ANTÓNIO MAGALHÃES
Apalpei o envelope almofadado e percebi logo que era um
livro.
Há anos que digo isto, principalmente à minha família. “O
melhor presente que alguém me possa oferecer é sem dúvida alguma um livro.
O autor, deste livro que viajou um longo caminho, desde
Palmela Portugal, até Sheffield, Inglaterra, (e só menciono o país porque
também existe Sheffield, Estados Unidos) é Elmiro Barbeiro.
As promessas são para se cumprir. Nem que às vezes, por
circunstâncias da vida, demorem longos anos a serem concretizadas.
Por vezes uma promessa para ser cumprida não depende só
da pessoa que se comprometeu. É preciso um conjunto de fatores e pessoas,
outras pessoas, que ajudem a concretizar a promessa.
Querendo, o universo conspira no sentido de a promessa
ser realizada, mesmo que por meios por vezes misteriosos. (Afinal o Alquimista
sempre serve para alguma coisa).
Diria que foi o caso do autor, Elmiro Barbeiro, que ao
fim de muitos anos edita este livro, promessa feita a seus pais.
O universo, e Deus, que será o Maestro divino da criação,
lá se encarregaram de selecionar ao longo dos anos, as pessoas certas, e as
circunstâncias adequadas, para que a promessa feita acabasse por ser cumprida.
O livro é um conjunto de histórias, contos e poemas, mas
acima de tudo uma viagem por memórias de factos que foram marcando uma época e
uma maneira de viver, que como pedras fundamentais de alicerces bem seguros,
edificam a maneira de ser de um povo que dá identidade única ao nosso país, e à
nossas regiões, neste caso a região Transmontana, Concelho de Freixo de Espada
à Cinta, e que fazem de nós um povo como não há outro igual.
Através destas histórias e poemas é como se se lessem as
rugas de um povo que resiste e persiste, rugas essas que como livros abertos
descrevem uma vida das dificuldades de outros tempos, bem mais duros, mas mais
sólidos também, e ao mesmo tempo as alegrias e os bons tempos de farra e
convivência.
Uma viagem por uma região de paisagens deslumbrantes,
paisagens de cortar a respiração por vezes, onde nós que somos parte do
universo e da natureza que embeleza o planeta terra, não ficamos indiferentes
quando os elementos que compõem a montanha, pressentem os minerais que fazem
parte da nossa constituição humana, e a conexão se faz.
Alguém que faça uma viagem pelas lindas e deslumbrantes
terras Transmontanas e não sinta essa conexão, que por vezes se manifesta numa
espécie de formigueiro na barriga, então não é humano.
Apesar dos poemas, contos e histórias, o livro tem um
conjunto de fotografias que comprovam o que aqui se diz.
As paisagens de Lagoaça, o Miradouro da Cruzinha com
vista para Espanha, a estação dos caminhos de ferro de Mogadouro, Carviçais,
Palácio dos Areias em Lagoaça etc.
Um livro que me traga um sorriso ao rosto quando o leio, para
mim já é um bom livro.
Este livro não só me trouxe esse sorriso, como também me
avivou algumas memórias Transmontanas.
Uma viagem a Vila-Real de Trás -os- Montes, uma ida a
Ribeira de Pena, mais propriamente uma localidade chamada Azeveda.
Ao ler este livro de Elmiro Barbeiro foi como se estivesse a ver uma vez mais o povo de Azeveda. Como se ouvisse de novo as suas vozes e a sua maneira calorosa de receber.
Um caminho pedestre de onde as pedras pareciam nascer do
solo, formando uma espécie de escadas irregulares sobre uma encosta ingreme que
nos guiava a uma casa isolada, a meio da colina. A casa onde moravam as primas
da Azeveda.
Ao ler este livro de Elmiro Barbeiro recuei no tempo mais
de trinta anos e lembrei-me destas primas da minha mãe, assim como do povo da
aldeia, no sopé da colina.
Povo que me parecia dimanar da terra, “com a
verticalidade das rochas” (Miguel Torga) e por isso também, único, genuíno,
cheio de história e tradição. Povo de um calor e de uma humanidade de fazer
comover o mais indiferente.
Povo que saiu à rua para nos receber como se fossemos
também filhos da aldeia.
Alguma desta gente bonita eram primos e tios da minha
mãe, outros, crianças outrora amigos de brincadeira que cresceram juntos até
que a juventude e as aspirações os fizeram mover em diferentes direções.
Memórias de uma jovem velhinha de fibra Transmontana,
madrinha da minha mãe, e que aos 97 anos de idade ainda ia, toda despachada, ao
monte, arrecadar lenha para o lume.
Recusou-se a morrer na cama.
Aos 102 anos de idade, uma manhã, sentou-se no sofá,
encostou a cabeça para trás, e partiu assim.
Aposto que deve ter dito aos anjos que a vieram buscar, -
uma viagem longa faz-se sentada e não deitada.
Por culpa da minha mãe, natural de Vila-Real de
Trás-os-Montes, o meu pai, nascido e criado em Felgueiras, distrito do Porto,
ficou a ser conhecido desde que regressou da sua aventura no grande hotel de Vidago,
e do colégio de Vila-Real, e de lá trouxe a minha mãe para Felgueiras, como o
senhor Vila-Real.
Por culpa deste livro, Conversas de Viagens, lembrei-me
agora de tudo isto.
Conversas de Viagens – Contos, Histórias e Poemas, de
Elmiro Barbeiro, nascido a 20 de Setembro de 1948, em Lagoaça, Concelho de
Freixo de Espada à Cinta, tem o prefácio de Armando Palavras, Professor,
doutorado em História, Investigador.
E é precisamente com o último parágrafo do prefácio deste
livro que termino esta minha crónica.
“É um livro de memórias fragmentárias. Nelas o autor
reencontra os seus ancestrais em momentos da meninice e segue ligeiro por
várias fases da vida: a passagem pelo Seminário dos Dehonianos, a vida de
Marçano no Porto, a frequência no Colégio de Carviçais, o Curso Geral do
Comércio em Bragança e, finalmente, a recruta e o serviço militar cumprido na
Guiné, para onde viajou no paquete Uíge.
E se a poesia é uma das suas paixões, com ela encerra com
chave de ouro este volume.
Armando Palavras
Oeiras, Dezembro de 2020”
António Magalhães

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