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| JORGE LAGE |
PREFÁCIO
Dando fio à meada
Escrever memórias, reais ou
ficcionadas, a uma distância de sessenta anos, exige uma memória prodigiosa,
principalmente quando se escreve com algum realismo, exigindo ter os pés bem
assentes no chão em que nos movemos.
Escrever recordações não é nada mais
do que pintar imagens e sonhos com as palavras que se avolumam na nossa memória
e, quando o fazemos sem subterfúgios ou subtilezas, em linguagem simples e
fluente, como a água límpida que brota da montanha, deixamos fascinados quem as
observa ou vai passando os olhos da memória pela tela escrita.
Há muitas pessoas cultas e
perspicazes que nunca escreveram uma linha para o público. Aliás, o exercício
da escrita para publicação torna-se normal quando ultrapassamos a barreira de
nos «desnudarmos» perante os outros e até de sermos criticados, encarando a
crítica bem sustentada como um acto criativo de um percurso evolutivo do escritor.
Afinal, escrever é aceitar partir do
vale da nossa vida para se atingir um outeiro desafogado ou uma nave solarenga
e aprazível. Escrevemos mais no Outono da vida, como diz o poeta Vergílio
Alberto Vieira, «quando nos sentimos em perigo, cremos mais, intensificamos a
nossa relação com o real, com o instante. Por isso, a escrita é sobretudo ser
ou não ser, e isso, como lhe chamou Duras, é um grito silencioso» (in
entrevista ao jornal Expresso, «O fascínio pelo oculto», 15/04/2000).
Nesta narrativa, o autor
introduz-nos no mundo dos anos quarenta, até final da década de sessenta, do
século XX, lembrando uma vida de míngua e «falta de recursos» para os
trabalhadores. Passa à «Vila» onde «nasceu e cresceu para lá dos Montes»,
lembrando ao leitor que «toda esta história, embora baseada em alguns factos
reais, é ficcionada».
Foi preocupação do autor tecer uma
narrativa que «seja divertida, sonhadora e inspiradora», acrescento,
proveitosa, porque é um bom campo de estudo antropológico e memorialístico.
Diria mesmo que há momentos bem-humorados e hilariantes e que, por certo, vão
deliciar quem se aventurar num exercício de descoberta e de aventura.
Luís Carvalho coloca socialmente o
seu pequeno herói, «Manelito», numa família da classe média dos meados do
século XX. Descreve muito do dia-a-dia, sem preconceitos ou rodeios, numa narrativa
corrente que se segue como um barquinho que navega num pequeno córrego ou
levada, pela mão do sonho duma criança que lhe vai dando fio à meada,
deixando-o nas mãos do imprevisto.
Vai pincelando os serões de antanho
com as histórias e contos. No tempo da azeitona, fala-nos dos ranchos de
azeitoneiros com a sua vida muito precária, das lagaradas e do motor com 120
cavalos que triturava a azeitona. O fascínio de menino é tal que, até pela
calada da alta noite, descia ao lagar para ver se descortinava alguns dos
cavalos do potente motor do lagar.
O salto para a vida dá-se com a
«Escola Paga» onde se preparavam melhor as crianças com algumas posses para uma
aprendizagem exigente.
O desafio do Zeca, afilhado da
Mestra, a ganhar as corridas com os socos, dizendo aos demais garotos que eram
umas «corredoras», levou o Manelito a namorar ao Pai uns desastrosos socos e
por fim as sapatilhas, essas sim, quase voadoras, passando ele a ser o vencedor
das correrias.
As travessuras e tropelias com o seu
amigo «Nandinho» e os bolos na pastelaria, ao dia de feira, marcam ainda a sua
infância.
O livro tem um cheiro a «Estado
Novo» em que o ambiente, por vezes, se torna irrespirável.
As Feiras da “Bila” onde o «Fado da
Deolinda», a «Banha da cobra» ou o «”Patuá” do Artur Almeida» se destacam num
meio de simplórios, chegando-se, até, a fazer pecúlio dos seixos da Ribeira de
Carvalhais, como se viessem da abençoada Cova da Iria.
A emigração para a estranja nos anos
sessenta ou a vontade de rumar ao negro subterrâneo, da «mineria de carbón» das
Astúrias, onde o Pisco «enriqueceu» para comprar uma bicicleta, fazem-no
sonhar.
Das Escolas de Futebol, alicerçadas
no «Futebol na Areia», do grande mirandelense Albino Mendo, até ao futebol
federado, iniciado com a orientação técnica do «Tandó» no Sport Clube de
Mirandela, fizeram passar o sonhador Manelito por clubes prestigiados como o
Desportivo de Chaves ou o União de Coimbra, onde «os Vai Tudo» ou «os Índios da
Conchada» arrasavam como falange de apoio.
O Morais, portista até à medula, que
«entre as 14 e as 18 horas percorria a “Vila”, ou melhor, as suas catorze
tascas» e se lhe iam juntando o «Sousa Carpinteiro», o «Zeca Barbeiro», o «Dr.
Rogério de Favaios» e o «Augusto Sapateiro», entre outros.
O Manelito teve paixonetas, pela:
«Leonor “La Preciosa”» de Allariz, «Cármen de Ribadeo», «Ná» ou «Gena»,
ficando-lhe desta última sereia, do Tua ou do Tâmega, algum vazio.
A Meada Distorcida ou as Memórias do
Manelito assumem-se como uma experiência de vida de um tempo difícil em que se
era feliz com pouco.
Parabéns ao autor mirandelense, Luís
Carvalho, pela bela e divertida prosa que nos oferece e que, por certo,
cativará um vasto público de conterrâneos e amigos, admiradores do carácter do
Homem e da sua Obra.
Jorge Lage
Escritor e investigador


Excelente apresentação do Jorge Lage para o 2º livro do nosso querido amigo Luís Carvalho, depois da importante História do Hospital de Viseu, que superiormente dirigiu durante muitos anos. Agora fica-se ansioso por ler as histórias que de modo geral interessam a todos os daquelas gerações de 50. Apenas um reparo, o treinador do SCM que nos treinou era designado de Pandó, inventado treinador espanhol, para assim meter medo aos de Bragança. Tratava-se do Alfredo Paçó, sapateiro muito popular na então vila de Mirandela. Jorge Sales Golias (JG80)
ResponderEliminarParabéns ao meu amigo Jorge Laje por este belo prefácio, que é uma autêntica recensão, em que sabiamente cumprimenta o intelecto do autor e nos aguça o desejo de ir saborear os dizeres de Luís Carvalho...
ResponderEliminarSaboreada a "entrada" aguardemos pelo "prato principal". Uma "entrada" apelativa, bem temperada e desafiadora para o que vem a seguir... Fico na expectativa até chegar o "prato principal", um "prato especial" confeccionado à distância de seis décadas que depois de esclarecido ficamos a conhecer ainda melhor o "Manelito" que passou muito da sua adolescência na minha presença! Não sei ainda onde vai ser apresentado e não sei se a "mesa" (vila de Mirandela) muito alterada e desertificada dos ingredientes que marcaram "Manelito", é o local preferido do autor. Um abraço ao Luís pelo registo que vai prolongar no tempo as suas memórias de uma época muito especial... Um abraço ao Jorge por continuar próximo dos amigos e conterrâneos.
ResponderEliminarCaro Jorge Lage, parabéns pela correcta e apelativa apresentação da "mercadoria" que, brevemente, aparecerá no mercado para ser saboreada, com gáudio, pelos amigos trasmontanos e não só. Um bem haja para ti e para o autor. Um abraço
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