No fundo, a nossa extrema-esquerda faz hoje aos ucranianos o que faz connosco desde 1974: inventariar e denunciar nazis, que por regra são todos os sujeitos que não alinham na extrema-esquerda.
07 Mai 2022, Observador Alberto Gonçalves
De resto, a percentagem de
nazismo é irrelevante. Ainda que houvesse uma única “t-shirt” de Goebbels em
Donetsk, a invasão estaria plenamente justificada. À luz do direito
internacional, versão revista e anotada por Mariana Mortágua, é perfeitamente
legítimo que uma ditadura liderada por um ex-agente do KGB procure resgatar,
através dos respectivos bombardeamentos e chacinas, cada povo que o ex-agente
do KGB considera em risco de cedência ao jugo hitleriano. A Ucrânia, que quando
acabar de enterrar os mortos saberá agradecer a ajuda, foi apenas o primeiro.
Talvez se siga a Suécia, onde o Kremlin já detectou três proto-nazis: a
criadora da Pipi das Meias Altas, o fundador do Ikea e o cineasta Ingmar
Bergman. Com jeito, se vasculharem fotografias de Estocolmo, arranjam mais um ou
dois, e desta vez vivos. Os suecos têm razões para andar receosos. E os
portugueses têm razões para entrar em pânico – ou em êxtase, depende da
perspectiva.
É um facto amplamente
demonstrado que Portugal não há três nazis. Nem uma dúzia. Nem sete mil. Há
quase meio século que a extrema-esquerda, algum PS incluído, fareja por cá
quantidades incomensuráveis de indivíduos pertencentes a essa sub-espécie. Por
educação ou cortesia, pode chamar-lhes “fascistas”, “capitalistas”,
“imperialistas”, “colonialistas”, “neo-liberais” ou “bandalhos de
extrema-direita”. Mas que ninguém se engane: trata-se de nazis, resmas de
nazis, magotes de nazis a fervilhar, quais larvas, do Minho aos Algarves. Até
agora, julgo que só a distância impedia que o sr. Putin nos salvasse. Agora,
com a tecnologia “hipersónica” que tanto excita os generais na televisão, nada
impede.
No fundo, a nossa
extrema-esquerda faz hoje aos ucranianos o que faz connosco desde 1974:
inventariar e denunciar nazis, que por regra são todos os sujeitos que não
alinham na extrema-esquerda. E a nossa extrema-esquerda sonha desde 1974 que
alguém faça connosco o que o sr. Putin faz hoje aos ucranianos. Por curiosa
coincidência, o ódio às democracias, a desumanização do inimigo e o apetite de
aniquilação são o que define os nazis que não temos e os comunistas, de seitas
sortidas, que temos de sobra. Durante 48 anos, deixámos que os comunistas
criassem as regras do jogo e o jogassem à vontade. Jamais suspeitámos o
resultado do jogo caso eles o ganhassem. Espero que a invasão da Ucrânia nos
tenha dado uma ideia.




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