Luís Campos e Cunha - OBSERVADOR
O programa eleitoral do BE é social democrata? Não é,
e tem subjacente tudo o que o BE tem defendido como Bloco de (extrema)
Esquerda. É lobo com pele de cordeiro, mostra oportunismo e populismo.
O BE, pela voz de Catarina Martins, reclama que o seu
programa eleitoral é social democrata! Será verdade? Não, é uma mentira sem
vergonha!
O programa de investimentos públicos é gigantesco, mas
tal não é a sua pior característica. O mais complicado são as veladas ameaças
de nacionalizações e de reestruturação da dívida pública. Tudo objetivos de
extrema esquerda, vagamente, mal disfarçada.
Vejamos a entrevista ao Observador de Catarina
Martins: «Vamos pensar na REN, que é o que interessa para o Bloco. O problema
não é a capacidade de cada pessoa ter uma propriedade e que tem a ver com a sua
vida, mas com o que é de todos, os bens comuns. E o que são bens comuns? São
sectores estratégicos da economia, são monopólios naturais. (…) Quem se
apropria de um bem comum está, de facto, a retirá-lo ao universo coletivo que o
devia gerir.»
Mas há mais: “A água, por exemplo, tem de ser um bem
comum. Se for privatizada, é um roubo, porque significa que alguém, e já houve
quem quisesse fazer isso em Portugal, vai ter um interesse económico na
exploração de um bem comum que é não só um bem essencial à vida.[…]”
Mas claro que não é só a água que é essencial à vida,
mas também a alimentação e daí Catarina Martins, na sua entrevista, ter-se
atirado fortemente à Jerónimo Martins.
O programa de investimentos (coisa «menor»), a nacionalização
das águas, da REN, e (pela mesma lógica) das empresas de distribuição não é um
programa social democrata.
Acresce que o BE não esclarece onde vai buscar os
recursos para nacionalizar enormes sectores da economia, pois a REN vale quase
1% do PIB, a Jerónimo Martins deve valer uns «meros» 5%, etc. Se o BE pretende
pagar todas estas nacionalizações pelo seu valor, o orçamento irá ficar
parecido com o de 2010 (o tal que “chamou” a Troika), admitindo que alguém lhe
emprestaria o dinheiro para tais aventuras. E as regras do Pacto Orçamental
serão violadas grosseira e deliberadamente e, portanto, sem desculpa.
Como Catarina Martins pensa que a propriedade é um
roubo (“ladrão que rouba a ladrão…), talvez as nacionalizações não sejam para
ser pagas, ou seja, seriam realizadas por confisco. As leis europeias (e não
só) seriam também grosseiramente violadas.
Mas não há problema afrontar a UE não cumprindo muitas
das suas regras mais básicas, pois Catarina Martins pensa que a UE está em
desagregação. Ou seja, os partidos de extrema direita da Polónia e da Hungria
vão ganhar força. A senhora Catarina Martins terá em Salvini um bom aliado.
Mais, há mais:
“P: O BE tem falado na necessidade de mais
investimento público e quer financiar de duas maneiras: reestruturação da
dívida e aumento de vários impostos. Gostaria de ver a carga fiscal aumentar
mais?
Não, queremos uma carga fiscal mais justa.”
Infelizmente o jornalista não insiste na questão da
reestruturação da dívida pública. Mas podemos ver no programa (que sobre este
assunto, curiosamente, mete os pés pelas mãos): «se uma reestruturação de
dívida pública sob jurisdição nacional não é alcançada por acordo, existe o
direito legal da sua imposição pelo Estado.» Ou seja, existe o direito de não
pagar!
Penso que todo o texto do Programa é pouco claro, como
convém, mas vem na linha da ideia de não pagar a dívida pública, como se os
juros não saltassem imediatamente para níveis astronómicos e o exemplo da
Argentina não fosse suficiente. (Um dia escreverei sobre o assunto com mais
detalhe.)
Concluindo: o programa eleitoral do BE é social
democrata? Não é, e tem subjacente tudo o que o BE tem defendido como Bloco de
(extrema) Esquerda. É lobo com pele de cordeiro, mostra o oportunismo e
populismo do Bloco. O programa desrespeita regras fundamentais da União
Europeia e as consequências seriam claras: saída da UE; saída do Euro; ruína
financeira do Estado e, por arrastamento, de toda a economia; e desemprego em
massa.
A nossa sorte é que não vão ganhar as eleições. E, de
facto, o PS precisa de ter uma maioria forte para resistir à
“social-democracia” do Bloco.


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