A pequena Greta
mostrou aos brutos que atentam contra a natureza a maneira correcta de se
viajar: em veleiros que pertencem a príncipes e custam milhões.
Após enfrentar a
fúria dos mares e as más-línguas que a dizem patrocinada por lobbies políticos
e empresas de energias “verdes”, Greta Thunberg chegou enfim à costa americana.
Em Nova Iorque, foi recebida por 200 pessoas, ou cerca de 0,002% da população
local. Melhor ainda, recebeu uma mensagem do eng. Guterres, sujeito com olho
para identificar causas nobres e descobrir novos talentos. O eng. Guterres
elogia a “determinação e a perseverança” da pequena Greta durante a epopeia
marítima (entrou num barco e ficou nele até atracar). O elogio é merecido.
Desde logo, a pequena Greta mostrou aos brutos que atentam contra a natureza a
maneira correcta de se viajar: em veleiros que pertencem a príncipes e custam
milhões. Se você, pobre de espírito, não desencantar um veleiro semelhante para
se deslocar ao Algarve ou a Torremolinos, resta-lhe permanecer em casa, e investir
os mil e duzentos euros das férias a emoldurar retratos da pequena Greta, a
santinha que faz jus à época.
Entretanto em
Manhattan, a pequena Greta regressou ao activo, ou ao “activismo”, que é o
trabalho dos que não trabalham em profissões chatas e mal remuneradas. Segundo
o “Público”, a missão da pequena Greta começará com uma “greve pelo clima” em
frente à sede das Nações Unidas. O “Público” não explica a que é que a pequena
Greta faz greve. A um emprego nas minas de Skellefteå? À escola? A um workshop
de rendas de bilros? Certo é que a pequena Greta saberá educar os americanos
sem educação (um pleonasmo) nas matérias ambientais. É curioso ter sido
necessário uma criança de 16 anos – diagnosticada com autismo ligeiro e à
espera de um diagnóstico de presunção terminal – para alertar a humanidade
sobre os perigos que a ameaçam. E é curiosíssimo que a criança nem sequer
precise de dizer nada de especial. E não diz. No meio da ignorância própria da
idade e do deslumbramento, a pequena Greta, que pede ao sr. Trump que “ouça a
ciência”, limita-se a repetir os clichés da ortodoxia e, quando estes não
parecem suficientemente assustadores, a inventar versões distorcidas dos
clichés. No fundo, a pequena Greta traduz o típico alarmismo do Painel
Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) para uma linguagem mais
alarmista, mais simples e mais adequada a cabecinhas como a do eng. Guterres e
dos eleitores do PAN.
Exemplos? Há três ou
quatro meses, um relatório do IPCC avisava “ser provável que o aquecimento
global atinja 1,5ºC entre 2030 (ou daqui a 11 anos) e 2052 se continuar a
aumentar à taxa actual”. No dialecto da pequena Greta, a frase transformou-se
em “De acordo com o relatório do IPCC, estamos a 11 anos de se iniciar uma
reacção em cadeia humanamente incontrolável”. É a mesma coisa? Não é a mesma
coisa: é mais alarmista, mais simples e mais mentirosa. E é o estilo de
primarismo notável e demagogia pedagógica que convém aos tempos que correm,
tempos que não deixam os meros factos atravessarem-se no caminho de um bom
pânico generalizado. Se a salvação da Terra implica reduzir a respectiva
população a níveis medievais de crendice e fanatismo, força. O importante é
legar um planeta imaculado aos nossos filhos. Na condição, claro, de os nossos
filhos serem tão conscienciosos quanto a pequena Greta. Se não forem, os
fedelhos e o planeta que se lixem.
O que vale é que há
esperança, e pequenas Gretas em abundância. Passei a semana anterior com amigos
numa casa de praia na Catalunha, região em que jurara nunca pôr os pés (salvo
pela temperatura do mar, evidentemente resultado das perturbações
meteorológicas, não valeu a pena quebrar a jura). Os amigos têm prole, uma
garota de 5 anos e duas adolescentes. Todas reproduzem o que aprendem na
escola. Na escola, aparentemente, a petizada não aprende português, matemática
ou a discernir que “funk” brasileiro não é música. Em compensação, absorve
farrapos soltos de informação inútil ou discutível. Ou seja, os meninos e as
meninas partilham os palpites da pequena Greta e do semi-alfabetizado médio. “A
separação do lixo é fundamental” (concedo que o lixo unido é difícil de
aturar). “O homem está a destruir tudo” (não identificaram o homem em questão,
pelo que não pude apresentar queixa nas autoridades). “A Amazónia é o pulmão do
mundo” (e o parque de Monsanto, um joanete?). Etc.
Significa isto que a
reciclagem não é importante? Depende. E que a intervenção humana não é
influente? Depende. E que a Amazónia não é o pulmão do mundo? Depende. No que
toca à ecologia, tudo depende imenso, e por depender assim é que evito
convicções firmes nesses domínios do conhecimento. Veja-se o caso da exacta
Amazónia, que ardeu numa escala incomparável nos idos de 2004, 2005, 2006 e
2007. Alguém elevou o tema a manchete angustiada? Alguém organizou petições
internacionais? Alguém convocou milhares de criaturas a fim de protestarem nas
capitais? Alguém pediu a intervenção de chefes de Estado e milagreiros
diversos? Alguém, em suma, se maçou? Ninguém. Porquê? Porque na altura o
presidente do Brasil era o sr. Lula e não dava jeito criticar um amigalhaço dos
pobres, dos oprimidos, da cachaça e de uns trocos por fora. Hoje, que o
presidente é o sr. Bolsonaro, ai Jesus que a Amazónia está em chamas. Ai Jesus,
vírgula: as aflições versam apenas a parte da Amazónia que pertence ao Brasil.
A da Bolívia, governada por outro camarada com consciência social, pode
desaparecer à vontade. Aliás à imagem das florestas de Angola e do Congo, em
processo de combustão acelerada e ignorada. O ambiente é um assunto complicado,
tão complicado que só uma criança o entende. Uma, ou milhões delas.


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