quinta-feira, 18 de julho de 2019

LAGOAÇA - O Entrudo


JOSÉ VERISSÍMO

(...) Das celebrações do entrudo em Lagoaça, penso que tipicamente medievais, realizaram-se até ao início dos anos oitenta aproximadamente. Posteriormente, algumas deixaram de ter lugar assíduo, devido ao elevado êxodo migratório da sua população mais jovem; e delas constam: o gaznar os casamentos, as madamas, o lançamento de cinza, os tiznetes[4], a utilização das bombas de carnaval, o pó de arroz, as serpentinas, o tradicional enterro do entrudo e a celebração religiosa da quarta-feira de cinzas.
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O prato característico no almoço de terça-feira gorda era o cozido, feito com carne de porco salgado, orelha, pé, barbada, costela fumada e o tradicional palaio[5], acompanhados de vasas[6] secas e batatas cortadas aos cubos cozidas.

Os Casamentos

Nos dias que antecediam o entrudo, rua a rua, era elaborado um rol das pessoas a casar, com a particularidade de organizar os pares através de uma vertente caricatural bem apimentada e algumas inconveniências que se julgavam no segredo dos deuses. Posteriormente, noite avançada, acompanhados de uma folha do vinho (funil avantajado), ocupavam-se lugares estratégicos nos quatro cantos da aldeia, vinhas do cabo lugar, no cabeço, na curtinha do Valente e nas eiras... Cada equipa com a devida sentinela, não fosse o diabo tecê-las. De repente o silêncio da noite era quebrado por um troar da voz liberta através da folha. - Ó camarada! - Começava o gaznar[7] dos casamentos (penso que a utilização do termo tem a ver com o grasnar das raposas. Para além da sua matreirice, no silêncio da noite ouve-se com regularidade em volta da aldeia durante o Inverno):

- Ó camarada!- Começava um.
- O quê companheiro? - Respondia outro.
- Temos gente para casar!
- Então quem é companheiro?
- O Zé da Antónia.
- Ah, esse é um bom rapaz! E quem nós le vamos dar?
- A Maria da ruinha; na quarta-feira vi-os a beijar.
- E que bedalha lhe vamos dar?
- Umas cangalhas[8] (óculos) p`ra verem melhor a palha, pois não paravam d`impalpar!
- Atão isso lhes vamos dar. Vão fazer um belo paaar!
- Ó camarada!
- O quê companheiro?
- Temos outro p`ra casar!
- Atão quem é companheiro?
- O Alberto do adro, que está sópo[9] e desdentado!
- E quem nós le vamos dar?
- A Manuela Felismina, que faz a cama no chão.
- E que bédalha le vamos dar?
- Um colmo[10] p`ra inxer o xargão[11].

Havia de tudo um pouco. Casavam-se atletas com aleijados, ricos com pobres, velhos com novos, desvendavam-se namoros escondidos... E todos eram presenteados com a respetiva bedalha[12], carregada de brejeirice. Por vezes corria mal e, ao sinal da sentinela, terminava bruscamente a declamação.



[4]Forrete
[5] Botelo
[6]Vagens secas, casulas.                                                                                                                                            
[7] Som emitido pelas raposas durante o acasalamento; anunciar em voz alta durante a noite. Figurado.
[8]Armadura em ferro ou em madeira que se colocava sobre a albarda dos animais para transportar cântaros.
[9]Tropeça com facilidade
[10] Esta palha também servia para encher os colchões.
[11]Colchão
[12]Prenda oferecida aos recém-casados.

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