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| BARROSO da FONTE |
É certo que ninguém nasce ensinado. Mas é verdade que
alguns técnicos e políticos entram e saem dos cargos de que tomam posse sem
chegarem à sua essência. E, verdadeiramente, levam anos a conhecer a história,
os fins e principais segredos para que, responsavelmente, decidam interpretar,
em pleno, as verdadeiras linhas de força. Não há humildade nem coerência para
que, todos eles, leiam, assimilem e aprofundem o historial de cada área sobre a
qual venham a tomar decisões. É certo que existem os assessores que deverão
preparar os dossieres acerca de cada matéria. E por isso se diz que muitos,
sobretudo no início das suas atividades, assinam de cruz.
É compreensível que esses casos existam, ou por
excesso de confiança, ou por excesso de trabalho e falta de tempo. Mas essas
falhas notam-se em situações correntes, como por exemplo, aconteceu no recente
debate entre os dois candidatos a primeiro-ministro. Um deles é jurista e tem
obrigação de falar de leis. O outro é economista e deverá saber, por força da
sua formação básica, os nomes das rubricas onde devem inscrever-se as verbas
dos orçamentos do estado. Nenhum comentador anotou essa escorregadela. Mas que
foi uma fífia, lá isso foi. Eis a vantagem em ser o político formado na área
das competências para que é designado.
Outro exemplo muito repetido: a política do emprego e
do desemprego. Todos falam numa e noutra coisas. Mas são diferentes e devem ser
destrinçadas para os cidadãos saberem do que está a falar-se. Só a partir do
final do século XIX se começou a exercer o mutualismo, com base no
associativismo para classes assistenciais. Entraram em cena os médicos de
trabalho, medicações e subsídios em situações da carência. Criaram-se seguros e
formas de apoio a doenças, velhice, sobrevivência e o conceito de subsídio. Foi
em 1935 que se lançaram as bases para a criação de um sistema inspirado naquele
que já funcionava nalguns países europeus. Já na década de 1970 essas preocupações
redundaram nesse conceito de proteção social. Esse avanço consagrou a Segurança
Social que começou por criar aquele que primeiramente se chamou subsídio de
desemprego. Nos finais dessa década foi fundado o SNE (Serviço Nacional de
Emprego) mais tarde alargado para Instituto de Emprego e Formação Profissional
(IEFP). A junção do emprego, desemprego e formação profissional, alargou-se a
todo o país. E a esse organismo podem e devem recorrer todos os cidadãos que
desejem: primeiro emprego, melhor emprego, formação para melhorar o emprego e
até para orientação das suas próprias tendências. O serviço é totalmente
gratuito, facultativo, sem limites de idade, de espaço e, inclusivamente, para
quem, estando a trabalhar, pode ali permanecer inscrito, no intuito de melhorar
o emprego que já tem.
Nos primeiros anos de funcionamento deste moderno e
universal serviço público, quem a ele recorria. Costumava dizer que ia ao «Fundo
de Desemprego». Levou anos a perceber-se que essas pessoas confundiam esse
organismo com o tal «fundo de desemprego que os carenciados ou reformados, iam
ali requerer.
Desta e de outras confusões que se generalizaram,
sobretudo os políticos, jogam com essa linguagem pouco esclarecida, mas,
episodicamente, conveniente para enrolar conversas propícias a para todos os
gostos.
E é isso que
pretendo com este artigo de opinião. Orgulho-me de ter sido dos primeiros:
«colocadores, técnicos de emprego, do mercado de emprego e técnico superior».
Fundador e responsável do Centro de Emprego de Chaves, ao tempo em que esse
Centro passou a selecionar os cidadãos portugueses que pretendessem emigrar,
para qualquer país com o qual Portugal tivesse relações externas. Lembro-me de
ter contribuído para muita gente da minha área de influência ter emigrado e aí
constituído a sua vida. Muitos ainda me procuram para me abraçarem. Tudo aí se
fazia graciosamente e nunca alguém se queixou de abusos ou tentativas de
suborno.
É com base nesta experiência que lamento a demagogia
política que grassa por todos os cantos e recantos de Portugal sempre que se
fala em emprego e desemprego. Uns falam porque é fácil falar perante quem não
domina essa variedade linguística. Outros falam porque o sistema se presta a
isso, ou seja: não é obrigatória a inscrição nesses Serviços. Muitos desistem
por desilusão. Outros estão inscritos para receberem o subsídio de desemprego,
o subsídio social e outros afins. Os políticos jogam com este tipo de
informações. Mas elas não têm qualquer caráter de fidelidade. Depois há outro
demérito: Há muitos que não querem emprego: querem subsídios. Ao lado do emprego, existe o subemprego. E é
este o maior flagelo social. Numa verdadeira economia sustentada, o que se
passa em Portugal, nem pouco mais ou menos deve valorizar-se como pleno
emprego. É um emprego deslocado, contra-natura, de sobrevivência. Faça-se um
levantamento rigoroso, científico, sério. Saberemos todos quantos licenciados,
mestres e doutores gastaram fortunas e pestanas aos pais e avós para serem
pedreiros, trolhas, jardineiros, motoristas, guardas noturnos. Chamar pleno
emprego a este miserabilismo político é uma afronta a qualquer «geringonça».


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