segunda-feira, 1 de abril de 2013

Silva Peneda e a invidia do ministro das Finanças alemão

Silva Peneda


Wolfgang Schäubl
Silva Peneda publicou uma carta aberta ao ministro das Finanças alemão, no jornal Público (28 de Março, XIII). Onde criticava as suas declarações sobre a invidia dos países. É claro que Silva Peneda tem razão em muito do que escreveu, mas também sabe que o ministro alemão tem alguma razão no que respeita à invidia. O que custa é ouvir a verdade. E Silva Peneda sabe disso porque pertenceu a uma governação que tentou e conseguiu (na Administração Pública portuguesa) numa percentagem relevante combater a invidia. A governação do então Primeiro-ministro Cavaco Silva. Queiram ou não queiram os seus adversários. Um momento de democracia quase plena. Assim como o período de António Guterres em certas nuances.
O então Primeiro-ministro,
Aníbal Cavaco Silva
Com efeito, o projecto europeu, em teoria, foi o que melhor se fez na História da Humanidade, no campo das ideias, do espírito. Mas só foi possível porque havia interesse prático da América. O resto, são fantasias que estamos a pagar muito caro.
Mas Silva Peneda é da geração de políticos que tudo fizeram para a integração europeia. Não o deviam ter feito a todo o custo (que agora estamos a pagar), mas fizeram. Que depois se fariam os ajustamentos, diziam e argumentavam nas televisões e nos jornais. E estão a ser feitos, mas a um custo terrível para o povo. Se fossem ajustamentos normais, tudo estaria bem. Mas não foram, porque a sua causa está nas vigarices, principalmente bancárias. A este propósito aconselha-se a leitura de Krugman.
Quanto à invidia que a geração de Silva Peneda combateu com grande sucesso, e que a governação do “comentador de Paris”, de novo, implantou, respigamos passagem de trabalho que estávamos a realizar sobre o tema:


“Os temas da rivalidade, do ciúme ou da invidia são tão antigos como a raiva de Saul perante a ascensão de David e os escárnios escarrados por Tersites em Homero. É no ciúme fraternal que assentam os alicerces da Roma Antiga. E os moralistas dos séculos XVII e XVIII que prestaram uma particular atenção à invidia, foram, em muito, antecedidos por Montaigne e, em muito mais por Juvenal e Marcial, ou mesmo Eurípides.
A invidia é característica da própria natureza humana. O mais pérfido dos sentimentos no que respeita ao bem geral (ao bem comum). Porque é ela a causadora da perda de vitalidade, de energia daqueles que vão para lá da mediocridade: os criativos. Isto é observável a nível das nações, mas, sobretudo, a nível das instituições: escolas, repartições, etc.
É a invidia que distorce a comunidade moral; que a corrompe. O aldrabão que se desembaraça dos colaboradores honestos e eficientes, por meios trapaceiros assim que adquire poder; o medíocre, vingativo e rancoroso que é colocado em posições superiores às suas capacidades (ou seja, colocado no lugar errado), que participa na “cruzada obscura dos incapazes” contra os melhores, hostilizando-os, impedindo-os e obstruindo-lhes o trabalho sério; O medíocre que apenas procura autoridade, que dificulta, que avança com objecções, retarda processos (administrativos nas instituições), adia decisões. Ou seja, aquele tipo de sabotagem que todos os burocratas, os funcionários bem conhecem; que destroem em vez de construírem. Que transformam as instituições em lugares de delação e mentira. Uma multidão de facínoras.
Se em tempos do passado os medíocres alcançavam os seus objectivos com o terror, a intimidação, nas sociedades modernas, distribuem dinheiro e privilégios; corrompem.
Enquanto isso, os funcionários decentes que poderiam fazer progredir as instituições, sobretudo os mais preparados e qualificados, são mantidos na ignorância das decisões mais importantes, humilhados e ameaçados com frequência.
Só as leis justas permitem que a inveja seja reduzida a uma dimensão que não cause malefícios aos indivíduos e às sociedades. E permitem aos indivíduos justos, equânimes e imparciais, desenvolver um trabalho criativo (livre), colocados a dirigir as instituições para distribuírem os recursos com equilíbrio, onde não haja indivíduos favorecidos e outros aonde lhes falta o essencial”.

É na Administração pública que está o cancro do País. Ou se faz uma reforma profunda neste sector, ou o país nunca mais se levanta.
É claro que só indivíduos com estatura moral, despegados do “poder pelo poder”, visionários, com pujança criativa, objectivos colectivos, defensores dos direitos e oportunidades iguais, terão a força necessária para mudar, para reformar uma sociedade arreigada a estas maquinações maléficas e destrutivas.

De Gaulle, Garibaldi e Cincinato

Poderíamos dar numerosos exemplos. Ficamo-nos por três: dois da Modernidade e um da Antiguidade. A sua acção marcou os seus contemporâneos e suscitou neles admiração.
De Gaulle ao aperceber-se que não conseguiria realizar o seu sonho, deixou o palácio do Eliseu, retirando-se para a sua casa Colombey-Les-Deux-Églises, onde havia nascido pobre e morreu pobre, depois de salvar a sua pátria por duas vezes; Garibaldi, um republicano, que depois de conquistar um reino, o deu a Vítor Manuel de Sabóia, um monárquico, por amor à Itália; finalmente, outro majestoso comportamento teve-o Cincinato. Numa altura de aflição, Roma e os seus senadores foram-no chamar a um pequeno campo onde este lavrava e nomearam-no ditador. Aceitou e venceu a guerra. Logo a seguir deixou o poder e voltou para acabar o trabalho que havia interrompido.
Armando Palavras

Nota:
Duas obras fundamentais que analisam este sentimento destrutivo são a Apologia de Sócrates (escrita por Platão em defesa do mestre) e Os Sete pecados capitais de São Tomás de Aquino.


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