| BARROSO da FONTE |
Retive do discurso mais
empertigado da noite eleitoral uma frase que iludiu muitos incautos: «só
prometemos aquilo que temos a certeza que podemos cumprir». Eu que fui votar às
dez horas da manhã já esperava ouvir às 20 h essa frase bombástica que faz parte do glossário das maiores crises
políticas que o país viveu em 40 anos de democracia. Votei cedo porque ando
amargurado com aquilo que o governo actual me «roubou» e a tantos milhares que
cumprimos, pelo menos, 36 anos de função pública e que descontámos tudo o que
nos era imposto, para podermos assegurar a velhice. Puro engano! Eu – e esses
meus pares da terceira idade –sabíamos que não estava em causa o «roubo» de que
fomos vítimas. Mas sim a eleição dos nossos representantes no Parlamento
europeu. Como quem prometeu a reposição dos vencimentos nunca falou dos
problemas da Europa e como os cortes têm que ser repostos pelo governo de
Portugal, deixei-me iludir durante a campanha, ansiando pela chegada dos telejornais
para ver se o partido que anunciava uma hecatombe, teria a coragem de se
penitenciar da ruína que provocou na sociedade portuguesa. Nem assumiu os erros
desse desastre, nem foi prudente quando os primeiros resultados foram conhecidos. É certo que por um voto se ganha e por um voto se perde.
Mas quem, desde há três anos, tendo obrigação moral e política de colaborar
para a recuperação do equilíbrio
financeiro, tem feito o contrário daquilo que dele se esperaria, não teve
a humildade de reconhecer que 31,5% não é resultado que dê força
política para triunfalismos tão exacerbados.
A vitória que resultou das eleições do último
sábado, longe de dar alento aos eleitores para acreditarem nas promessas que
diariamente lhes foram feitas, mais
entristeceram quem aguardava uma vitória retumbante que permitisse alterações
políticas a nível nacional. Muitos cidadãos bem intencionados já esfregavam as
mãos de contentes, a contarem com a reposições dos «roubos» a que o actual
governo teve de recorrer para pagar os calotes.
Nenhum partido político pode cantar vitória folgada porque quem ganhou
foi a abstenção. Nunca fora tão elevada. 66,1% dos eleitores nem sequer foram
às urnas, estando um dia aprazível. Somando os votos brancos e nulos,
conclui-se que apenas 30% cumpriram o «dever cívico». Ora o partido vencedor,
se a maioria da população, tivesse confiança nele, teria recolhido votação
suficiente para uma vitória credível, necessária e oportuna. Nunca, em
democracia, um partido teve tantas facilidades para ganhar folgadamente.
Marinho Pinto foi o herói da
noite. Uma demonstração clara do papel das televisões. Augura-se a este político
um futuro risonho, ainda que tenha de esgueirar-se às manhas de quem muda
quando se entra na porta do poder.
Foram dezasseis forças políticas
a concorrer. Partidos a mais para população a menos. Os eleitores olham para os
40 anos desde a revolução dos cravos e reparam que a democracia é uma
palavra que rima com: bonomia, simpatia,
alegria, capazes de convencer os mais resistentes. Mas também repara que há
hoje mais desemprego, menos dinheiro, menos tranquilidade social, mais crimes,
mais insegurança, menos justiça e, pior saúde...
Os portugueses estão cansados de
políticos e de políticas. Apreciam mais a prática do que a teoria. Desconfiam
das promessas quando elas cheiram a falso e gostam mais de apalpar do que de
ver e ouvir. As cadeias e os tribunais
estão cheios de processos bicudos e sombrios. Uma boa parte de quem prometeu
mundos e fundos e saiu chamuscado, chamuscando quem neles acreditou.
O povo acredita mais em quem já
mostrou ser competente, sério e cumpridor. Quem
fala muito - e, às vezes bem –
mas ainda não calejou as mãos, nem conhece a dureza do trabalho, não engana
quem gastou vidas inteiras a comer o pão que o diabo amassou. A democracia é
uma palavra harmoniosa, suculenta e fácil de pronunciar. Mas também é ardilosa,
perigosa e traiçoeira.
As eleições europeias já
passaram. Os 21 deputados Portugueses já têm palco para, durante quatro anos,
esfregarem a barriga ao sol, viajando, dormindo, comendo, bebendo, gozando os 4
milhões e meio de euros por ano. Em tempo de crise o seu estatuto é uma
provocação a quem trabalhou uma vida inteira, vendo os seus direitos
subtraídos, enquanto o pai deste descalabro, usa e abusa do tempo de antena
para nos martirizar a cabeça.
Barroso da Fonte

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