
Jung Chang: “Não sei se poderei voltar à China
e se será seguro. É o preço por escrever”
30 OUTUBRO 2021 15:13
Catarina Brites Soares
Zhang Xiaohong
Entrevista a Jung Chang, escritora britânica
nascida na China, onde todos os seus livros estão proibidos. Ao Expresso, a
autora da biografia “Mao: a História Desconhecida” confessa-se triste e até
desesperada: “A população tem de papaguear a visão do Partido e pode ser condenada
se ousar tentar saber o que aconteceu realmente”
Jung Chang estava autorizada a ir ao seu país
natal 15 dias por ano e só para ver a mãe. Com Xi Jinping no poder, a escritora
antecipa que até isso deixará de ser possível. A biografia “Mao: a História
Desconhecida” ditou a pena a que está condenada desde 2005. Nada demove a agora
cidadã britânica, radicada em Londres, que antes de fazer da escrita profissão
foi mais uma das milhares de vítimas da Revolução Cultural. Ainda fez parte do
Exército Vermelho, com 14 anos, mas por pouco tempo. Depois trabalhou nos
campos e como operária, até se ter tornado estudante de Inglês e assistente na
Universidade de Sichuan, província onde nascera, em 1952. Doutorada em
Linguística pela Universidade de Iorque, em 1982, foi a primeira pessoa da
República Popular da China a fazer o doutoramento numa faculdade britânica.
Traduzida em 40 línguas e com mais de 15 milhões de livros vendidos, Jung Chang
conta ao Expresso como foi viver de perto um dos períodos mais atrozes da
História e como tem sido viver ao longe outro que prevê que venha a ser
recordado pelo mesmo motivo. Diz que hoje é ainda mais difícil encontrar os
seus livros em solo chinês, incluindo na “terra da liberdade” que cedeu ao
poder de Pequim.
Como surge a paixão pela escrita e como passa a
profissão?
Gostava muito de escrever em criança. Escrevi
o primeiro poema aos 16 anos, em 1968, durante a Revolução Cultural
(1966-1976), quando se queimavam livros por toda a China. Recordo-me de estar
deitada na cama, a limar o poema, quando ouço pancadas na porta. Os Guardas
Vermelhos — ao serviço de Mao Tsé-tung durante a Revolução Cultural — tinham
vindo revistar a casa. Se tivessem apanhado o que escrevera, teríamos tido
graves problemas.
FONTE: https://expresso.pt/internacional/2021-10-30-Jung-Chang-Nao-sei-se-poderei-voltar-a-China-e-se-sera-seguro.-E-o-preco-por-escrever-57a27513
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