"A tradição atribui a D. Teresa o papel de vilã, mas ela merecia um lugar mais prestigiante na nossa História".
Cristina Torrão, Entrevista à autora do romance "Afonso Henriques- o Homem", in: 9 Séculos - revista da lusofonia, nº 1, Guimarães, Agosto de 2020, p.116.

AFONSO HENRIQUES-O HOMEM - Livro de Cristina Torrão
ResponderEliminar...-E, no entanto, a vida de D. Afonso Henriques foi muito preenchida e o reino de Portugal teve origem numa luta entre mãe e filho. Tudo condimentos para se cozinhar um bom enredo.
__ Na verdade, disputas familiares eram frequentes na Idade Média, quando os reinos mais não eram do que «propriedade familiar» transmitida de geração em geração. A tradição atribuiu a D.Teresa o papel de vilã, mas ela merecia um lugar mais prestigiante na nossa História.Quando tomou as rédeas do condado Portucalense nas suas mãos, D.Teresa, uma viúva, com um filho ainda pequeno, a todos surpreendeu. Durante quase dez anos, foi a soberana incontestável do condado, com o apoio dos barões, fontes coevas tratam-na por "rainha".E, na verdade,foi ela que iniciou o processo de separação em relação ao reino leonês, ao insistir na divisão da herança de seu pai entre ela e a sua meia-irmã D. Urraca. D.Teresa nunca prestou vassalagem à irmã , nem ao sobrinho, postura à qual o filho deu seguimento. Se compararmos este processo com a construção de uma estrada, podemos dizer que D.Teresa começou por fazer um esboço, apontou uma direção e delineou um trajeto.O filho construiu essa estrada,deu-lhe uma identidade.D.Teresa ficou reduzida ao papel de adúltera e penso que chegou a altura de a avaliarmos pelas suas qualidades de liderança e não apenas pela sua vida privada.
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In REVISTA DA LUSOFONIA - CRISTINA TORRÃO
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ResponderEliminar- D.Afonso Henriques começou a usar o título de rei onze anos mais tarde, depois da Batalha de Ourique.
- Foi a partir de Ourique que começaram a cursar os rumores, entre os muçulmanos sobre a sua força sobrenatural, o que leva a concluir que a sua aclamação de rei não se deu por acaso. A lenda diz que Jesus Cristo surgiu a D.Afonso Henriques, na noite anterior à batalha, e lhe prometeu a vitória. Talvez sirva para explicar como é que homens assustados e em menor número conseguiram vencer a peleja. Apercebendo-se de que os seus homens receavam o numeroso exército inimigo, D.Afonso Henriques terá apostado na força psicológica, através de um ritual, ressuscitando um antigo costume visigótico, sendo erguido de pé sobre o seu escudo pelos seus guerreiros. Aos olhos dos que iriam lutar a seu lado, o príncipe convertia-se em rei. O episódio deve ter tido um efeito profundamente moralizador no seio dos combatentes. E é possível que os muçulmanos igualmente se tenham apercebido da cerimónia, ficando intrigados e receosos.
In 9 SÉCULOS REVISTA DA LUSOFONIA