domingo, 8 de outubro de 2023

MEMÓRIAS DAS MINAS DA BORRALHA

                               

Embora a exploração dos minerais tivesse começado antes, foi em 1903 que o Estado Português lhe concedeu concessão, aliás a primeira concedida a uma empresa mineira, que salvo erro era Belga.

Teve a sua grande evolução durante a guerra de 1938-1944, ano em que foi encerrada por decreto do governo, durante dois anos.

Nessa altura trabalhavam aqui milhares de pessoas e viviam centenas de famílias.

Reabriu em 1946 e depois passou por crises laborais, com várias paragens e retomas, tal como entre 1958 e1962, onde chegou a haver aqui estrema necessidade.

Tinha além da Lavaria Nova, onde se procedia à lavagem e primeira escolha dos diversos materiais vindos da mina; na chamada Lavaria Velha, que funcionava como afinagem, eram moídos e novamente lavados e separados os minerais.


Os “apanhistas”, eram assim chamados aqueles que possuíam autorização para explorar dentro da concessão, à condição de venderem à empresa o produto explorado, facto que era minimamente cumprido, pois no mercado negro o volfrâmio, pagava-se mais caro do que aqui separado. Em 1948, passou a ter a central da Mesa do Galo, que produzia a energia eléctrica necessária para a elaboração da empresa, e uma moderna fundição, mais sofisticada do país, e única onde o volfrâmio era transformado em Tungsténio, para ser exportado em barris, creio que a Alemanha era o seu principal destino.

A sua paragem definitiva aconteceu em fevereiro de 1986, continuando ainda a funcionar durante mais um ano como manutenção subsidiada pelo Estado.

O volfrâmio perdeu a sua cotação no mercado, os sindicatos que sempre procuraram viver à custa da empresa, não produzindo e impedindo a produção, abreviaram o seu encerramento.

Em 1992, foi vendida em hasta pública, quase em segredo para cobrir dívidas às finanças e à Segurança Social.

A Câmara de Montalegre deixou perder um património considerável, na época a única indústria existente no Concelho.

Ninguém fez nada para a reconversão da empresa que com os resíduos existentes era possível conservar talvez meia centena de empregos, com as areias podiam ter fundado uma fábrica de blocos, manilhas, vigas e postes, que seriam a garantia de sobrevivência de algumas famílias, o que constituía uma mais-valia numa terra onde não existe mais nada.


A esta terra isolada, só pelos anos 1950, chegou o progresso e a civilização; o Bispo de Vila real colocou aqui como capelão das Minas da Borralha, o Rev. Padre João Adelino Alves Ferreira, fundador da Igreja e da Escola Profissional, anos 1955-1956, o que muito contribui para engrandecer a prosperidade destas terras, digo destas, porque não só de Salto, como das vizinhas freguesias da Venda Nova, Campos e Ruivães, assim como de várias aldeias do concelho de Montalegre, também beneficiaram muitos alunos, porque não havia mais nada, a não ser em Montalegre, Vieira do Minho e Cabeceiras de Basto, ou Braga.

Aqui fizeram os seus estudos secundários, os primeiros Doutores e Engenheiros daqui, assim como muitos profissionais capacitados em vários ramos que, não teriam oportunidade de o fazer se esta escola não existisse. Eu que nunca trabalhei nas Minas da Borralha, nem frequentei a dita escola, porque ela não existia no meu tempo de estudo, rendo a minha sincera homenagem e admiração a esse homem; é de pessoas assim que precisa a nossa degradada sociedade.

Hoje quando passo na Borralha, sinto uma profunda tristeza e tenho saudades do movimento e da riqueza dos seus tempos áureos.

As famílias dispersaram-se e a história da Borralha, cairá no esquecimento e na ignorância dos vindouros.

Todos os que me conhecem, sabem que não gosto de falar do que não conheço, a história da Borralha, é merecedora de ser memorizada em livro.

As brechas abertas no terreno estão quase tapadas, e as escombreiras cobertas de vegetação, muitas casas alagadas, brevemente não haverá vestígios dignos de registo da grandiosidade desta exploração mineira que durou quase 100 anos.

 

                                                                                        Júlio F. Vaz de Barros

1 comentário:

  1. Há um grande livro sobre as Minas da Borralha, que dá para fazermos ideia aproximada do que era aquela vida - " A Fárria" do Escritor barrosão Bento da Cruz. Um livro que vale a pena!

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