domingo, 16 de maio de 2021

Dando fio à meada

 

JORGE  LAGE


PREFÁCIO

Dando fio à meada

Escrever memórias, reais ou ficcionadas, a uma distância de sessenta anos, exige uma memória prodigiosa, principalmente quando se escreve com algum realismo, exigindo ter os pés bem assentes no chão em que nos movemos.

Escrever recordações não é nada mais do que pintar imagens e sonhos com as palavras que se avolumam na nossa memória e, quando o fazemos sem subterfúgios ou subtilezas, em linguagem simples e fluente, como a água límpida que brota da montanha, deixamos fascinados quem as observa ou vai passando os olhos da memória pela tela escrita.

Há muitas pessoas cultas e perspicazes que nunca escreveram uma linha para o público. Aliás, o exercício da escrita para publicação torna-se normal quando ultrapassamos a barreira de nos «desnudarmos» perante os outros e até de sermos criticados, encarando a crítica bem sustentada como um acto criativo de um percurso evolutivo do escritor.

Afinal, escrever é aceitar partir do vale da nossa vida para se atingir um outeiro desafogado ou uma nave solarenga e aprazível. Escrevemos mais no Outono da vida, como diz o poeta Vergílio Alberto Vieira, «quando nos sentimos em perigo, cremos mais, intensificamos a nossa relação com o real, com o instante. Por isso, a escrita é sobretudo ser ou não ser, e isso, como lhe chamou Duras, é um grito silencioso» (in entrevista ao jornal Expresso, «O fascínio pelo oculto», 15/04/2000).

Nesta narrativa, o autor introduz-nos no mundo dos anos quarenta, até final da década de sessenta, do século XX, lembrando uma vida de míngua e «falta de recursos» para os trabalhadores. Passa à «Vila» onde «nasceu e cresceu para lá dos Montes», lembrando ao leitor que «toda esta história, embora baseada em alguns factos reais, é ficcionada».

Foi preocupação do autor tecer uma narrativa que «seja divertida, sonhadora e inspiradora», acrescento, proveitosa, porque é um bom campo de estudo antropológico e memorialístico. Diria mesmo que há momentos bem-humorados e hilariantes e que, por certo, vão deliciar quem se aventurar num exercício de descoberta e de aventura.

Luís Carvalho coloca socialmente o seu pequeno herói, «Manelito», numa família da classe média dos meados do século XX. Descreve muito do dia-a-dia, sem preconceitos ou rodeios, numa narrativa corrente que se segue como um barquinho que navega num pequeno córrego ou levada, pela mão do sonho duma criança que lhe vai dando fio à meada, deixando-o nas mãos do imprevisto.

Vai pincelando os serões de antanho com as histórias e contos. No tempo da azeitona, fala-nos dos ranchos de azeitoneiros com a sua vida muito precária, das lagaradas e do motor com 120 cavalos que triturava a azeitona. O fascínio de menino é tal que, até pela calada da alta noite, descia ao lagar para ver se descortinava alguns dos cavalos do potente motor do lagar.

O salto para a vida dá-se com a «Escola Paga» onde se preparavam melhor as crianças com algumas posses para uma aprendizagem exigente.

O desafio do Zeca, afilhado da Mestra, a ganhar as corridas com os socos, dizendo aos demais garotos que eram umas «corredoras», levou o Manelito a namorar ao Pai uns desastrosos socos e por fim as sapatilhas, essas sim, quase voadoras, passando ele a ser o vencedor das correrias.

As travessuras e tropelias com o seu amigo «Nandinho» e os bolos na pastelaria, ao dia de feira, marcam ainda a sua infância.

O livro tem um cheiro a «Estado Novo» em que o ambiente, por vezes, se torna irrespirável.

As Feiras da “Bila” onde o «Fado da Deolinda», a «Banha da cobra» ou o «”Patuá” do Artur Almeida» se destacam num meio de simplórios, chegando-se, até, a fazer pecúlio dos seixos da Ribeira de Carvalhais, como se viessem da abençoada Cova da Iria.

A emigração para a estranja nos anos sessenta ou a vontade de rumar ao negro subterrâneo, da «mineria de carbón» das Astúrias, onde o Pisco «enriqueceu» para comprar uma bicicleta, fazem-no sonhar.

Das Escolas de Futebol, alicerçadas no «Futebol na Areia», do grande mirandelense Albino Mendo, até ao futebol federado, iniciado com a orientação técnica do «Tandó» no Sport Clube de Mirandela, fizeram passar o sonhador Manelito por clubes prestigiados como o Desportivo de Chaves ou o União de Coimbra, onde «os Vai Tudo» ou «os Índios da Conchada» arrasavam como falange de apoio.

O Morais, portista até à medula, que «entre as 14 e as 18 horas percorria a “Vila”, ou melhor, as suas catorze tascas» e se lhe iam juntando o «Sousa Carpinteiro», o «Zeca Barbeiro», o «Dr. Rogério de Favaios» e o «Augusto Sapateiro», entre outros.

O Manelito teve paixonetas, pela: «Leonor “La Preciosa”» de Allariz, «Cármen de Ribadeo», «Ná» ou «Gena», ficando-lhe desta última sereia, do Tua ou do Tâmega, algum vazio.

A Meada Distorcida ou as Memórias do Manelito assumem-se como uma experiência de vida de um tempo difícil em que se era feliz com pouco.

Parabéns ao autor mirandelense, Luís Carvalho, pela bela e divertida prosa que nos oferece e que, por certo, cativará um vasto público de conterrâneos e amigos, admiradores do carácter do Homem e da sua Obra.

 

Jorge Lage

Escritor e investigador


4 comentários:

  1. Excelente apresentação do Jorge Lage para o 2º livro do nosso querido amigo Luís Carvalho, depois da importante História do Hospital de Viseu, que superiormente dirigiu durante muitos anos. Agora fica-se ansioso por ler as histórias que de modo geral interessam a todos os daquelas gerações de 50. Apenas um reparo, o treinador do SCM que nos treinou era designado de Pandó, inventado treinador espanhol, para assim meter medo aos de Bragança. Tratava-se do Alfredo Paçó, sapateiro muito popular na então vila de Mirandela. Jorge Sales Golias (JG80)

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  2. Parabéns ao meu amigo Jorge Laje por este belo prefácio, que é uma autêntica recensão, em que sabiamente cumprimenta o intelecto do autor e nos aguça o desejo de ir saborear os dizeres de Luís Carvalho...

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  3. Saboreada a "entrada" aguardemos pelo "prato principal". Uma "entrada" apelativa, bem temperada e desafiadora para o que vem a seguir... Fico na expectativa até chegar o "prato principal", um "prato especial" confeccionado à distância de seis décadas que depois de esclarecido ficamos a conhecer ainda melhor o "Manelito" que passou muito da sua adolescência na minha presença! Não sei ainda onde vai ser apresentado e não sei se a "mesa" (vila de Mirandela) muito alterada e desertificada dos ingredientes que marcaram "Manelito", é o local preferido do autor. Um abraço ao Luís pelo registo que vai prolongar no tempo as suas memórias de uma época muito especial... Um abraço ao Jorge por continuar próximo dos amigos e conterrâneos.

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  4. Caro Jorge Lage, parabéns pela correcta e apelativa apresentação da "mercadoria" que, brevemente, aparecerá no mercado para ser saboreada, com gáudio, pelos amigos trasmontanos e não só. Um bem haja para ti e para o autor. Um abraço

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