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| Jorge Lage |
Ao marcar férias para Porto Santo
fi-lo com algum receio, em parte porque pensei: - se o mosquito Deng está na
ilha da Madeira, também pode estar ali ao lado.
Por sua vez, notícias anteriores
davam conta de pragas de ratos nesta ilha e estes roedores são, para mim, os
bichos mais detestáveis. Ao vê-los sou imprevisível e ninguém se atreva a
provocar-me, porque a reacção é irracional.
Além disso, detesto o tempo de
praia, à beira mar, com muita gente. Preferia passá-los no campo, onde me corre
o sangue das veias da alma.
Lá se passaram os últimos doze
dias de Agosto nesta ilha, quase a cheirar a Norte de África. O tempo foi
melhor para mim e pior para a minha mulher, porque em metade dos dias não houve
sol.
A ideia que tinha de Porto Santo
era de uma ilha muito pequena. Mas os seus 42 km2 dão-lhe uma dimensão
confortável. Os nove quilómetros de praia de areia branca voltados a sul,
embora pouco limpos, são uma dádiva divina. No período invernal o mar retira
muita da areia dourada, substituindo-a pela negra de origem vulcânica e no
veraneio reaparece.
É uma ilha de clima ameno e
bastante acidentada, sendo o Pico do Facho (516 m), a norte, o ponto mais
elevado e a sul o pico de Ana Ferreira fica-se por metade daquele.
A contrastar com a água muita
límpida, as barracas e casebres foram construídos quase em cima do mar, desde a
pequena cidade Vila Baleira até ao Porto de Abrigo e Marina, merecendo uma
reclassificação.
Dei a volta à ilha e não vi um
único barco de pesca, grande ou pequeno. Outrora a ilha tinha muita fruta
tropical e hoje fica-se por escassos milhares de cepas, poucas figueiras, a
tabaibeira (cacto endémico) e pouco mais. Até os quintais das casas são pouco
aproveitados. Os porto-santenses foram bons alunos de Cavaco Silva, quando este
pagava aos agricultores e pescadores para não trabalharem. Uma brutalidade para
um país pobre.
Assim, o peixe que se come é quase
todo congelado e fraco. Pelo menos na confecção e frescura. E a carne de vaca é
congelada e ordinária, vinda da Argentina e Brasil, e com a excelente dos
Açores tão perto. Não descobri onde comer um pedaço de piza fresca.
A Casa de Colombo é uma boa
estrutura museológica a merecer uma visita e lá ficamos a saber que estas ilhas
atlânticas apenas foram povoadas, porque antes já eram conhecidas. Sabemos que
outrora o trigo e a cevada eram excelentes. A cevada vinha para o continente
para alimentar os cavalos. Ali, vi um assador de castanhas e um alguidar para
os cuscos.
Na Biblioteca Municipal fiz alguma
pesquisa sobre a castanha do arquipélago da Madeira.
Uma ilha tem que ter festas e a
Senhora Graça e da Piedade em Agosto, são as maiores. Ali, soube que a Câmara
será usurária, até para as festas de beneficência cobra avultadas somas em
licenças.
As festas são consideradas boas
quando juntam muitos forasteiros e a das vindimas aproveita os turistas da
última quinzena de Agosto. Foi enriquecida com um bom festival internacional de
folclore. Por um grupo etnográfico espanhol soube que o fandango que se dança
no sul de Espanha é uma dádiva da portuguesa cultura oliventina.
Olivença que nós não colocamos na
agenda da nossa soberania, aproveitando a própria boleia espanhola sobre
Gibraltar. Enquanto Gibraltar foi cedida aos ingleses, Olivença foi-nos
usurpada e podia-se arranjar uma figura jurídica especial para aquele
território luso surripiado por Castela.
Voltando a Porto Santo, nas festas
das vindimas ainda apreciei os bons licores de vinho, de uva e de moscatel. O
vinho porto-santense está a precisar de um bom enólogo que apoie as pequenas
produções.
Os melhores locais para tomar uma
refeição são, pela ordem de preferência, João do Cabeço (a caminho da Calheta),
Porto dos Frades (junto ao Porto da Cal), Casa da Avó (junto ao Campo de Golfe)
e o do Campo de Golfe. Este com vista deslumbrante e ambiente acolhedor. Para
petiscar, na cidade, o Golfinho, em cima da praia, será o melhor.
O Campo de Golf de Porto Santo, a
sudoeste da ilha, é uma estrutura que nos parece exagerada e que ambiciona ter
500 golfistas em simultâneo. Só que os seus custos ambientais são enormes,
canalizando grande parte da água da ilha, mesmo a saída do tratamento de
esgotos. Sobre as reservas de água, o município deveria apostar mais em
pequenas barragens que retivessem muita mais água pluvial. A maior vítima do
Campo de Golf terão sido os coelhos. Pura e simplesmente, foram dizimados e
deixou de haver coelhos, que antes eram uma praga.
Outros locais como a Quinta das
Palmeiras, a aprazível Calheta, a Camacha, a pedreira de rochas hexagonais, o
Pico do Castelo, a Estação Agrária do Farrobo, o Porto da Cal ou o Porto de Mar
merecem uma visita. Por isso, programe uma ida a Porto Santo e à Madeira,
porque vai valer a pena.
Jorge Lage – jorgelage@portugalmail.com– 20SET2013


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