Uma
greve grave
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| Carlos Fiolhais - Professor Catedrático de Física na Universidade de Coimbra |
Certas
greves são usadas como feitiços e, nesse caso, os dirigentes sindicais
portam-se como feiticeiros. Os dirigentes dos sindicatos dos professores estão
a usar a greve como feitiços para esconjurar ameaças à “classe docente”. Mas
pode bem ser que o feitiço se vire contra os feiticeiros.
(…)
Uma
greve aos exames nacionais feita por professores já é grave, pois os alunos não
podem escolher outro sistema de exames e correm o risco de, com a continuação
da greve e o fim do ano lectivo, perderem o ano. Na prática poderá ser uma
retenção geral dos estudantes envolvidos.
Ao
contrário das eleições autárquicas não parece haver limitação de mandatos nas
eleições sindicais, pelo que os feiticeiros são sempre os mesmos. Mantêm-se nas
direcções autênticos “dinossauros”, que não se lembram do que é uma aula ou uma
avaliação.
(…)
Para
eles, os exames são evitáveis. O que interessa são as “competências”, o
“aprender a aprender”, o “menos é mais” e todo o palavreado oco que repetem. O
que os move é, para além da perpetuação nos seus cargos, que os isentam de
aulas, a ideologia uniformizadora e facilitista que ignora o mérito e, claro, o
combate político pela supremacia das suas cores partidárias. Em boa verdade,
não querem saber dos professores e muito menos dos alunos.
Desta
vez não encontraram outro modo de protestar do que uma greve aos exames, que
sabem trazer prejuízos directos, quiçá irreversíveis, às crianças e jovens.
(…)
Quaisquer que sejam as razões que invoquem, não se trata de valorizar os
professores, mas sim de os diminuir perante os alunos e a sociedade. Ao dizerem
que na educação não há e não deve haver serviços mínimos, estão objectivamente
a desprezar o valor da educação de que eles deviam ser defensores.
(…)
a presente greve dos professores aos exames, da responsabilidade de dirigentes
sindicais irresponsáveis, penaliza a escola pública em favor da privada e
penaliza sobretudo menores de idade, que não têm direito a voto.
(…)
a profissão de professor é uma das mais nobres por ser portadora de futuro. Não
acredito que os professores queiram prejudicar a vida dos seus alunos em
circunstância alguma.
(…)
Admito
que haja professores de boa fé a querer fazer greve aos exames, mas não
conseguem escapar às manipulações dos feiticeiros.
Há
males que vêm por bem. Pode ser que, cumprindo-se o ditado sobre o feitiço,
surja uma Ordem dos Professores que valorize os princípios de ética
profissional mais do que os sindicatos. Não será difícil.
Carlos
Fiolhais (jornal Público, 12 de Junho de 2013)
Este
texto foi-nos enviado via internet por José Manuel. Conforme o recebemos, assim
o publicamos.
Já agora, para quem se interessa por estes assuntos, aconselha-se a leitura do artigo de José Manuel Fernandes, publicado no jornal Público de hoje (dia 14 de Junho), p.44.


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