segunda-feira, 21 de fevereiro de 2022

O Alex

 

Mário Adão Magalhães

Jornalista

https://bomdia.lu/



Foi revelado há dias que 61% dos portugueses não leram um só livro no último ano.

O inquérito foi conduzido pela Fundação Gulbenkian e pelo Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa, e revela um país refém de ordenados baixos e de fortes desigualdades sociais e educacionais no que toca ao acesso à cultura, diz o Expresso.

A propósito desse estudo dado à estampa pela comunicação social, sobre a literacia e iliteracia dos portugueses, não posso calar:

Há tempo aparece-me um antigo colega da escola primária, para o ajudar num processo de "RVCC Escolar que permite reconhecer, validar e certificar as competências adquiridas ao longo da vida com vista à obtenção de uma Certificação Escolar de nível básico ou secundário", para obter um trabalho importantíssimo - ainda que muito humilde sob o ponto de vista e de apreciação de muitos: coveiro num cemitério.

O rapaz não sabia pegar na esferográfica e na vida nunca tinha lido um jornal. Nem um jornal de desporto, perguntei-lhe eu a ver se vingava, confessa-me ele ante a minha terrífica incredulidade.

E eu pensei. Pensei muito: como é que aquele rapaz, havendo sido meu colega de escola, presente nas mesmas aulas, nos mesmos minutos, nos mesmos segundos, no mesmo tempo, ali, naquela sala da escola primária, naquele tempo! não aprendera o mínimo, o básico!

E eu pensei. Pensei muito. E não soube, não sei elaborar a escrita para definir tão relevante paradoxo.

Eu, eu que quase não tenho feito mais nada - sem qualidade - é certo, ao longo da minha vida que não sei escrever.

Há alguém que deve olhar isto com olhos de ver.

 

Mário Adão Magalhães

2022/02/19


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