João de Deus Rodrigues
- Olha, meu filho, levanta-te e vai cortar
lenha e leva-a para a Casa do Forno, porque hoje quem vai cozer o pão é a tua
irmã. Está-se a acabar o que cozi na semana passada, e sem pão na mesa até as
formigas fogem dela, e não há quem ature o teu pai.
O filho assim fez. Pegou na machada e foi
à rima da lenha e cortou dois galhos de freixo, puxou umas estevas secas e
levou tudo para junto do forno, como a mãe lhe tinha mandado fazer.
Depois de ter incumbido o filho de levar a
lenha para o forno, a Merência foi ao quarto da filha, chamou-a, e disse-lhe:
- Levanta-te, minha filha, que hoje és tu
que vais acender o forno e cozer o pão. Já tens doze anos, e é altura de
aprenderes como se faz isso.
A filha, entusiasmada, respondeu á mãe:
- Ó, minha mãe, levanto-me já e vou a
correr ter consigo à Casa do Forno, porque é isso que eu quero aprender, como
já lhe tinha pedido.
- É verdade. Mas só agora, que já fizeste
a quarta classe, é que chegou a altura de aprenderes. Por isso, despacha-te e
não demores.
Passado um instante, mãe e filha davam
início à tarefa de cozer o pão. Dirigiram-se à Casa do Forno, onde já se
encontrava a lenha, acenderam o lume e penduraram uma caldeira de cobre nas
trempes, para aquecer a água para amassar a farinha.
Feito isso, a mãe mandou a filha destapar
a masseira e pegar nas duas peneiras para peneirar, “a toda a peneira” (de
maneira a só ficarem os farelos na peneira) o saco de farinha que o pai tinha
deixado lá ficar, antes de sair para a lavoura.
Peneirar era coisa que a Ana já sabia
fazer. Pôs um lenço na cabeça, pegou nas peneiras e peneirou a farinha enquanto
o Diabo esfrega um olho.
Feito isso, deu início ao passo seguinte:
amassar a farinha. Para isso, pegou num jarro e foi com ele à caldeira buscar
água quente e começou a amassá-la, juntando-lhe o fermento que estava guardado
numa malga, coberto com uma folha de couve, que tinha sido retirado da massa
fermentada da fornada anterior.
Mas antes de começar a amassar a farinha,
a mãe chamou-lhe a atenção para o que devia fazer, e como:
- Olha, filha, deves ter cuidado com a
água, que não deve estar a ferver. Deve estar, apenas, um pouco mais quente do
que morna… Depois, ao amassares a farinha deves “esfregar e bater” bem a massa
na masseira, que é para que o pão não fique com “carolos”.
Quando acabares de amassar, juntas a massa
e tapa-la, bem tapada, com o lençol de linho, para que ela “adormeça” e fique
bem levedada. Só depois, passadas duas horas, é que vais ver se ela está
quentinha, a rir-se para ti, mais crescida, para fazeres os pães. Se precisares
de ajuda, chama por mim…
A filha ouviu atentamente as explicações
da mãe e assim fez. Embora, por já ter visto a mãe fazê-lo, soubesse a ordem
dos passos seguintes. Estava, apenas, um pouco nervosa e com algum receio, como
é habitual em quem faz uma coisa de responsabilidade pela primeira vez.
Passadas duas horas, enfarinhou as mãos,
bem enfarinhadas, para que a massa não se pegasse a elas, e foi fazer os pães e
colocá-los no lençol de linho, sem se tocarem, que estava estendido, ao lado,
em cima da tampa da arca da farinha.
Entretanto, já andava atarefada a acender
o forno, quando a mãe chegou junto dela e lhe disse:
- Olha, agora vou-te ensinar “o segredo do
forno”. E apontando-lhe uma pedra no tecto disse-lhe: quando aquela pedra ficar
da cor da cinza, varres o forno, bem varrido, com o vassouro de sumagre, e
deitas uma mão de farelos para dentro dele. Se os farelos arderem, em
suspensão, então o forno está no “ponto” de meteres o pão dentro dele, para se
cozer.
A filha agradeceu à mãe, e quando a pedra
ficou cinzenta, juntou as brasas na “boca” do forno, colocou lá um bocado de
cortiça, para dar cor ao pão, e chamou por ela:
- Mãe venha cá, que preciso que me faça o
favor que eu lhe fazia a si: segure-me na pá, para eu meter o pão no forno...
A mãe veio, e verificou que estava tudo em
ordem: o forno quente, e bem varrido, para que não aparecessem carvões no “lar
do pão”, o borralho no sítio certo, os pães em cima do lençol, sorridentes.
Estava tudo uma maravilha. Depois, segurou
na pá e a filha meteu os doze pães dentro do forno. Quando se preparava para
por a tampa de ferro na “boca” dele, a mãe disse-lhe: espera lá, que ainda te
falta uma coisa!... Não me digas que ias tapar a boca do forno, sem acabares o
serviço...
Ela olhou para a mãe, surpreendida, e
disse-lhe:
- Ó minha mãe, não vejo que falte nada!
Está a ver a cor tão linda, com que está a ficar o pão...
- Lá isso é verdade, até aqui fizeste tudo
bem, mas...
- Ah!, já sei, esqueci-me de rezar a
oração a S. João e a S Vicente...
