domingo, 11 de abril de 2021

O 25 de Abril. Onde e como eu o Vivi (5)

 
https://tempocaminhado.blogspot.com/2021/04/o-25-de-abril-onde-e-como-eu-o-vivi-4.html

Reflexões JBM_ABRIL_2021

 J. Barreiros Martins Prof. Cat. Emérito Jubilado da Univ do Minho



O 25 de Abril também teve graves consequências para mim e minha Família:

No dia do acontecimento eu estava em LMarques (Moçambique) Eu dava aulas na Universidade de LMarques e a Albertina actuava no Instituto de de Investigação Médica. Eu logo me apercebia que tínhamos todos de regressar a Portugal continental e pelas matanças de brancos que tinham ocorrido na descolonização do Congo Belga logo imaginei que ela pudesse acontecer em Moçambique. 

De modo que meti a Família num avião para regressar à casa dos Pais da Albertina visto que eu não tinha “eira nem beira” em Portugal continental. Eu também regressei. Porém, como tinha de fazer os exames de Outubro em LMarques, em 30 de Setembro comprei bilhete e a 1 de Outubro estava no Aeroporto do Porto pronto para a viajem quando recebi um telefonema da minha cunhada (SC) que tinha uma sapataria no Alto Maé em LMarques, dizendo para eu não embarcar visto que havia lá uma grande matança de brancos. Porém, eu já tinha o passe para ir para a sala de embarque e pensei que se houvesse grande perturbação em LMarques, o avião poderia não aterrar em MAVALE (L Marques) mas iria poisar em Johannesburg, Àfrica do Sul.

Todavia, a viajem correu com toda a normalidade e o avião aterrou em MAVALE que fica a uns 7 ou 8 Kms do centro da cidade de LMarques. As malas saíram bem e eu nem tinha bagagem de porão. Porém, quando saí vi que não havia quaisquer meios de transporte para a cidade. nem autocarros, nem táxis. Nada.

Por mero acaso encontrei na hora o meu Colega de Curso João Salvador Marques Neto que era o Técnico da Companhia de Cimentos da Matola e pedi-lhe: "João tens de me levar para minha casa”: Ele perguntou: “Onde fica”. Respondi “No bairro da COOP na Polana”. Ele disse ” para aí não te levo porque há lá grande sarilho”. Eu disse “Então leva para o Alto Maé onde a minha cunhada tem uma sapataria”. E assim se fez. Pelo caminho eu vi mais de uma dezena de carros ligeiros de rodas para o ar e queimados. Perguntei ao João como é isto? "Os carros eram de colonos e todas as suas famílias morreram queimadas dentro dos seus carros”. Mas cheguei bem à sapataria da minha cunhada. Daí telefonei para minha casa onde tinha ficado o meu cunhado Álvaro e a família. Ele disse-me que não havia ali problemas e foi buscar–me ao Alto Maé. Eu cheguei e logo procurei um carpinteiro para me fazer um grande caixote onde pude meter algumas peças de mobília, as mais valiosas.

Só isso. Consegui e não saí de L Marques sem o caixote ter ficado no cais de embarque. Fiz os exames de Outubro e regressei, tendo dito na Secretaria da Universidade de L Marques que não mais voltaria. Passados uns dois meses o caixote chegou ao porto de Leixões. Retirei o caixote para o quintal de pessoa amiga moradora por perto. E continuei e tentar a cidade onde eu e a Albertina conseguíssemos ambos refazer a nossa Vida. No IST em Lisboa o Director era um aluno que queria ver bem longe qualquer “colonialista”. A Albertina tinha lugar no IPO de Lisboa. Continuámos então a tentar Coimbra. Na faculdade de Ciências da Universidade de Coimbra o Director era um Aluno. Ele mandou um telegrama para a Associação Académica de LMarques para saber quem era JBM. Casualmente, o Pr. da Associação Académica era o meu aluno Rui Gonzalez. Claro que ele deu as melhores referências a meu respeito. Então AB e os colegas dele, muito desejavam que eu ficasse em Coimbra e logo me mostraram o “programa” que tinham para aulas e funcionamento da Faculdade. Li e disse-lhes: “Já sabia que os alunos universitários eram dotados de imaginação, mas tanta não”. Entretanto, a Albertina e uma familiar do então Ministro dos “Retornados” Almeida Santos em Lisboa pediram a entrada na Faculdade de Medicina. Os pedidos tinham de ser aprovados pela RGA (Reunião Geral de Alunos) da Faculdade. Resultado: “Pedidos Rejeitados. “Os colonialistas devem regressar a África”.

A Albertina ficou tão chocada com essa decisão que nunca mais quis ir a Coimbra.

Rumámos de pois à Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto (A Albertina tinha lugar no IPO do Porto). Na FE o Director era uma Assistente que me remeteu para o Departamento de Engenharia Civil dirigido por um Aluno. Esse e os colegas receberam-me amavelmente e disseram:” O Senhor Professor poderá vir e ser o responsável pela cadeira de Mecânica Racional que agora se chama Mecânica Técnica. Porém, o Ensino terá de ser feito da forma Revolucionária para o Ensino Superior: O Senhor Professor fará o programa da cadeira que terá de dividir em 10 partes porque somos 250 alunos divididos em 10 turmas de 25 alunos. O Sr Prof terá de indicar os livros de texto que contêm a matéria da disciplina e os exercícios que têm de ser feitos pelos alunos nas aulas práticas, pelos alunos em “auto-ensino”; isto é, os alunos estudam a matéria e discutem entre si a forma de resolver os problemas propostos. O Sr Prof. estará ao lado a responder a dúvidas que os alunos ponham. Quanto a exames, os alunos “auto-classificam-se”. Se na atribuição da classificação a um aluno o “colectivo” dos alunos não chegar a uma conclusão, haverá um exame oral com o colectivo a fazer perguntas ao aluno e o Sr Prof ao lado servirá de árbitro”.

 Claro que também neste caso respondi o mesmo que disse aos Alunos em Coimbra: “Já sabia que os alunos universitários têm grande imaginação, mas tanta não”.

Então rumámos a Braga onde a Universidade do Minho era nascente. A Albertina tinha sido aceite pelo Hospital de Barcelos para aí dar consultas. Quando cheguei à Universidade do Minho recebeu-me o Reitor Lloyd Braga que me disse: “Nada precisa de me dizer, assine aqui”. O Lloyd Braga tinha sido meu Colega na Universidade de LMarques. A maior parte dos profs de LMarques que não eram das universidades do Porto, e de Lisboa ou de Coimbra estavam na Universidade do Minho. Nesse tempo a maior parte do meu trabalho na UMinho foi apoiar o Reitor na construção de Instalações Provisórias e Definitivas em Braga e Guimarães, serviço semelhante ao que eu tinha feito em LMarques no apoio a Veiga Simão na Fundação da Universidade de LMarques.

Como acima já disse nessa data existia o “Verão Quente” que melhor se podia chamar o “Verão Vermelho”. Não havia aulas em nenhuma das Universidades.

(Continua)

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