As suspeitas de corrupção que envolvem
os autarcas socialistas de Santo Tirso e Barcelos são apenas a ponta de um
iceberg que ameaça afundar o regime.
Haverá com certeza corruptos em todos os
partidos, mas no Partido Socialista parece haver mais do que nos outros
(parece? já lá vamos). Será que, tal como perguntou Ana Gomes, o PS “prestou-se a ser um
instrumento de corruptos e criminosos?”
Este alerta de Ana Gomes foi feito há um
ano, no Congresso do PS na Batalha, reunião em que os socialistas tentaram
pela primeira vez exorcizar o fantasma de José Sócrates, o
ex-primeiro-ministro suspeito de ser corrupto. Na altura, os socialistas também
foram confrontados com suspeitas de que Manuel Pinho teria sido corrompido por
Ricardo Salgado e recebido dinheiro através de offshores quando
ainda era ministro.
Nesse congresso, Ferro Rodrigues veio dizer que o PS não deve nem teme
nesta matéria: “o combate à corrupção está no ADN do PS”. O que Ferro não disse
é que a própria corrupção também está no ADN de uns quantos dirigentes
socialistas.
Os socialistas que
compram livros com o dinheiro dos outros
Armando Vara está na prisão e José
Sócrates e Manuel Pinho são suspeitos de serem corruptos. Isto num Governo em
que, segundo a revista Sábado, o Ministério Público quer que
mais três ex-ministros (Mário Lino, António Mendonça e Teixeira dos
Santos) e dois ex-secretários de Estado (Paulo Campos e Carlos
Costa Pina) sejam arguidos num caso em que estão a ser investigadas alegadas
práticas dos crimes de gestão danosa, participação económica em negócio,
tráfico de influência, corrupção passiva para ato ilícito, prevaricação, abuso
de poder e recebimento indevido de vantagem nas PPP.
Na semana passada, ficámos também a saber que José Conde
Rodrigues, ex-secretário de Estado da Justiça do segundo Governo de José
Sócrates, foi condenado a quatro anos de prisão, com pena suspensa, pelo crime
de peculato. Em causa estará a compra de mais de 700 livros com cartões de
crédito do Estado. Esta mania que alguns socialistas têm de
comprar livros com dinheiro alheio; já José Sócrates tinha alegadamente
gasto 170 mil euros a comprar o seu próprio livro com o sugestivo título de “A Confiança no Mundo”.
Costa no Congresso da
Batalha
Nesse Congresso na Batalha há um ano,
António Costa definiu duas prioridades para o partido: primeiro, acabar com
o mito de que, em Portugal, é a direita que sabe governar a economia e as
finanças públicas e, segundo, combater a corrupção. Costa conseguiu acabar com o primeiro mito, mas não com a
corrupção. Tanto mais que esta semana, na Comissão Política Nacional, o secretário-geral
do PS voltou a eleger como prioridades o combate à corrupção e o investimento
nos serviços públicos.
Isto numa altura em que os alicerces socialistas voltam a tremer com
notícias de vários casos de corrupção, nepotismo, favorecimentos, amiguismos,
cunhas e afins.
Do galpgate ao
familygate, até chegar ao Fernando Anastácio
No mês passado, o Ministério Público constituiu 18 arguidos no caso de
recebimento indevido de vantagem nas viagens ao Euro 2016 pagas pela Galp,
entre os quais estão os ex-secretários de Estado do atual governo, Fernando
Rocha Andrade e Jorge Oliveira, Vítor Escária, antigo assessor do
primeiro-ministro, e Carlos Costa Pina, antigo secretário de Estado e atual
administrador da Galp.
Depois do galpgate, o país ainda teve de
assistir ao triste espetáculo do familygate: primos,
irmãos, mulheres e maridos, cunhados, pais e filhas, tios e padrinhos, numa
grande orgia política incestuosa da família socialista que, sem
pudor e sem vergonha, tomou de assalto os gabinetes do poder, tudo em nome da
família. Da família socialista.
O familygate nem sequer é um caso de
crime, é um problema ético. Tal como é o caso de Fernando Anastácio, o deputado
socialista, casado em comunhão de bens com a juíza desembargadora do Tribunal
da Relação de Lisboa Maria José Machado. Fernando Anastácio esteve a
negociar, em nome dos socialistas, aumentos salariais dos juízes até 700
euros/mês. Fernando Anastácio, advogado, administrador de várias
empresas e sócio maioritário de uma sociedade de advogados com o seu nome, não
viu neste caso nenhum problema de conflito de interesses.
E Fernando Anastácio tem alguma coisa a
ver com o familygate? Duarte Cordeiro, secretário de
Estado Adjunto e dos Assuntos Parlamentares, nomeou Pedro Anastácio, de 25 anos, filho do deputado Fernando Anastácio e
da juíza Maria José Machado, para seu adjunto. O mesmo Duarte Cordeiro que
tinha nomeado Ana Catarina Gamboa, mulher do seu amigo Pedro Nuno Santos, como
chefe de gabinete.
