ANTÓNIO MAGALHÂES |
A
saúde mental é real e pode afetar qualquer um de nós a qualquer altura da nossa
vida. A seriedade da doença exige a total atenção e tratamento a quem dela
sofre, ou venha a sofrer, e acima de tudo o respeito e compaixão, mesmo por
aqueles menos afortunados, sem família e bons amigos, por vezes a deambular em
solidão e desprezo, ao acaso pelas ruas do abandono…
Chamo-lhe
Acácio, como lhe poderia chamar António, ou Fernando, ou Mário, Diogo, Raul,
Anacleto, porque afinal de contas de poeta e de louco todos temos um pouco.
Ficamos,
portanto, pelo nome Acácio, protegendo a sua identidade ao multiplicar o nome
por dezenas, centenas de Acácios…
Os
mais ignorantes e menos sensíveis, leigos nos efeitos e consequências que por
vezes certas palavras, proferidas em determinado contexto, poderão ser mais
afiadas e profundas do que o bisturi na sala de operações, chamavam-lhe
“Tolinho”, expressão que nunca me agradou pelo que de desprezo, falta de
respeito e compreensão que ela deixa transparecer ao ser proferida, em relação
a quem sofre de um problema mental, incute, só porque é pelas mais diversas
razões, visível às ações e atitudes do dia a dia da pessoa que sofre do
problema.
O
Acácio tinha família. Pai, mãe. Gente humilde, gente boa, com muito pouca
instrução escolar, que fez o melhor que pôde para educar o filho que, “Olhe, é
muito trabalhador sabe…? Mas é levezinho da cabeça.” E isto palavras da mãe,
coitada, conformada ao completo insucesso escolar do filho, às suas constantes
crises psicológicas, à sua falta de atenção e capacidade para resolver simples
tarefas do dia a dia, conformando-se desde muito cedo à realidade do filho e da
sua condição, incluindo sempre nas suas orações um pedido muito especial a
Deus, que no fundo não difere muito da lista dos pedidos que a maior parte dos
crentes mais solicita ao Criador e que é a saúde, tendo cada um a sua razão
para tal pedido, mas no caso da mãe do Acácio, “Olhe senhor, saúdinha é o que
eu peço a Deus nosso senhor, pra mor de olhar por ele até aos fins dos meus
dias”.
Acácio
era apesar de tudo independente. Ou seja, trabalhava, comia e bebia, não se
relacionava com amigos, apenas com os colegas de trabalho que a maior parte das
vezes, ou tiravam proveito das suas capacidades limitadas em relação a certos
trabalhos, ou durante esses mesmos trabalhos aproveitavam para gozar com ele,
para se divertirem à sua pala.
Acácio
trabalhava na construção civil, “Sou trolha, e um bô trolha,” afirmava muitas
vezes, mesmo sem lhe perguntarem. “Bô trolha? Cabrão que nem um traço de massa
em condições sabes fazer.”
Mas
era ele que a maioria das vezes o fazia, e era ele que transportava os baldes
carregados de massa para os outros trolhas fazerem o seu trabalho entre pausas
para o cigarro e a cerveja.
O
Acácio tinha também algumas manias das quais não abdicava. Falo de
acontecimentos com mais de quarenta anos. Nessa altura nem sequer se sonhava
com o euro. Imperava no nosso país o escudo. Acácio não aceitava outra forma de
pagamento que não fosse feita em notas de vinte escudos. Um dia o meu pai, que
tinha que lhe fazer um pagamento de três mil escudos, entregou-lhe três notas
de mil escudos cada.
“Ó
San-Tónio, tem que me pagar com notas de vinte mil-réis”
“Notas
de vinte mil-réis não tenho que chegue”
“Ai
isso eu num sei…só arrecebo com notas de vinte mil-réis…”
E
bem que se podia ficar ali uma vida inteira que o Acácio não mudava nem de
discurso nem de opinião. Percebendo isso o meu pai lá se desfazia em trabalhos
para arranjar as cento e cinquenta notas de vinte escudos para perfazer os três
mil escudos.
Toda
a gente tinha uma teoria diferente acerca desta mania do Acácio uma vez que ele
não explicava a razão da sua exigência. Queria o pagamento em notas de vinte
mil-réis (vinte escudos) e o resto não tinha sequer conversa. Uns afirmavam que
tinha uma predileção especial pelo S. António, que era o santo que figurava num
dos lados das notas de vinte escudos, depois os menos pacientes, diziam que era
louco, o que me parecia uma expressão menos rude e menos desprezível do que
tolinho, pelo menos mais poética, e nós, a família Magalhães, baseávamo-nos na
nossa teoria do volume. Apesar de tudo o Acácio era um trabalhador árduo, não
só porque lhe impingiam os trabalhos mais árduos, mas também porque os fazia
sem contestar, sem mau feitio, com uma simplicidade que só os humildes são
capazes de possuir. Tira-se vantagem disso, infelizmente.
