segunda-feira, 21 de abril de 2014

Virgilio Gomes - A Última Ceia



Virgilio Gomes
Fui convidado, recentemente para participar num programa do canal História sobre a Última Ceia. O que parecia fácil transformou-se numa tarefa complexa. Interpretar os textos bíblicos não é tarefa que se deva levar de ânimo leve. E especialmente quando se presente ser isento em questões relacionadas com as convicções e com a fé. Depois de estudar cuidadosamente os Evangelhos de S. Mateus, S. Marcos e S. Lucas, e ainda a Epístola ao Coríntios, fiquei ainda mais perplexo. As citações em relação aos produtos alimentares são muito escassas, e para além do pão e vinho, apenas o cordeiro surge como elemento fundamental da celebração do judeus mas não referido especificamente como constituindo parte da Última Ceia. Há, no entanto, no Evangelho de S. Mateus uma citação de Jesus que diz que foi atraiçoado por”…aquele que molhou o pão juntamente comigo…” que nos leva a pensar que haveria um molho que, possivelmente, seria o da preparação do cordeiro. A mesma citação surge no Evangelho de S. Marcos. Certo é que havia uma tradição dos judeus de celebrarem a Páscoa com uma Ceia. Era um período de sete dias que se iniciava com a tradição dos pães sem fermento. S. Lucas danos as palavras de Jesus que desejou “…ardentemente convosco esta Páscoa, antes de morrer. Pois afirmo-vos que não voltarei a comê-la até que ela receba o seu significado completo no Reino de Deus.” Para além destas informações, a consulta obrigatória de fontes pictóricas revelou-se ainda mais despojada do que os textos apesar de apresentarem, alguns, a representação de peixes talvez por que o peixe era um símbolo de reconhecimento no encontro de cristãos durante as perseguições romanas.
Última Ceia de creta
Importantes na Última Ceia são os simbolismos dos produtos pão e vinho, e todo o conceito de refeição associado à partilha, o momento de traição, e de partida com a esperança do Além. Em toda a Bíblia os elementos alimentares são alvos de referência e muitas vezes para a criação de parábolas de mensagem. Da linguagem alimentar do quotidiano é mais simples passar à linguagem intemporal e do espírito. Por outro lado os alimentos sempre fizeram parte de doações ou entregas a Deus ou aos Deuses. Esta prática é usada em várias religiões e em particular nas africanas e afro-brasileiras. As oferendas de alimentos são uma das fórmulas de comunicar com as entidades sobrenaturais.
E a propósito apetece-me transcrever parte de um texto do Padre José Tolentino de Mendonça, no livro A Bíblia contada pelos Sabores, no qual afirma: “A mesa é uma espécie de fronteira simbólica que testemunha, para lá das diferenças, uma possibilidade de comunhão.” E ainda: “A mesa e a refeição tornam-se por excelência o sítio da universalidade e da utopia cristãs.” Continuando com o mesmo autor: “As refeições são para Jesus sobretudo atos performativos, onde ele explica o seu projeto, colocando os que não podem estar juntos à volta da mesma mesa, preparando uma refeição igualitária para a multidão díspar de homens e mulheres.” Assim a Última Ceia é por excelência um ato com várias mensagens e carregada de simbolismos, na qual os alimentos ou a composição da refeição funcionam como instrumentos para uma fórmula mais espiritual.
Nesta perspetiva, o canal História quis também desafiar dois chefes de cozinha contemporânea para criar uma ceia inspirada na Última Ceia de Jesus Cristo. Hoje vou apresentar-vos a proposta de Miguel Laffan, com mensagem escolhidas da Bíblia, do extraordinário restaurante L’ AND em Montemor:


Há sempre bons motivos para celebrar à mesa:

http://www.virgiliogomes.com/index.php/cronicas/584-a-ultima-ceia


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