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| Dr. Pedro Passos Coelho, Armando Palavras e Paulino Passos Coelho |
Coube-nos a nós o privilégio de apresentar o livro. Por essa razão nos deslocámos às faldas do Marão para cumprir a tarefa. Razão porque o blogue esteve inativo durante estes dois dias. Elaborámos um pequeno texto, para homenagearmos o escritor e o Amigo*.
Armando Palavras
Nascido
em Vale de Nogueiras há 100 anos, uma aldeia nos arredores de Vila Real,
António Passos Coelho deixou o Caramulo em 1970 para embarcar naquela que viria
a classificar como a “loucura africana”, ao aceitar o desafio lançado pelo
então ministro do Ultramar de organizar um serviço de pneumologia moderno em
Angola.
A Revolução de Abril apanhou o médico pneumologista em Luanda, onde residia com a mulher e os quatro filhos, entre eles o ex primeiro-ministro, Pedro Passos Coelho, e ocupava o cargo de diretor de hospital e chefe do serviço de combate à tuberculose.
Esta passagem por
África inspirou, anos mais tarde, o livro “Angola, amor impossível”, em que o
autor aborda a guerra, o 25 de Abril e a descolonização.
Na altura, encontrou
uma Angola onde a “vida era normalíssima” e apenas do norte e leste chegavam
alguns relatos da atividade da guerrilha. Primeiro passou pelo Bié e, só
depois, se instalou na capital para colocar em funcionamento um novo e moderno
hospital.
A notícia da
revolução foi-lhe dada por uma enfermeira, mas não ligou. O “puto”, como em
Angola chamavam à metrópole, estava demasiado longe, mas depois o país africano
“entrou em efervescência”.
Quanto à
descolonização, afirmou à agência Lusa que “foi tudo feito à pressa”. “Eu acho
que a independência deveria ter sido dada com o auxílio da ONU ou da
organização das Nações Africanas, deveria ter sido assim, de maneira a ter lá
uma força qualquer que evitasse a guerra entre eles”, salientou.
O MPLA ou a UNITA
eram “partidos armados” que “não faziam política” e o resultado foi, na opinião
do médico, “uma guerra que matou famílias inteiras” e “destruiu Angola”.
António Passos Coelho
acreditava que o país caminhava já há alguns anos para uma independência que
iria acontecer com ou sem 25 de abril e revelou que, quando estava a recrutar
pessoal para o hospital, recebeu uma “confidencial” que dizia para contratar
também angolanos.
Além deste belo e
primeiro romance que trata da sua experiência como médico,
colocado em Angola para dirigir a luta contra a Tuberculose no distrito do Bié,
sendo ainda nomeado director do Sanatório de Luanda; uma narrativa onde
descreve a terra, as gentes, os conflitos políticos que levaram ao período
trágico da descolonização, o escritor / médico, escreveu mais três:
Zélia - onde
desenvolve um tema que, durante muitos anos, foi um flagelo no país – o aborto.
Celeste, uma das personagens centrais, pratica o aborto numa cidade nortenha –
Viseu. No desenrolar da narrativa surge Zélia, o ponto nevrálgico do romance.
Sob o ponto de vista científico, o autor é rigoroso, metódico, esclarecendo com
simplicidade o leitor.
Memórias de Céu e
Inferno - desenvolve-se
em torno do destino do seu protagonista. Entregue ainda de peito, por sua mãe
que definhava da doença, a uma sua tia, Silvestre passa na pequena aldeia da
Peneda, localizada entre o Marão e o Alvão, uma infância de brutal pobreza. É
entregue a um casal de Lamego e, mais tarde, ruma para Chaves onde toda a
narrativa se desenvolve.
Sobre ele escrevemos
uma recensão na revista Tellus, dirigida há anos pelo talvez maior
escritor vivo transmontano: A.M. Pires Cabral.
Caramulo – Este quarto romance,
desenvolve um tema similar ao tratado por duas lendas da Literatura: Thomas
Mann (um dos últimos discípulos de Goethe) que alerta, pela primeira vez, para
esse flagelo europeu que era a tuberculose (tal como o faz o autor de Caramulo em
Portugal, embora muitos anos mais tarde), e Hermann Hesse em Aquista,
para o tratamento de doentes com águas medicinais (as denominadas termas).
Ambos situam a acção na Suíça. Aquele no sanatório Berghof, em Davos, no remoto
mundo dos Alpes suíços e este nas termas de Baden, região designada pelo vulgo
por terra dos nabos.
Este belo romance (Caramulo) foi
reeditado pela editora Fronteira do Caos em parceria com
a Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro (UTAD), numa
homenagem prestada ao médico/ escritor (transmontano), no dia 24 de Junho
(2014), no auditório Geociências da UTAD.
Além de romancista, António Passos Coelho foi poeta. A sua obra poética começou por estar condensada num pequeno volume – Material Humano. A este, acrescentou-se, mais tarde, Refugo, cujo prefácio tivemos o privilégio de redigir.
E ao romancista e poeta juntou-se
o contista, consumando, assim, as várias vertentes literárias. Os seus contos
estão reunidos em três volumes: Gente da
Minha Terra, Histórias Selvagens
e Mais Gente da Minha Terra.
Eu
e a minha Vila,
foi publicado na revista Tellus.
Os contos de António Passos Coelho
são de uma simplicidade desconcertante; cobertos de tristezas e amarguras, mas
também de ternura; de Amor. De amor para com a pessoa humana; um Amor
Universal. Tal como estes agora publicados pela chancela da Fronteira do Caos,
em homenagem ao já desaparecido escritor: A Crise e outros contos.
A obra
literária do escritor (e médico) transmontano (Vila Real) António Passos
Coelho, distribui-se por alguns volumes. Mesmo dedicando a vida à medicina, não
deixou de escrever nas horas vagas. Mas são os suficientes para neles se
vislumbrar o encanto da palavra escrita. Juan Rulfo apenas publicou 300 páginas
e não deixou de ser o escritor que foi - divinizado por Gabriel Garcia Marquez
e Jorge Luís Borges. E com Jean-Arthur Rimbaud sucedeu o mesmo; praticamente,
apenas escreveu Iluminações e Uma Cerveja no Inferno.


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