Hortense Martins e os
presidentes das câmaras de Santo Tirso e Barcelos
Ainda na boa tradição do familygate
socialista, conta-nos o jornal Público que a deputada
socialista Hortense Martins conseguiu 276 mil euros de fundos comunitários para
a empresa do pai. O problema, escreve o jornal, é que a esses fundos só podiam
candidatar-se projetos ainda em construção. Não era o caso, mas a deputada
socialista Hortense Martins tentou e conseguiu que lhe fossem aprovados dois
subsídios para a empresa do pai. Isto numa altura em que a PJ, na
Operação Inovar, investiga suspeitas de fraude na obtenção de subsídios
comunitários.
Ainda o país digeria o caso da Hortense
Martins, e já era confrontado com um outro: o dos presidentes socialistas das
câmaras municipais de Santo Tirso, Joaquim Couto, e de Barcelos, Miguel Costa
Gomes, bem como o presidente do Instituto Português de Oncologia do Porto,
Laranja Pontes, e a empresária Manuela Couto (mulher do autarca de Santo
Tirso). Foram detidos porque são suspeitos de viciação fraudulenta de
procedimentos concursais e de ajuste direto.
Neste caso, também há uma alegada troca de favores: a presidente da Câmara
de Matosinhos, Luísa Salgueiro (também do PS), através da alegada influência do
socialista Joaquim Couto, terá nomeado em outubro de 2017 Marta Laranja Pontes,
filha do presidente do IPO do Porto, para chefe de gabinete da autarquia
matosinhense. E mais uma coincidência: Manuela Couto estará igualmente
envolvida na Operação Éter e no alegado desvio de sete milhões de euros do Turismo
do Norte de Portugal.
De Carlos César, o
patriarca do familygate, a João Cravinho
Confrontado com este caso de Santo Tirso
e Barcelos, Carlos César, o patriarca do familygate, limitou-se a dizer que “quem agir à margem da lei” ou
“estiver ligado a situações de abuso de poder” deve acatar as respetivas
consequências. E que “a seu tempo, as investigações chegarão a uma decisão
judicial”.
Esta resposta de Carlos César faz
lembrar uma frase de João
Cravinho sobre a corrupção em Portugal: “Reduzir a corrupção a um caso de polícia é uma coisa de um
primitivismo ao nível do homo erectus”. Há socialistas erectus, há
socialistas curvos e há socialistas com uma grande retidão, como é o caso de
João Cravinho que ainda nos primórdios do primeiro Governo de José Sócrates
chamou a atenção pela primeira vez para a “italianização do regime”.
O nome de João Cravinho neste artigo é
importante porque nos ajuda a recordar que a corrupção não é um património
socialista. O poder corrompe e se calhar os socialistas estiveram no poder
mais tempo do que os outros. João Cravinho foi o homem que depois
da segunda maioria absoluta de Cavaco Silva, cheia de escândalos e casos,
lançou um ataque feroz à corrupção no Estado, numa altura em que o Ministério
Público e o então procurador-geral Cunha Rodrigues eram hostilizados pelo poder
político. Na altura, e para aqueles que acham que o familygate é uma invenção
socialista, o jornal O Independentefazia manchete com as
mulheres dos governantes de Cavaco Silva que pertenciam ao mesmo governo que os
maridos.
Joana Marques Vidal
ressuscita a tese do homo erectus
Aqui chegados, é preciso chegar a uma
conclusão. Na semana passada, nas Conferências do Estoril, Joana Marques Vidal alinhava na
tese do homo erectus que João Cravinho ensaiou há mais de 20 anos: “A questão
da corrupção não é essencialmente dos tribunais (…) é muito importante que o
poder político e os agentes partidários assumam a luta contra a corrupção como
uma questão essencial tal como a transparência das contas públicas”.
Precisamente as duas prioridades que António Costa definiu no Congresso na
Batalha
Já antes, em entrevista à SIC e ao Expresso,
a anterior procuradora-geral da República afirmava o seguinte: “Se repararmos o
que foram os programas políticos das últimas eleições, a corrupção aparece lá numa linha. E aparece sempre
relacionada com o judiciário. Não há uma estratégia nacional de combate à
corrupção”.
É verdade. Nos programas eleitoral e de
governo dos socialistas aparece uma única linha
dedicada ao tema da corrupção, no capítulo “Melhorar a qualidade da
democracia”. Prometem “prevenção e combate à corrupção através de maior
transparência, escrutínio democrático e controlo da legalidade”. São frases
redondas como esta que fazem a democracia rolar para uma ribanceira populista.
E quando alguém, como Álvaro Santos
Pereira no relatório da OCDE, tenta escrever mais do que uma
linha sobre o tema da corrupção, é alvo de censura. São estas as linhas
com que se cose a política em Portugal. Para quê escrever mais linhas?
https://eco.sapo.pt/opiniao/a-corrupcao-o-partido-socialista-e-o-homo-erectus/
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