| Barroso da Fonte |
Eu nunca soube estar parado. Mas respeito quem descansa.
Cristo assim o quis quando criou o Domingo. E os políticos, sempre mais
generosos do que a própria moral, criaram os feriados, para conquistarem a
simpatia dos eleitores. É por essas e por outras que os políticos nunca se
entenderam. Daí que o ditado defina «as promessas dos políticos são como os
anos bissextos: mudam de quatro em quatro anos».
Estamos em pré-campanha para as Europeias. Uma soberana
ocasião para testar estes provérbios populares. Basta ligar qualquer canal
televisivo. Aqueles que hoje prometem acabar com os sem-abrigo, com o
desemprego e com a fome vão endurecer a voz, o gesto e os clamores. Aqueles que
geraram a dívida, que não querem pagá-la e que prometem devolver as reformas e
os dinheiros aos trabalhadores, já esfregam as mãos de contentamento. Todos
ansiamos o mesmo. Como chegar lá?
«Conhecem aquele tipo de beatas ou ratas de sacristia,
essas matronas que se apoderam das igrejas católicas, mudam as dálias do altar,
barricam o acesso aos padres e lhes engomam os paramentos em êxtases ambíguos,
destratando os humildes e adiantando-se nas naves para serem as primeiras a
comungar, de olhos em alvo e estendendo, papudas, as mãos à hóstia? Essas,
precisamente! E sabem por que motivo me enervam mais do que qualquer pecador cristão?
É simples: porque não pecam na casa delas, mas na de Jesus.
Ora bem. É seguindo a mesma lógica que certos socialistas me revoltam mais do
que qualquer burguesia exploradora, pelas mentiras, falcatruas e conspiratas
que fazem, servindo-se dos clichês humanistas para depois se borrifarem nos
pobres, aburguesando-se num crescendo assustador e apoderando-se, um a um, de
todos os confortos dos ricos ou do que entendem por «alta sociedade»: o carrito
de luxo, a casita com piscina, a contita na Suiça - tudo ambições humanas, mas
anãs.
Ao contrário, a Direita, sendo egoísta, comodista, diletante, individualista -
tudo o que quiserem, reconheço - ao menos não mistifica as suas prioridades!
Em suma: não há partidos, há pessoas, e a ambição é comum às duas margens, já o
sabemos. Mas a de alguns socialistas é tão execravelmente hipócrita que acaba
por enojar quem, como eu, neta de salazaristas, foi tão pronto a entender a
bênção da democracia que chegou a dar-lhes, penitente e escrupuloso, o
benefício da dúvida.
O exemplo começou com o mais emblemático dos paladinos da liberdade e da
justiça: El Rei Dom Mário Soares e os seus sucessivos citroëns de luxo,
personalizados como um monograma, os tailleurs Chanel da Maria Barroso,
talhados no Ayer, e as suas casinhas na cidade, serra e praia, para se
aquecerem ou refrescarem consoante as estações do ano - e, finalmente, até uma
Fundação para se distraírem na reforma; décadas depois, a coisa refinou: temos
o Sócrates a vestir-se por estilistas da Rodeo Drive de Los Angeles, a
ministrada anti-fascista a rolar em séries 5, e os quadros estratégicos das
empresas públicas a ganharem salários que nem os banqueiros ganham - mete nojo!
(Atenção: escreve-vos a sobrinha de um Director Geral do Turismo, casado e com cinco filhos, de rendimento
modestíssimo, que, em Abril de 74, foi enjaulado em Caxias como um vulgar
delinquente por alegado crime de peculato, por gastar - segundo a grelha da
(in)Justiça Revolucionária - «demasiada água do Luso»! Miseráveis: não lhe
arranjaram mais nada! E agora digam-me: visitar um tio na prisão por servir
garrafas de água, nas funções representativas que ocupava, e ter de encará-lo
atrás das grades prostrado pela desonra, para agora ver esta maltosa arrivista
em lugares-chave, alguns deles profundamente desconhecedores de maneiras ou
protocolo, a jantarem no Eleven e a regarem-se a Chivas?)
Palavra de honra: antes os políticos comunistas e bloquistas ? autistas no seu
radicalismo anacrónico e obviamente perigosos num cenário de poder ? mas,
apesar de tudo, com outra face, outra decência, outra coerência doutrinária! E
digo-vos mais: nem deveria ser gente como eu, apenas crítica ou sangrando sobre
os escombros de uma pátria pilhada e demolida, a revoltar-se, mas os próprios
socialistas, honestos e convictos da consistência da sua ideologia, a
demarcarem-se, exigindo o afastamento de quem tão gravemente os embaraça,
compromete e, por associação, os arrasta para este lodo de troça e de
descrédito! E só digo mais isto: coitados dos militares de Abril, analfabetos,
que alinharam: foram usados! Cravos, sim, mas para pregarem nas mãos
desses!»
Atenção: não
confundir esta Rita Ferro com outra outra do mesmo nome.
Barroso da Fonte
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