segunda-feira, 17 de maio de 2021

A CASA DO FORNO

 

João de Deus Rodrigues


Uma das primeiras coisas que as mães ensinavam às filhas, depois de já saberem pregar um botão na camisas do pai, era cozer o pão. Esta tradição passava de geração em geração, e quando numa família, com mãe e filhas, isso não acontecia, era uma vergonha para elas. Por isso, nesse dia, manhã cedo, a mãe foi ao quarto do filho e disse-lhe:

- Olha, meu filho, levanta-te e vai cortar lenha e leva-a para a Casa do Forno, porque hoje quem vai cozer o pão é a tua irmã. Está-se a acabar o que cozi na semana passada, e sem pão na mesa até as formigas fogem dela, e não há quem ature o teu pai.

O filho assim fez. Pegou na machada e foi à rima da lenha e cortou dois galhos de freixo, puxou umas estevas secas e levou tudo para junto do forno, como a mãe lhe tinha mandado fazer.

Depois de ter incumbido o filho de levar a lenha para o forno, a Merência foi ao quarto da filha, chamou-a, e disse-lhe:

- Levanta-te, minha filha, que hoje és tu que vais acender o forno e cozer o pão. Já tens doze anos, e é altura de aprenderes como se faz isso.

A filha, entusiasmada, respondeu á mãe:

- Ó, minha mãe, levanto-me já e vou a correr ter consigo à Casa do Forno, porque é isso que eu quero aprender, como já lhe tinha pedido.

- É verdade. Mas só agora, que já fizeste a quarta classe, é que chegou a altura de aprenderes. Por isso, despacha-te e não demores.

Passado um instante, mãe e filha davam início à tarefa de cozer o pão. Dirigiram-se à Casa do Forno, onde já se encontrava a lenha, acenderam o lume e penduraram uma caldeira de cobre nas trempes, para aquecer a água para amassar a farinha.

Feito isso, a mãe mandou a filha destapar a masseira e pegar nas duas peneiras para peneirar, “a toda a peneira” (de maneira a só ficarem os farelos na peneira) o saco de farinha que o pai tinha deixado lá ficar, antes de sair para a lavoura.

Peneirar era coisa que a Ana já sabia fazer. Pôs um lenço na cabeça, pegou nas peneiras e peneirou a farinha enquanto o Diabo esfrega um olho.

Feito isso, deu início ao passo seguinte: amassar a farinha. Para isso, pegou num jarro e foi com ele à caldeira buscar água quente e começou a amassá-la, juntando-lhe o fermento que estava guardado numa malga, coberto com uma folha de couve, que tinha sido retirado da massa fermentada da fornada anterior.

Mas antes de começar a amassar a farinha, a mãe chamou-lhe a atenção para o que devia fazer, e como:

- Olha, filha, deves ter cuidado com a água, que não deve estar a ferver. Deve estar, apenas, um pouco mais quente do que morna… Depois, ao amassares a farinha deves “esfregar e bater” bem a massa na masseira, que é para que o pão não fique com “carolos”.

Quando acabares de amassar, juntas a massa e tapa-la, bem tapada, com o lençol de linho, para que ela “adormeça” e fique bem levedada. Só depois, passadas duas horas, é que vais ver se ela está quentinha, a rir-se para ti, mais crescida, para fazeres os pães. Se precisares de ajuda, chama por mim…

A filha ouviu atentamente as explicações da mãe e assim fez. Embora, por já ter visto a mãe fazê-lo, soubesse a ordem dos passos seguintes. Estava, apenas, um pouco nervosa e com algum receio, como é habitual em quem faz uma coisa de responsabilidade pela primeira vez.

Passadas duas horas, enfarinhou as mãos, bem enfarinhadas, para que a massa não se pegasse a elas, e foi fazer os pães e colocá-los no lençol de linho, sem se tocarem, que estava estendido, ao lado, em cima da tampa da arca da farinha.

Entretanto, já andava atarefada a acender o forno, quando a mãe chegou junto dela e lhe disse:

- Olha, agora vou-te ensinar “o segredo do forno”. E apontando-lhe uma pedra no tecto disse-lhe: quando aquela pedra ficar da cor da cinza, varres o forno, bem varrido, com o vassouro de sumagre, e deitas uma mão de farelos para dentro dele. Se os farelos arderem, em suspensão, então o forno está no “ponto” de meteres o pão dentro dele, para se cozer.

A filha agradeceu à mãe, e quando a pedra ficou cinzenta, juntou as brasas na “boca” do forno, colocou lá um bocado de cortiça, para dar cor ao pão, e chamou por ela:

- Mãe venha cá, que preciso que me faça o favor que eu lhe fazia a si: segure-me na pá, para eu meter o pão no forno...

A mãe veio, e verificou que estava tudo em ordem: o forno quente, e bem varrido, para que não aparecessem carvões no “lar do pão”, o borralho no sítio certo, os pães em cima do lençol, sorridentes.

Estava tudo uma maravilha. Depois, segurou na pá e a filha meteu os doze pães dentro do forno. Quando se preparava para por a tampa de ferro na “boca” dele, a mãe disse-lhe: espera lá, que ainda te falta uma coisa!... Não me digas que ias tapar a boca do forno, sem acabares o serviço...

Ela olhou para a mãe, surpreendida, e disse-lhe:

- Ó minha mãe, não vejo que falte nada! Está a ver a cor tão linda, com que está a ficar o pão...

- Lá isso é verdade, até aqui fizeste tudo bem, mas...

- Ah!, já sei, esqueci-me de rezar a oração a S. João e a S Vicente...

