![]() |
| JOSÉ VERISSÍMO |
(...) Das celebrações do entrudo em Lagoaça, penso que tipicamente
medievais, realizaram-se até ao início dos anos oitenta aproximadamente.
Posteriormente, algumas deixaram de ter lugar assíduo, devido ao elevado êxodo
migratório da sua população mais jovem; e delas constam: o gaznar os casamentos, as madamas, o lançamento de cinza, os tiznetes[4], a
utilização das bombas de carnaval, o pó de arroz, as serpentinas, o tradicional
enterro do entrudo e a celebração religiosa da quarta-feira de cinzas.
O prato característico no almoço de terça-feira gorda era o
cozido, feito com carne de porco salgado, orelha, pé, barbada, costela fumada e
o tradicional palaio[5],
acompanhados de vasas[6] secas e
batatas cortadas aos cubos cozidas.
Os
Casamentos
Nos dias que antecediam o entrudo, rua a rua, era elaborado
um rol das pessoas a casar, com a particularidade de organizar os pares através
de uma vertente caricatural bem apimentada e algumas inconveniências que se
julgavam no segredo dos deuses. Posteriormente, noite avançada, acompanhados de
uma folha do vinho (funil
avantajado), ocupavam-se lugares estratégicos nos quatro cantos da aldeia,
vinhas do cabo lugar, no cabeço, na curtinha do Valente e nas eiras... Cada
equipa com a devida sentinela, não fosse o diabo tecê-las. De repente o
silêncio da noite era quebrado por um troar da voz liberta através da folha. -
Ó camarada! - Começava o gaznar[7] dos
casamentos (penso que a utilização do termo tem a ver com o grasnar das
raposas. Para além da sua matreirice, no silêncio da noite ouve-se com
regularidade em volta da aldeia durante o Inverno):
-
Ó camarada!- Começava um.
-
O quê companheiro? - Respondia outro.
-
Temos gente para casar!
-
Então quem é companheiro?
-
O Zé da Antónia.
-
Ah, esse é um bom rapaz! E quem nós le vamos dar?
-
A Maria da ruinha; na quarta-feira vi-os a beijar.
-
E que bedalha lhe vamos dar?
- Umas cangalhas[8] (óculos)
p`ra verem melhor a palha, pois não paravam d`impalpar!
- Atão isso lhes vamos dar. Vão fazer um belo paaar!
- Ó camarada!
- O quê companheiro?
- Temos outro p`ra casar!
- Atão quem é companheiro?
- O Alberto do adro, que está sópo[9]
e desdentado!
- E quem nós le vamos dar?
- A Manuela Felismina, que faz a cama no chão.
- E que bédalha le vamos dar?
Havia de tudo um pouco. Casavam-se atletas com aleijados,
ricos com pobres, velhos com novos, desvendavam-se namoros escondidos... E
todos eram presenteados com a respetiva bedalha[12], carregada
de brejeirice. Por vezes corria mal e, ao sinal da sentinela, terminava
bruscamente a declamação.
[4]Forrete
[7] Som emitido
pelas raposas durante o acasalamento; anunciar em voz alta durante a noite.
Figurado.
[8]Armadura
em ferro ou em madeira que se colocava sobre a albarda dos animais para
transportar cântaros.



Sem comentários:
Enviar um comentário