Alberto Gonçalves - OBSERVADOR
Cantando e rindo, os portugueses marcham para o abismo
e só darão por ele quando se esbardalharem lá em baixo. Ou, palpita-me, nem aí.
Não seria a primeira vez.
“Estamos agora a entrar numa longuíssima campanha
eleitoral, que teria gostado que fosse menos longa e que não demorasse um ano”,
disse há dias o prof. Marcelo, indivíduo que se encontra em campanha eleitoral
vai para quatro anos. Além de faltar legitimidade ao autor, à frase (igual nas
várias fontes que consultei) falta sentido: agora é que estamos a entrar numa
campanha que começou há um ano ou há quase um ano? Quando a presidência se
desvia das “selfies” e das análises à temperatura do mar dá nisto. Para cúmulo,
à frase falta também realidade.
Uma campanha eleitoral pressupõe uma série de
adversários políticos que se confrontam e disputam o maior número possível de
votos. Aquilo que temos visto é o partido que ocupou o poder e que manda no
Estado a apascentar os demais partidos com migalhas ou promessas de migalhas
desse poder e desse Estado. E os demais partidos, os que se aliaram formalmente
ao PS e os que sonham com uma aliança, encontram-se satisfeitíssimos com a
situação, a ponto de limitarem a oposição a um simulacro ridículo. Hoje, excepto
por minúsculos movimentos bem ou mal-intencionados, não há oposição, não há
alternativa e, por este andar, não tarda não haverá sequer os vestígios de
democracia que ainda restam.
Nestas pacíficas circunstâncias, e com a ajuda
adicional – e escusada – da generalidade dos “media”, de comentadores
amestrados, do “empresariado” subserviente, da igreja e de Sua Excelência, o
Senhor Presidente da República, o PS das negociatas e das clientelas e das
patranhas e das bancarrotas ganhará as “legislativas”, ficando apenas por
apurar se com ou sem maioria parlamentar. Em qualquer dos casos, não importa
tanto o resultado do PS quanto o resultado das esquerdas, incluindo as beatas
do PAN, que ameaçam conquistar dois terços do parlamento para brincar às
revisões constitucionais. Na legislatura que agora acaba, uma cavalgada de
impostos e censuras, ensaiou-se a incursão pelas fronteiras do Terceiro Mundo.
Não é garantido que na próxima não se formalize a adesão.
Salva-nos, enquanto nos salvar, a “Europa”. Certa
direita (por “patriotismo”) e boa parte da esquerda (por ressentimento) passam
a vida a condenar “a ingerência de Bruxelas”. Muito heróico. Mas sem essa
ingerência, ocasionalmente irritante, o país já estaria entregue em definitivo
aos bandos que nos pastoreiam. O projecto de conquista elaborado pelos bandos e
pela inércia depende do dinheiro. Como o nosso dinheiro não se produz aqui e
sim lá fora, convém ir mantendo alguns laços com os regimes ocidentais que
inúmeros socialistas e a totalidade dos comunistas abominam. Em simultâneo, e
pelos mesmos motivos, lá se vão mantendo as diferenças face aos regimes
tropicais que inúmeros socialistas e a totalidade dos comunistas veneram. No
instante em que a “Europa”, ou uma Alemanha sem folgas e a sra. Merkel, recusar
uns milhares de milhões para “resgatar” inimputáveis, o último obstáculo à
barbárie vai ao chão. Ao contrário do que sucede com as beatas, ninguém pagará
multa.
Há dias, um amigo que padece de optimismo e cegueira,
opinava que os portugueses nunca se deixariam cair numa ditadura. Discordei com
delicadeza: a principal vocação dos portugueses é justamente a de obedecer sem
sombra de resistência. Mesmo os destacados resistentes à ditadura de Salazar
combatiam por uma ditadura incomensuravelmente pior. Nem sei se os portugueses
gostam que mandem neles: parece que não notam a diferença. No limite, acho que
não sonham existir diferença entre a resignação e a liberdade. A apatia
terminal, ou uma fascinante incapacidade de discernimento, implicam a absoluta
ausência de escrutínio.
Até ver, o momento da campanha em curso foram as
declarações da dona Catarina Martins acerca das barragens e da água que se
perde através da evaporação. A chacota que se seguiu, restrita a um pedacinho
das “redes sociais” e que não chegou aos noticiários para não ferir
susceptibilidades, deveria ser o eco de cada atoarda da criatura, que à
semelhança dos colegas do BE produz imbecilidades sem descanso nem receio das
consequências. Há dias, porém, a dona Catarina Martins disse enfim uma coisa plausível,
a qual mereceu igual indiferença das pessoas sérias: “Não queremos que Portugal
seja uma Irlanda, uma Holanda ou um Luxemburgo”. De facto, não querem. Não por
coincidência, a dona Catarina Martins escolheu três nações particularmente
prósperas para exemplificar as sociedades que abomina, sistemas capitalistas e
progressistas, com estabilidade fiscal, produtividade alta, salários altíssimos
e investimento estrangeiro a rodos. Alguém perguntou à dona Catarina Martins a
que título prefere a Venezuela ou Cuba? Alguém considerou renunciar ao BE após
tamanha confissão de primitivismo? Alguém se lembrou de questionar o PS por
pactuar com uma agremiação que deseja declaradamente a miséria dos portugueses?
São, claro, pormenores, embora pormenores que revelam
a dimensão dos disparates que a líder de um partido com 10% dos votos pode
proferir com radical impunidade. Se tivesse 30%, a impunidade seria idêntica. O
dr. Costa, que arrisca 40% em Outubro, praticamente nunca abriu a boca para
dizer uma verdade (ou uma palavra em português correcto). E o prof. Marcelo,
que é o que é, ronda os 90% nos índices de popularidade. Cantando e rindo, os
portugueses marcham para o abismo e só darão por ele quando se esbardalharem lá
em baixo. Ou, palpita-me, nem aí. Não seria a primeira vez.
Nota: o autor, que sou eu, vai de férias. Regresso no
dia 28.


Sem comentários:
Enviar um comentário