Por
isso, porque trabalhava arduamente, não lhe parecia justo que o seu pagamento
fosse feito com apenas três notas. Agora, cento e cinquenta…isso já é outra
música. E ele queria lá saber se o valor era o mesmo. Os olhos também comem…
Além
das suas manias, como qualquer outra pessoa, o Acácio tinha os seus dias
melhores e os seus dias piores. Normalmente os seus dias melhores acabavam por
ser os dias piores de quem o rodeava.
Num
desses dias, enquanto alguns colegas seus de trabalho se entretinham num jogo
de cartas, na tasca do meu pai, aproveitando a hora de almoço, o Acácio saiu-se
com uma ladainha que parecia não ter fim. Como ninguém sabia muito bem a que
propósito vinha a conversa, cedo o Acácio começou a aborrecer os homens da
jogatina. Quase que lhe foi implorado que se calasse, que desse um minutinho de
sossego. Mas quanto mais se lhe implorava pelo sossego mais ele argumentava,
embora ninguém soubesse muito bem ao que se referia. Um dos jogadores das
cartas, daqueles que eram capazes de fumar um cigarro do princípio ao fim sem
sequer lhe tocar com a ponta de um dedo, exímios fumadores com engenho e arte
suficiente para, no decurso da habilidade, em certos momentos executarem uma
pirueta com o cigarro na boca, sempre de mãos enamoradas com o baralho das
cartas e um olhar concentradíssimo e ao mesmo tempo atento, usando apenas os
lábios e a ponta da língua, dando voltas na boca até que o cigarro se extinguisse,
ainda rosnou entre dentes, “Tás aqui estás-me a levar um cachaço,” ameaça que
não funcionava pois o Acácio continuava o seu zunzum, ora gesticulando, ora
rindo em pequenas gargalhadas, mas sempre sem se calar.
O
meu pai sabia que em pessoas como o Acácio quanto mais as contrariar mais se
obtém o oposto do que se pretende. Por isso fez-lhe uma proposta.
“Se
estiveres calado durante cinco minutos, levas para casa um dos burros que estão
lá fora”
Para
se certificar a que burros o meu pai se referia, o Acácio foi até à porta e
espreitou para a rua. Deve ter pensado que os únicos burros ali no momento,
estavam a jogar às cartas. Mas deparou-se com os burros do moleiro, que nesse
dia viera entregar uma encomenda de farinha à loja dos meus pais.
“Ó
San-Tónio, dá-me mesmo um burro…!?”
“Dou,
tens é que estar calado durante cinco minutos. Nem uma palavra.”
Entusiasmado
o Acácio aceitou o desafio.
A
paz voltava, mas nem por isso os jogadores das cartas se concentravam mais no
jogo uma vez que estavam mais interessados no resultado desse desafio. De vez
em quando desviavam os olhos por cima do baralho, para olharem o Acácio que
deve ter tido os piores cinco minutos da sua vida. Percebia-se pelos constantes
suspiros profundos que deixava escapar constantemente, a agitação do corpo, na
cadeira onde se sentara, e até numas pequenas gotas de suor que se lhe
começavam a desenhar na testa.
Na
reta final de ganhar o seu burro, (e eu a pensar, como iria o meu pai descalçar
aquela bota) nos últimos segundos, pouco mais de vinte talvez, o Acácio
levantou-se da cadeira, chegou-se perto do meu pai e sussurrou-lhe no ouvido,
“Olhe lá, ó San-Tónio, e vossemecê também me dá a albarda?”
O
meu pai atirou-lhe com uma gargalhada, tão caracteristicamente sua, ouço-a no
momento em que escrevo estas letras, apesar de ter uns dez ou onze anos nessa
altura. Mas aquela gargalhada pareceu-me mais uma explosão de alívio do que
outra coisa.
“Ora
porra, porra, Acácio, nos últimos segundos da aposta... Já perdeste o burro…”
E
para surpresa minha, o Acácio nem contestou. Disse apenas,
“Támen
num tinha onde por o burro”
O
que me pareceu uma maneira bastante subtil de se desculpar a si mesmo pela sua
derrota que quase era uma vitória. Mas há pessoas assim. Quase que ganham,
quase que chegam lá, quase que conseguem… Numa corrida, quase que ganham. Às
vezes serve-lhes de consolo ter chegado em segundo lugar, mesmo que se venha a
verificar depois, que afinal, a corrida só tinha dois atletas.
Mas
do que mais me lembro do Acácio. Tem haver com uma tábua. Cerca de 60cm de
comprimento por 20 de largura. E como já lá vão para mais de quarenta anos
desde estes acontecimentos, é muito provável que as dimensões da tábua andassem
longe destas medidas, mas com centímetros a mais ou a menos, era uma tábua,
tábua essa que me ficou na memória até aos dias de hoje, e para isso muito
contribuiu o facto de ter levado com ela na cabeça.
