sábado, 23 de abril de 2022

Um café original

 

Um café original      

 

Pelas cinco da tarde,

É a hora do café,

Sem barulho e sem alarde,

Quase numa atitude de fé,

Entramos neste lindo ritual:

O café com o “pão de ló” local! (1)

 

Convido a Anastasiia,

Para o café, ali ao lado,

Vivamos um momento de alegria,

Com alguém, deste povo massacrado,

Por um déspota e sua loucura!

Jã ninguém esperava esta aventura! (2)

 

A língua até nem é uma barreira,

Embora eu não saiba o ucraniano.

Em inglês, a Anastasiia não é a primeira.

Mesmo assim, num momento tão humano,

Encontramo-nos para uma conversa,

Nesta invasão da Ucrânia que a mata e dispersa. (3)

 

A Anastasiia sente-se bem,

Nesta casa marista de Ermesinde.

Assim eu me senti, também,

Na Rua dos Sonhos! O sonho não finde,

De uma PAZ em tempo duradouro,

A melhor das riquezas: o melhor tesouro! (4)

 

Assim vamos conversando, pelo tempo fora,

Um pouco sobre a situação deste lindo país.

De facto, não é o que mais me interessa, agora!

Quero apenas saber se ela, grávida, se sente feliz,

Nesta situação terrível de família separada,

Por um assassino, de mente perturbada! (5)

 

Teófilo  Minga

Ermesinde, 22 de abril de 2022

 

1)      Pelas cinco da tarde, hoje, 22 de abril de 2022, convido a Anastasiia (assim me escreve ela o seu nome) para um café. A Anastasiia é a primeira refugiada de guerra que eu encontro pessoalmente. Foi acolhida na Casa Marista de Ermesinde, onde eu por diversos afazeres, vim passar este fim-de-semana. “Pão de ló” é um bolo especial que se come em Portugal por alturas da Páscoa. Estamos, portanto, no tempo do Pão de ló que não tem faltado aqui, em casa.

2)      Um povo massacrado pelo execrável déspota de Moscovo. Já ninguém esperava essa louca aventura. Contudo, a minha conversa com a Anastasiia para não lembrar feridas que, provavelmente estão muito profundas no coração e na mente de Anastasiia. A conversa é muito mais simples: quero saber como se sente desde que chegou a Portugal e desde que entrou nesta Casa Marista de Ermesinde.

3)      A língua em encontros internacionais pode ser um limite, mas não é uma barreira definitiva. Disso tenho eu uma experiência frequente. Há outras linguagens, além da falada. E que se tornam compreensíveis e que aproximam as pessoas. A Anastasiia sabe um pouco (mesmo pouco!) de inglês e dá para umas palavritas, juntamente com o café. Além disso, temos o tradutor disponível ao lado, no móvel que também vai ajudando. É a primeira experiência que faço assim. Já traduzi muitas vezes. Mas tomar um café com tradução Google quase instantânea, é a primeira vez que o faço. E não saiu muito mal.

4)      Não quis, pois, falr sobre a guerra e sobre a invasão do seu pais. Limitei-me a perguntar-lhe como se sentia nesta Casa Marista e desde que chegou a Portugal. Nunca soletrei tão lentamente o meu inglês: HOW…. ARE… YOU…? HOW…DO… YOU…FEEL? Com o seu telefone ao lado, lá me vai respondendo. Não estou seguro de que tenha compreendido todo o seu inglês. Mas creio que compreendi; I…AM…WELL… OBRIGADA. E acrescenta depois da sua segunda aula de português: BOM DIA (por acaso era BOA TARDE, mas deixei-a continuar) I… AM… FEELING… WELL. E eu ficava satisfeito porque ela se sentia bem.

5)      Fomos continuando a conversa e o café já estava frio. Encomendamos um segundo, mais quente. Para acompanhar a conversa em ritmo um pouco lento. Quer dar-me mais alguma informação: I… AM…, I…AM… EU ESTOU… EU ESTOU… Que ela estava ali, ao pé de mim, isso sabia eu. Mas o I… AM… não me dizia muito mais. E funcionou a tradução Google. Eu não leio caracteres russos, mas a tradução apareceu-me em inglês. E mostra-me a palavra. Era PREGNANT. AH… ARE…YOU…PREGNANT? YES… I… AM… PREGNANT. E mostra-me a barriga. A verdade é que eu não via nada. E mostra-me três dedos como se fosse em saudação escuteira. Queria dizer que estava grávida de três meses. Tinha sido a minha interpretação e vi que não errei.

Depois escreve-me o seu nome: ANASTASIIA. E eu escrevo-lhe o meu: TEÓFILO. Dois nomes gregos. Ainda lhe disse que os nossos nomes são muito bonitos. OUR… NAMES… ARE…VERY… NICE. Mas fiquei-me por aí. A minha tentação era explicar-lhe neste momento o sentido dos nossos nomes. Tanto mais que o nome ANASTASIIA assenta muito bem neste tempo pascal. Mas o seu inglês já não dava para tanto. E também não sei até que ponto a ANASTASIIA compreende alguma coisa dos tempos litúrgicos. Poderia ter-lhe dito que Anastasia, significa “a ressurreição”. Anastasia é um nome feminino que tem origem a partir do grego (e também do russo) anastásios, proveniente de anastasis, que pode ser traduzido por “ressurreição” ou “aquela que tem força para ressuscitar”. Aquele ou aquela que ultrapassam toda a situação de morte, mesmo na guerra mais assassina que possamos imaginar. E se encontram na plenitude da VIDA. É isso o que um tal Jesus ressuscitado (anastásios) nos diz e realiza, finalmente. Para que todos nós tenhamos a vida em abundância. E Deus queria que essa visa em abundância chegue quanto antes à situação atual da Ucrânia lançada para uma situação de morte por um mentecapto execrável. Poderia ter-lhe dito também que o meu nome Teófilo, também grego, significa, amigo de Deus.

Deixei todo esse discurso teológico-bíblico de lado, e limitei-me a felicitá-la pela sua gravidez e pelo seu bebé. A mulher grávida é o símbolo mais profundo da VIDA, da criação da VIDA. É a visão permanente da VIDA que cresce e se multiplica. É a visão permanente de que o mundo pode (e deve!) ser continuamente renovada. É também o querer de Deus tão claro naquela bênção original: “Crescei e multiplicai-vos, enchei e dominai a terra” (Génese 1, 28). E prometi à Anastasiia que dentro de seis meses voltaria a Ermesinde, para ver a sua criança. Escrever-lhe-ei mesmo um poema se for capaz. Tínhamos terminado a segunda taça de café. Voltávamos para casa, satisfeitos deste nosso encontro. Prometi-lhe ainda que rezaria por ela e pelo seu país. Pelo seu país já rezava. Tenho 25 poemas-oração pela Ucrânia (e pela Rússia também) desde que a invasão “sacrílega” (o adjetivo é do Papa Francisco) da Ucrânia pela Rússia começou. Foi interessante este encontro com alguém em carne e osso à tua frente que teve que fugir do seu país para evitar as consequências trágicas da guerra. Na pessoa da Anastasiia eu encontrava os 4 milhões ou talvez mais que fugiram da Ucrânia para toda a Europa.

E para celebrar o nosso encontro a Anastasiia tirava uma autofotografia que me enviou e com a qual fiquei muito satisfeito. Não acompanha este poema.

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