quarta-feira, 18 de setembro de 2019

O equívoco presidencial


Marcelo veio introduzir ao mais alto nível um equívoco na sociedade portuguesa. Ele faz passar a ideia de uma grande proximidade com as pessoas, ouve-as, abraça-as, tira fotos, promete fazer alguma coisa por elas dentro dos seus poderes.

José António Saraiva - Sol

A história contada por Felícia Cabrita no último SOL é a vários títulos exemplar.
Um camionista escreveu a Marcelo Rebelo de Sousa convidando-o a fazer uma viagem com ele, de modo a tomar consciência das dificuldades da profissão.
O Presidente aceitou, conversaram, o camionista queixou-se, e passado algum tempo enviou a Marcelo um e-mail onde lhe dava conta de uma greve em preparação - que, segundo o homem, teria consequências tão graves que até poderia acabar em revolução.
Recebido o e-mail, o Presidente da República envia-o ao primeiro-ministro, que por sua vez o remete para a Procuradoria-Geral da República.
E uma assessora de Belém dá conta ao motorista desse facto, a que ele não atribui importância.
Até agradece a atenção.
Entretanto, o semanário Expresso publica uma notícia em que se lê: «Motorista que em janeiro transportou Marcelo escreveu um e-mail a ameaçar com uma greve que provocaria uma revolução civil. Governo mandou para a PGR e secretas».
Esta notícia, que transformava o homem em ‘perigoso revolucionário’, é reproduzida durante um dia inteiro na SIC Notícias.
A questão assume tal delicadeza que o Presidente da República se sente obrigado a telefonar pessoalmente ao camionista, dizendo-lhe que a fuga de informação não partiu de si.
Mas o homem sentiu-se indignado e, na conversa com Felícia, disse-lhe que o Presidente o «traiu».
Esta história coloca várias questões.A primeira é: donde partiu a fuga de informação para o Expresso, e com que intenção?
O mais provável é que tenha partido do gabinete do primeiro-ministro.
E porquê?
Porque António Costa estava empenhadíssimo em diabolizar a greve dos camionistas; ora, transmitir a ideia de que ela tinha objetivos políticos, ao ponto de poder induzir uma «revolução civil», era exatamente o que interessava ao Governo.
Nada melhor para tirar credibilidade à greve.
De resto, a informação de que o e-mail já fora remetido para a Procuradoria só poderia ter sido dada pelo gabinete de Costa.
A segunda questão diz respeito à atuação de Marcelo Rebelo de Sousa como Presidente da República.
Marcelo veio introduzir ao mais alto nível um equívoco na sociedade portuguesa.
Ele faz passar a ideia de uma grande proximidade com as pessoas, ouve-as, abraça-as, tira fotos, promete fazer alguma coisa por elas dentro dos seus poderes.
É a maneira de ser de Marcelo, que gosta de ser amado, mas é também uma estratégia de afirmação.
Uns cultivam uma relação de distância com o povo, outros de proximidade.
Mário Soares também se fazia muito amigo do povo, deixava que as peixeiras o beijassem, elas achavam que o Presidente as adorava - e no fim, quando chegava ao hotel, Soares ia direto à casa de banho para se lavar e mudar de fato.
A política é assim.  Faz-se muitas vezes de ilusões.
Só que isso gera com frequência equívocos lamentáveis.
E cruéis.
Aquele camionista achava mesmo que Marcelo Rebelo de Sousa era amigo do povo, gostava das pessoas uma a uma - e por isso ouviria os seus problemas.
E a verdade é que Marcelo até correspondeu.
Foi com o homem até ao Porto.
E depois o camionista já se achava grande amigo do Presidente - a ponto de lhe escrever desabafos, como a iminência de uma revolução.
Ora, aí, o Presidente da República fez o que não podia deixar de fazer: enviou o e-mail ao primeiro-ministro, para lhe dar conhecimento; e este fez o que devia fazer: encaminhou-o para a Procuradoria-Geral da República.
O que fica desta história é a ingenuidade do motorista.
Que acreditou mesmo em Marcelo.
Mas é preciso dizer que a culpa, em última análise, é dos equívocos que o Presidente semeia.
Para que o adorem, Marcelo transmite às pessoas a ideia de que é genuinamente amigo delas - e essa ideia é falsa.
Um Presidente não pode ser amigo de ninguém - nem dos próprios amigos.
Por isso, preferia que Marcelo fosse mais distante.
E deixasse claro que Presidente é Presidente - e não uma pessoa como outra qualquer, que se mistura com o povo, tira selfies e distribui afetos artificiais.

P.S. - Na votação no Parlamento sobre um hipotético Museu Salazar, toda a esquerda votou contra e o PSD e o CDS abstiveram-se. Isto mostra o medo que a nossa ‘direita’ tem da esquerda. Para votar a favor, nem era preciso ser-se de direita: bastava ser-se democrata. Mas nem para isso o PSD e o CDS tiveram coragem.


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