Era
um daqueles meus melhores dias, que tal como o Acácio, nem sempre eram os
melhores dias de quem se cruzasse no meu caminho.
Os
trabalhadores com quem o Acácio trabalhava, faziam obras de reparo e restauro
numa casa perto de onde eu morava. Quando eu vinha da escola gostava de me
aproximar deles e vê-los trabalhar. Até porque eram clientes da loja dos meus
pais e por isso sentia-me à vontade pela confiança que com todos tinha. Mas
nesse dia em particular, nenhum deles achava piada às minha irritantes brincadeiras.
Coisas de moço.
Enervados,
levados quase ao limite, avisaram por várias vezes que me fosse embora, que os
deixasse em paz, que os deixasse trabalhar. Tal como o Acácio, também eu tinha
alturas que quanto mais me avisassem que não devia fazer, era quando eu mais
fazia. Por isso fiquei por ali, chato como uma mosca que enxotada mil vezes,
mil vezes dá uma pequena volta no ar até pousar no mesmo sítio novamente.
Talvez
influenciado pelos outros, o Acácio começou a ficar com os azeites.
“Vai-te
embora moço…”
Reforçado
por um outro colega de trabalho que acrescentou,
“Tás
aqui tás-me a levar com a talocha nas fuças.”
E
como ao dizer isto bateu com um pé no chão, como se fosse desatar a correr
atrás de mim, eu fugi, mas apenas o suficiente para que não ficasse logo ali à
mão de semear. Cerca de uns vinte metros, ou pelo menos a minha perceção de
criança com cerca de dez ou onze anos, em relação ao que era nessa altura uma
distância de vinte metros para mim.
Fiquei
ali parado na ponta do quintal, mesmo na beira do muro que o separava da
estrada, quintal esse que tinha cerca de um metro e meio acima do nível da
estrada. Como o trolha apenas tinha simulado a corrida, não avancei mais. Não
me apetecia nada saltar abaixo do muro, e por isso ali fiquei, a azucrinar-lhes
a cabeça.
Já
farto, o Acácio apoiou as duas mãos no cabo da enxada que utilizava para fazer
um traço de massa, fuzilou-me com os olhos, e grunhiu,
“Raios
parta o moço. Temos que o enxotar daqui.”
E
sem mais delongas olhou à sua volta até apanhar a tábua da qual já apresentamos
aqui as suas dimensões, muito embora sem certezas absolutas, dado o tempo que
nos separa dos acontecimentos.
Confesso
que nunca acreditei que ao ser lançada a tábua pelas mãos do Acácio, ela me
fosse atingir, por isso, deixei-me estar onde estava, sem me mexer. Depois de
arremessada, a tábua subiu um pouco, a meio do caminho começou a descer,
enquanto que eu, estático, seguia o seu trajeto. À mediada que a tábua se
aproximava, numa espécie de rodopios largos, assobiando enquanto ia cortando o
vento à sua passagem, comecei a duvidar da falta de pontaria do Acácio. Mesmo
assim não me mexi. Fiquei apenas incrédulo, a seguir a tábua, de olhar fixo.
Quando
tive certezas de que sim, que iria levar em cheio com a tábua na cabeça, era já
tarde de mais para poder escapar. Por isso, levei com ela, ficando uns escassos
segundos a balouçar na ponta do muro, até que caí para o lado da estrada. Foi
mais o aparato do que outra coisa. Não me magoei por aí além, não parti a
cabeça, apenas um pequeno galo, que de tão pequeno nem forças tinha para cantar.
Quanto
aos trolhas, que presenciavam o sucedido, riram-se à brava. Foi bem
provavelmente, para cada um deles, a melhor parte do seu dia.
Mas
o Acácio não se riu. Ficou especado por momentos, também ele incrédulo com o
sucedido, até que disse,
“Caraxo,
se lhe quisesse acertar não acertava…”
O
que me fez ver que a intenção do Acácio não tinha sido maldosa.
Acácio,
Acácio, quase que ganhas, acertas quando não queres acertar, falhas quando
queres acertar. Aqueles que diziam que eras tolinho, são em tudo tão iguais a
ti, e tu tão igual a todo o mundo.
Mesmo
assim gosto de pensar que eras apenas um louco. Quem não o é?
Nota
do autor: Todos os factos desta história são verdadeiros, mas alguns deles
foram misturados no seu contexto, na intenção de proteger o Acácio, que afinal
de contas não era Acácio nenhum, muito embora a pessoa aqui descrita tenha
existido (não faço ideia se continua viva) A intenção do texto é a de chamar a
atenção para o problema da saúde mental, de uma forma séria e divertida ao
mesmo tempo e para o respeito por quem dela sofre. Qualquer um de nós, quem
sabe, num ou noutro momento da nossa vida.
António
Magalhães
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