- É isso, mesmo! E olha que isso, como me
ensinou a tua avó, é muito importante... Mas ainda te esqueceste de outra
coisa...
- Então qual foi, mãe?
- Falta-te fazeres as “salgotas” para o
teu pai e para o teu irmão...
- É verdade! Sou uma desastrada, mas ainda
vou a tempo...
- Claro que vais. Enquanto rezas a oração,
eu vou buscar a água quente e o sal e rapidamente amassas as salgotas...
E
assim foi, a Ana pegou na pá, destapou a boca do forno, benzeu-se, e, fazendo
cruzes com ela em frente da boca do forno, rezou a oração:
São
João te faça bom pão,
São
Vicente te acrescente.
Em
louvor da virgem Maria,
Um
Pai-Nosso e uma Ave-maria.
Depois de rezar o Pai-Nosso e a Ave-maria,
peneirou um pouco de farinha, para fazer as “salgotas”, e adicionou-lhe uma
mão-cheia de sal. Amassou tudo, bem amassado, e estavam prontas a meter no
forno.
Para as personalizar, à do irmão fez-lhe
uma marca com o dedo indicador no centro, e à do pai fez-lhe cinco, em forma
das cinco quinas, para ficar mais enfeitada, como disse à mãe.
Foram as primeiras a sair do forno.
Quadrangulares, da grossura de dois dedos, depressa ficaram cozidas.
Passada uma hora, a mãe disse-lhe para ir
ver se o pão já estava cozido, e perguntou-lhe: sabes como se vê isso, não
sabes... Sei, sim, minha mãe.
Então vai ver. Deve-se ter cuidado para
não deixar queimar o pão, porque isso é pecado.
A filha retirou a tampa de ferro da boca
do forno, e com a pá tirou um pão. Com uma mão segurou-o, e com as “nozes” dos
dedos da outra mão deu três pancadas no “lar do pão”, e ele “respondeu”: pão,
pão, pão.
Era o sinal de que já estava cozido, e
tirou os outros pães, e foi levar a “salgota” ao irmão, que estava na varanda,
a fazer um pião, à espera dela.
A emoção tinha sido tanta, que até se
esqueceu de fazer uma salgota para ela... Mas isso não foi problema. Depois de
ter tirado o pão do forno, a mãe fez a “tiborna”, um pão mais pequeno, e com as
mãos partiu-o ao meio e foi mergulhá-lo em azeite e pôr-lhe açúcar para o
comerem, quando o pai chegasse a casa.
Quando o pai chegou, a filha entregou-lhe
a “salgota”, e pediu-lhe que a acompanhasse à Casa do Forno, para lhe mostrar
uma coisa que lá estava.
Ele acompanhou-a e ela mostrou-lhe os doze
pães, que estavam cobertos com um lençol de linho, e disse ao pai: hoje fui eu
que cozi o pão, a mãe só segurou na pá... Para a próxima vez, a mãe pode ir à
horta enquanto eu cozo o pão...
O pai, sorridente, deu-lhe um beijo e
disse-lhe: que amor de pães, minha filha, a tua mãe não fazia melhor que tu.
Tal mãe, tal filha… Estou muito contente contigo, que já és uma mulherzinha!
João de Deus
Rodrigues
Por vontade do autor este texto não obedece ao novo AO90

Este conto do João de Deus, sobre o fabrico do pão numa casa rural, é de uma grande ternura, assente em uma história muito bem narrada, com interessantes detalhes etnográficos e revelador de grande sensibilidade e humanidade.
ResponderEliminarBem haja amigo por nos dar esta bela prenda, em tempo de sofrimento.
JG80
In Passagens e Afectos - João de Deus Rodrigues
ResponderEliminarAs Promessas não Cumpridas
Com um ao colo,
Outro pela mão,
Mil promessas, não cumpridas,
A caminho da estação.
Só já eram mil pedidos,
Feitos breve e em segredo:
- Pai, quando tiveres dinheiro,
Compras-me aquele brinquedo?
Mas só já era um desejo,
De resposta sempre dada,
E tantas vezes repetida:
- Compro, meus filhos,
Já se vê!
Mas depois,
Não comprava nada.
E eles apercebiam-se porquê !
PASSAGENS E AFECTOS
ResponderEliminarQue coisa tão bela,
Era a neve a dançar,
Naquele silêncio repousante,
Comigo á lareira,
A crepitar,
No calor da noite,
Quando a minha mãe me dizia:
- Olha, meu filho,
Estão a cair
Os cueirinhos
Do Menino Jesus,
Rotos e branquinhos,
Que a Sua Mãe está a sacudir
Da janela do Céu.
E eu ia a correr,
Ver a neve cair.
E como não cheirava,
Comia-a, e acreditava!
João de Deus Rodrigues
Eu, Pintor
ResponderEliminarPinto pobres de pedir,
Com cajado e cão ao lado,
E não pinto ricos gordos,
Com charuto perfumado.
Pinto árvores, pinto prados,
Pinto flores e rosmaninhos.
E não pinto solares doirados,
Com beirais onde não há ninhos.
E dou assim asas aos sentidos,
Que Deus me deu por herança,
E pairam na minha lembrança.
Quando só, ao calor da lareira,
Gatafunhava, com carvão de oliveira,
A inspiração da alma de criança.
In Passagens e Afectos