segunda-feira, 14 de abril de 2014

Jorge Lage - FÉRIRAS EM PORTO SANTO



Jorge Lage
Ao marcar férias para Porto Santo fi-lo com algum receio, em parte porque pensei: - se o mosquito Deng está na ilha da Madeira, também pode estar ali ao lado.
Por sua vez, notícias anteriores davam conta de pragas de ratos nesta ilha e estes roedores são, para mim, os bichos mais detestáveis. Ao vê-los sou imprevisível e ninguém se atreva a provocar-me, porque a reacção é irracional.
Além disso, detesto o tempo de praia, à beira mar, com muita gente. Preferia passá-los no campo, onde me corre o sangue das veias da alma.
Lá se passaram os últimos doze dias de Agosto nesta ilha, quase a cheirar a Norte de África. O tempo foi melhor para mim e pior para a minha mulher, porque em metade dos dias não houve sol.
A ideia que tinha de Porto Santo era de uma ilha muito pequena. Mas os seus 42 km2 dão-lhe uma dimensão confortável. Os nove quilómetros de praia de areia branca voltados a sul, embora pouco limpos, são uma dádiva divina. No período invernal o mar retira muita da areia dourada, substituindo-a pela negra de origem vulcânica e no veraneio reaparece.
É uma ilha de clima ameno e bastante acidentada, sendo o Pico do Facho (516 m), a norte, o ponto mais elevado e a sul o pico de Ana Ferreira fica-se por metade daquele.
A contrastar com a água muita límpida, as barracas e casebres foram construídos quase em cima do mar, desde a pequena cidade Vila Baleira até ao Porto de Abrigo e Marina, merecendo uma reclassificação.
Dei a volta à ilha e não vi um único barco de pesca, grande ou pequeno. Outrora a ilha tinha muita fruta tropical e hoje fica-se por escassos milhares de cepas, poucas figueiras, a tabaibeira (cacto endémico) e pouco mais. Até os quintais das casas são pouco aproveitados. Os porto-santenses foram bons alunos de Cavaco Silva, quando este pagava aos agricultores e pescadores para não trabalharem. Uma brutalidade para um país pobre.
Assim, o peixe que se come é quase todo congelado e fraco. Pelo menos na confecção e frescura. E a carne de vaca é congelada e ordinária, vinda da Argentina e Brasil, e com a excelente dos Açores tão perto. Não descobri onde comer um pedaço de piza fresca.
A Casa de Colombo é uma boa estrutura museológica a merecer uma visita e lá ficamos a saber que estas ilhas atlânticas apenas foram povoadas, porque antes já eram conhecidas. Sabemos que outrora o trigo e a cevada eram excelentes. A cevada vinha para o continente para alimentar os cavalos. Ali, vi um assador de castanhas e um alguidar para os cuscos.
Na Biblioteca Municipal fiz alguma pesquisa sobre a castanha do arquipélago da Madeira.
Uma ilha tem que ter festas e a Senhora Graça e da Piedade em Agosto, são as maiores. Ali, soube que a Câmara será usurária, até para as festas de beneficência cobra avultadas somas em licenças.
As festas são consideradas boas quando juntam muitos forasteiros e a das vindimas aproveita os turistas da última quinzena de Agosto. Foi enriquecida com um bom festival internacional de folclore. Por um grupo etnográfico espanhol soube que o fandango que se dança no sul de Espanha é uma dádiva da portuguesa cultura oliventina.
Olivença que nós não colocamos na agenda da nossa soberania, aproveitando a própria boleia espanhola sobre Gibraltar. Enquanto Gibraltar foi cedida aos ingleses, Olivença foi-nos usurpada e podia-se arranjar uma figura jurídica especial para aquele território luso surripiado por Castela.
Voltando a Porto Santo, nas festas das vindimas ainda apreciei os bons licores de vinho, de uva e de moscatel. O vinho porto-santense está a precisar de um bom enólogo que apoie as pequenas produções.
Os melhores locais para tomar uma refeição são, pela ordem de preferência, João do Cabeço (a caminho da Calheta), Porto dos Frades (junto ao Porto da Cal), Casa da Avó (junto ao Campo de Golfe) e o do Campo de Golfe. Este com vista deslumbrante e ambiente acolhedor. Para petiscar, na cidade, o Golfinho, em cima da praia, será o melhor.
O Campo de Golf de Porto Santo, a sudoeste da ilha, é uma estrutura que nos parece exagerada e que ambiciona ter 500 golfistas em simultâneo. Só que os seus custos ambientais são enormes, canalizando grande parte da água da ilha, mesmo a saída do tratamento de esgotos. Sobre as reservas de água, o município deveria apostar mais em pequenas barragens que retivessem muita mais água pluvial. A maior vítima do Campo de Golf terão sido os coelhos. Pura e simplesmente, foram dizimados e deixou de haver coelhos, que antes eram uma praga.
Outros locais como a Quinta das Palmeiras, a aprazível Calheta, a Camacha, a pedreira de rochas hexagonais, o Pico do Castelo, a Estação Agrária do Farrobo, o Porto da Cal ou o Porto de Mar merecem uma visita. Por isso, programe uma ida a Porto Santo e à Madeira, porque vai valer a pena.

Jorge Lagejorgelage@portugalmail.com– 20SET2013


 

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