Em teoria,
eu deveria achar certa graça à fúria com que os ciganos investem contra o
Estado. Na prática, a graça perde-se no zelo com que reclamam os respectivos
benefícios.
Durante o Estado
Novo, os jornais fintavam a censura mediante palavras ou expressões que diziam
mais do que o explícito: ainda que tosco, o “código” permitia ler o que não
estava escrito. Hoje, no Estado Novíssimo a que chegámos, pouco mudou. A
censura e os “códigos” mantêm-se, simplesmente a primeira é obra dos próprios
jornalistas e os segundos, sempre toscos, pretendem ocultar em vez de revelar.
De acordo
com o “Jornal de Notícias”, “pelo menos quatro indivíduos agrediram dois
enfermeiros, um auxiliar de enfermagem e um segurança, na triagem do serviço de
Urgência do Hospital de São João, no Porto, terça-feira à noite”. Segundo a
RTP, “profissionais de hospital do Porto [foram] agredidos por grupo que tentou
atropelar polícia”. O “Sol” confirma que “grupo [tentou] atropelar polícia
depois de agredir enfermeiros no Hospital S. João”. O “Público” esclarece que
“cerca de dez pessoas estiveram envolvidas nos desacatos”. O “Expresso” volta a
esclarecer: “um grupo de aproximadamente dez pessoas – familiares que acompanhavam
um doente – agrediu com ‘socos e pontapés’ dois enfermeiros, um auxiliar e um
segurança da unidade de saúde”. O “Diário de Notícias” avança com um motivo:
“enfermeiros agredidos no Hospital de São João devido a demora no atendimento”.
Aqui o Observador fala num “‘número indeterminado’ de pessoas” que “agrediram
selvaticamente quatro profissionais do serviço de urgência”.
Quem será
essa violenta e indeterminada gente? Neoliberais em protesto contra a função
pública? Uma misteriosa associação de Lesados do Estado? Claques da bola? Uma
delegação de homeopatas? Alcoólicos anónimos? Alcoólicos identificados?
Cientologistas? Xintoístas? Os “media” não explicaram e, palpita-me, a polícia
anda igualmente à nora. A menos, claro, que os responsáveis pela investigação
olhem para as “caixas” de comentários nos sites dos “media” citados, onde os
participantes em rodapé perceberam num ápice que “o grupo”, “os indivíduos” ou
as “pessoas” eram uma festiva agremiação de ciganos.
Ciganos,
vírgula, que essa é designação caída em desuso e punida pela moral. É
preferível falar de indivíduos de etnia cigana. Porém, se não queremos parecer
brutos, é melhor falar de membros do povo rom (“roma” é plural – isto é
importantíssimo). Aliás, sobretudo se o assunto envolve delinquência ou crime,
o ideal é nem falar de nada e de todo. Dá-se a notícia de forma vaga, com o
tipo de hesitação cautelosa que por exemplo marca os atentados cometidos por
camiões ou navalhas nas cidades europeias. O fundamental é evitar a
discriminação.
Também não aprecio
discriminações e, por princípio, não vejo grande utilidade em mencionar a
“raça” dos causadores de uma baderna. A questão é que, excepto se se aceitar um
conceito discutível, não interessa definir os ciganos enquanto “raça”, e sim
enquanto cultura. Uma cultura coesa e ancestral, com valores tradicionais e uma
série de comportamentos relativamente padronizados e reconhecíveis. Um
comportamento típico, que 99% dos profissionais de saúde poderão certificar,
consiste em invadir hospitais ao berro e abandoná-los ao pontapé.
Os ciganos
possuem inúmeros comportamentos típicos, muitos deles com o curioso recurso ao
berro e ao pontapé. Tudo decorre da peculiar maneira com que essa comunidade
olha o mundo “exterior”: um território de privilégios infinitos e zero deveres.
Em teoria, eu deveria achar certa graça à fúria com que os ciganos investem
contra o Estado (por razões que não vêm ao caso, apetecia-me invadir a Direcção
Geral de Energia com uma bazuca). Na prática, a graça perde-se no zelo com que
reclamam os respectivos benefícios. Outras características fascinantes passam
pela amabilidade que dispensam às mulheres, o empenho que devotam à educação e,
descontados os carros, os televisores e demais pechisbeques, a abertura a
qualquer avanço civilizacional posterior ao século VII.
Um estudioso
da temática, que conheci em tempos, garantia-me que a cultura cigana é a do
atraso de vida. Tamanha franqueza limitava-se ao consumo privado. Em público, a
vigilância da linguagem e do pensamento obriga a que se repitam clichés
gordurosos acerca da “identidade” e da “integração” como se os conceitos não
fossem frequentemente incompatíveis. E como se a culpa pela evidente
marginalidade dos ciganos fosse nossa.
Admita-se
que a culpa é um bocadinho nossa (embora não seja minha). Permitir, sob
determinados e absurdos critérios, que um conjunto de cidadãos saltite por aí à
revelia da lei e dos hábitos não é exibir tolerância: é conceder impunidade. E
– estrebuche-se à vontade – notar este desagradável facto não é “racismo”, “xenofobia”,
“preconceito” ou “discriminação”. Discriminação é tratar alguém de modo
diferente. E, através do cínico “respeito” pela “diferença”, condenar milhares
de criaturas a uma existência quase primitiva, além de condenar as suas vítimas
a tratamento médico.
Eu sei. Sei
que generalizo. Sei que nem todos os ciganos gostam de demolir propriedade e
costelas alheias. Nem todos utilizam a escola dos filhos para receber
subsídios. Nem todos habitam a espécie de limbo em que o país os largou.
Acontece apenas que, à semelhança dos chineses e o arroz, ou dos sindicalistas
e o parasitismo, uma razoável quantidade de ciganos exerce, sem a sanção dos
pares, as actividades que os celebrizaram. Até que os ciganos decentes evitem
os restantes, evito-os eu – se puder. Os “media” podem.


Sem comentários:
Enviar um comentário