Disso tenho eu uma experiência frequente. Há outras linguagens,
além da falada. E que se tornam compreensíveis e que aproximam as pessoas. A
Anastasiia sabe um pouco (mesmo pouco!) de inglês e dá para umas palavritas,
juntamente com o café. Além disso, temos o tradutor disponível ao lado, no
móvel que também vai ajudando. É a primeira experiência que faço assim. Já
traduzi muitas vezes. Mas tomar um café com tradução Google quase instantânea,
é a primeira vez que o faço. E não saiu muito mal.
4) Não
quis, pois, falr sobre a guerra e sobre a invasão do seu pais. Limitei-me a
perguntar-lhe como se sentia nesta Casa Marista e desde que chegou a Portugal.
Nunca soletrei tão lentamente o meu inglês: HOW…. ARE… YOU…? HOW…DO… YOU…FEEL?
Com o seu telefone ao lado, lá me vai respondendo. Não estou seguro de que
tenha compreendido todo o seu inglês. Mas creio que compreendi; I…AM…WELL…
OBRIGADA. E acrescenta depois da sua segunda aula de português: BOM DIA (por
acaso era BOA TARDE, mas deixei-a continuar) I… AM… FEELING… WELL. E eu ficava
satisfeito porque ela se sentia bem.
5) Fomos
continuando a conversa e o café já estava frio. Encomendamos um segundo, mais
quente. Para acompanhar a conversa em ritmo um pouco lento. Quer dar-me mais
alguma informação: I… AM…, I…AM… EU ESTOU… EU ESTOU… Que ela estava ali, ao pé
de mim, isso sabia eu. Mas o I… AM… não me dizia muito mais. E funcionou a
tradução Google. Eu não leio caracteres russos, mas a tradução apareceu-me em
inglês. E mostra-me a palavra. Era PREGNANT. AH… ARE…YOU…PREGNANT? YES… I… AM…
PREGNANT. E mostra-me a barriga. A verdade é que eu não via nada. E mostra-me
três dedos como se fosse em saudação escuteira. Queria dizer que estava grávida
de três meses. Tinha sido a minha interpretação e vi que não errei.
Depois escreve-me o seu nome: ANASTASIIA.
E eu escrevo-lhe o meu: TEÓFILO. Dois nomes gregos. Ainda lhe disse que os
nossos nomes são muito bonitos. OUR… NAMES… ARE…VERY… NICE. Mas fiquei-me por
aí. A minha tentação era explicar-lhe neste momento o sentido dos nossos nomes.
Tanto mais que o nome ANASTASIIA assenta muito bem neste tempo pascal. Mas o
seu inglês já não dava para tanto. E também não sei até que ponto a ANASTASIIA
compreende alguma coisa dos tempos litúrgicos. Poderia ter-lhe dito que Anastasia,
significa “a ressurreição”. Anastasia é um nome feminino que tem origem a
partir do grego (e também do russo) anastásios, proveniente de anastasis, que
pode ser traduzido por “ressurreição” ou “aquela que tem força para
ressuscitar”. Aquele ou aquela que ultrapassam toda a situação de morte, mesmo
na guerra mais assassina que possamos imaginar. E se encontram na plenitude da
VIDA. É isso o que um tal Jesus ressuscitado (anastásios) nos diz e realiza,
finalmente. Para que todos nós tenhamos a vida em abundância. E Deus queria que
essa visa em abundância chegue quanto antes à situação atual da Ucrânia lançada
para uma situação de morte por um mentecapto execrável. Poderia ter-lhe dito
também que o meu nome Teófilo, também grego, significa, amigo de Deus.
Deixei todo esse discurso
teológico-bíblico de lado, e limitei-me a felicitá-la pela sua gravidez e pelo
seu bebé. A mulher grávida é o símbolo mais profundo da VIDA, da criação da
VIDA. É a visão permanente da VIDA que cresce e se multiplica. É a visão
permanente de que o mundo pode (e deve!) ser continuamente renovada. É também o
querer de Deus tão claro naquela bênção original: “Crescei e multiplicai-vos, enchei
e dominai a terra” (Génese 1, 28). E prometi à Anastasiia que dentro de seis
meses voltaria a Ermesinde, para ver a sua criança. Escrever-lhe-ei mesmo um
poema se for capaz. Tínhamos terminado a segunda taça de café. Voltávamos para
casa, satisfeitos deste nosso encontro. Prometi-lhe ainda que rezaria por ela e
pelo seu país. Pelo seu país já rezava. Tenho 25 poemas-oração pela Ucrânia (e
pela Rússia também) desde que a invasão “sacrílega” (o adjetivo é do Papa
Francisco) da Ucrânia pela Rússia começou. Foi interessante este encontro com
alguém em carne e osso à tua frente que teve que fugir do seu país para evitar
as consequências trágicas da guerra. Na pessoa da Anastasiia eu encontrava os 4
milhões ou talvez mais que fugiram da Ucrânia para toda a Europa.
E para celebrar o nosso encontro a Anastasiia tirava uma
autofotografia que me enviou e com a qual fiquei muito satisfeito. Não
acompanha este poema.

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