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| JORGE LAGE |
A vida dos nossos emigrantes, principalmente na primeira década dos anos sessenta, foi de grande sofrimento e privações e falarmos sobre essa saga exigia muito espaço, o que não faremos hoje. Mas, há, também, as deslocações dos transmontanos para o litoral, os migrantes, principalmente para Lisboa e Porto e ainda para o Ultramar que não foram anos fáceis para muitos.
Da minha parte
deixei para trás um rasto de sofrimento de lágrimas e dor, pelo chão, pelos
afectos, pelos rostos, pela paisagem e pelas pedras e canelhas onde fui feliz,
porque o meu mundo não ia muito além do termo da minha aldeia. O abandonar o
lar e o meu concelho fizeram-me sentir estrangeiro no meu próprio país, onde
com um parto de dor me fez amenizar essa sentida saudade. Ainda hoje me custa a
perceber como alguns falam com frieza do torrão em que nasceram e viveram os
primeiros anos. Um amigo de Martim – Murça, juiz jubilado na Grande Lisboa,
escreve-me sábias mensagens que eu considero como dádivas. Dádivas que aceitam
com naturalidade as dificuldades da infância nas nossas aldeias e que não
impediam de sermos felizes. Por isso deixo-vos com a sua mensagem: «Nasci
em 1945, um pouco antes do fim da II Guerra Mundial. Como vivi feliz numa
aldeia pobre no meio de pessoas pobres para lá do Marão!... Mas havia a riqueza
do amor da família à volta da mesa, da lareira e do mesmo prato, a riqueza do
muito pouco, da proximidade e vizinhança, do "ó vizinha empresta aí",
do pão escuro cozido no forno, da carne da salgadeira, das hortaliças puras e
da água do caneco. Ali vivi no dia a dia sem notícias, sem mundos, sem rádios e
sem jornais. O mundo todo era a aldeia de Martim cercada de montanhas. Só o céu
não tinha fronteiras e era por aí que eu olhava as estrelas e vivia
os meus sonhos. Todos os dias tento voltar ao mundo em que nasci.»


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