sábado, 12 de abril de 2014

Gente angolana de Maria João Sacagami



                                                       Acácias Rubras - BENGUELA

Nenhum de nós esquece, não é mesmo gente angolana?
 Nascemos e crescemos num continente e em um país de cheiros, entregas, sabores, sóis e sentires tão sui generis.
 Não saímos porque queríamos, porque fomos em busca de coisas melhores, porque decidimos que tinha chegado a hora. Saímos porque nos empurraram porta fora, porque puseram em risco a nossa vida e a dos nossos amados. Na flor da idade, quando sonhávamos com crescimento, com maturidade nesses mesmos campos e chãos. Saímos sem saber que não iríamos voltar.
Cada um de nós espalhado pelo mundo, e bem ou mal recebidos em vários lugares, vários países. Alguns desses países mais parecidos com o que deixamos. Mas não era o mesmo. Não é o mesmo. Aprendemos novas receitas, mas ainda é o funge e a moambada, o calulu e o feijão com óleo de palma, a kizaka e o muzongué, a paracuca e o mufete que nos faz salivar. Aprendemos outros ritmos, mas é o merengue que nos faz sacudir os matacos e sair balançando onde quer que estejamos.
 Seguimos agradecendo porque nos fortalecemos todos os dias. Porque o não pertencer nos deixa mais prontos para cada dia e cada anoitecer. Seguimos amando porque essa é a nossa natureza. Seguimos sorrindo porque esse é o nosso jeito, a nossa raiz.
 Não somos saudosistas. Mas perdemos as raízes externas e são as nossas memórias que nos mantêm ligados às raízes de coração.
 Quem é angolano sabe. E sente. Todos os dias.
 E são as poesias, as imagens, o encontro e a troca que nos alimentam. Sempre.
Que N' Zambi nos proteja todos os dias. Que cada um de nós tenha alguém a quem desejar Mungu'eno até o último dia. Que tenhamos muitos encontros. E que nos desencontros, possamos nos achar.
Kamba diame dia Muxima, tza'kidila. Axiluanda ou não, kota ou kandengue, repartimos o m'bolo da nossa caminhada.
 Kiene! Kuia bwé ser angolano. Para sempre e sempre.

 Maria Joao Sacagami


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