- É isso, mesmo! E olha que isso, como me ensinou a tua avó, é muito importante... Mas ainda te esqueceste de outra coisa...

- Então qual foi, mãe?

- Falta-te fazeres as “salgotas” para o teu pai e para o teu irmão...

- É verdade! Sou uma desastrada, mas ainda vou a tempo...

- Claro que vais. Enquanto rezas a oração, eu vou buscar a água quente e o sal e rapidamente amassas as salgotas...

 E assim foi, a Ana pegou na pá, destapou a boca do forno, benzeu-se, e, fazendo cruzes com ela em frente da boca do forno, rezou a oração:

                                      

                                        São João te faça bom pão,            

                                        São Vicente te acrescente.

                                        Em louvor da virgem Maria,

                                        Um Pai-Nosso e uma Ave-maria.

 

Depois de rezar o Pai-Nosso e a Ave-maria, peneirou um pouco de farinha, para fazer as “salgotas”, e adicionou-lhe uma mão-cheia de sal. Amassou tudo, bem amassado, e estavam prontas a meter no forno.

Para as personalizar, à do irmão fez-lhe uma marca com o dedo indicador no centro, e à do pai fez-lhe cinco, em forma das cinco quinas, para ficar mais enfeitada, como disse à mãe.

Foram as primeiras a sair do forno. Quadrangulares, da grossura de dois dedos, depressa ficaram cozidas.

Passada uma hora, a mãe disse-lhe para ir ver se o pão já estava cozido, e perguntou-lhe: sabes como se vê isso, não sabes... Sei, sim, minha mãe.

Então vai ver. Deve-se ter cuidado para não deixar queimar o pão, porque isso é pecado.

A filha retirou a tampa de ferro da boca do forno, e com a pá tirou um pão. Com uma mão segurou-o, e com as “nozes” dos dedos da outra mão deu três pancadas no “lar do pão”, e ele “respondeu”: pão, pão, pão.

Era o sinal de que já estava cozido, e tirou os outros pães, e foi levar a “salgota” ao irmão, que estava na varanda, a fazer um pião, à espera dela.

A emoção tinha sido tanta, que até se esqueceu de fazer uma salgota para ela... Mas isso não foi problema. Depois de ter tirado o pão do forno, a mãe fez a “tiborna”, um pão mais pequeno, e com as mãos partiu-o ao meio e foi mergulhá-lo em azeite e pôr-lhe açúcar para o comerem, quando o pai chegasse a casa.

Quando o pai chegou, a filha entregou-lhe a “salgota”, e pediu-lhe que a acompanhasse à Casa do Forno, para lhe mostrar uma coisa que lá estava.

Ele acompanhou-a e ela mostrou-lhe os doze pães, que estavam cobertos com um lençol de linho, e disse ao pai: hoje fui eu que cozi o pão, a mãe só segurou na pá... Para a próxima vez, a mãe pode ir à horta enquanto eu cozo o pão...

O pai, sorridente, deu-lhe um beijo e disse-lhe: que amor de pães, minha filha, a tua mãe não fazia melhor que tu. Tal mãe, tal filha… Estou muito contente contigo, que já és uma mulherzinha!

 

                               João de Deus Rodrigues 

 

Por vontade do autor este texto não obedece ao novo AO90

4 comentários:

  1. Este conto do João de Deus, sobre o fabrico do pão numa casa rural, é de uma grande ternura, assente em uma história muito bem narrada, com interessantes detalhes etnográficos e revelador de grande sensibilidade e humanidade.
    Bem haja amigo por nos dar esta bela prenda, em tempo de sofrimento.
    JG80

    ResponderEliminar
  2. In Passagens e Afectos - João de Deus Rodrigues

    As Promessas não Cumpridas

    Com um ao colo,
    Outro pela mão,
    Mil promessas, não cumpridas,
    A caminho da estação.

    Só já eram mil pedidos,
    Feitos breve e em segredo:
    - Pai, quando tiveres dinheiro,
    Compras-me aquele brinquedo?

    Mas só já era um desejo,
    De resposta sempre dada,
    E tantas vezes repetida:
    - Compro, meus filhos,
    Já se vê!

    Mas depois,
    Não comprava nada.
    E eles apercebiam-se porquê !

    ResponderEliminar
  3. PASSAGENS E AFECTOS

    Que coisa tão bela,
    Era a neve a dançar,
    Naquele silêncio repousante,
    Comigo á lareira,
    A crepitar,
    No calor da noite,
    Quando a minha mãe me dizia:
    - Olha, meu filho,
    Estão a cair
    Os cueirinhos
    Do Menino Jesus,
    Rotos e branquinhos,
    Que a Sua Mãe está a sacudir
    Da janela do Céu.

    E eu ia a correr,
    Ver a neve cair.
    E como não cheirava,
    Comia-a, e acreditava!

    João de Deus Rodrigues

    ResponderEliminar
  4. Eu, Pintor

    Pinto pobres de pedir,
    Com cajado e cão ao lado,
    E não pinto ricos gordos,
    Com charuto perfumado.

    Pinto árvores, pinto prados,
    Pinto flores e rosmaninhos.
    E não pinto solares doirados,
    Com beirais onde não há ninhos.

    E dou assim asas aos sentidos,
    Que Deus me deu por herança,
    E pairam na minha lembrança.
    Quando só, ao calor da lareira,
    Gatafunhava, com carvão de oliveira,
    A inspiração da alma de criança.

    In Passagens e Afectos

    ResponderEliminar

O Nascimento de um Reino

  ·          “…quam (filiam) rex dedit maritatam Enrico comiti, et dotavit eam magnifice, dans Portugalensem terram jure hereditario.” ·  ...

Os mais lidos