domingo, 31 de maio de 2026

O escritor e médico António Passos Coelho foi Homenageado em 30 de Maio no Auditório da Biblioteca Municipal de Vila Real

Dr. Pedro Passos Coelho, Armando Palavras e
Paulino Passos Coelho

Ontem (Sábado - 30 de Maio), assistiu-se a um evento cultural peculiar. No auditório (completamente cheio) da Biblioteca Municipal de Vila Real, os filhos do falecido Dr. António Passos Coelho (2019), homenagearam o Pai, lançando um livro de contos póstumos do escritor / médico. Teve a chancela da Fronteira do Caos, e a presença do seu editor, Dr. Victor Raquel.

Coube-nos a nós o privilégio de apresentar o livro. Por essa razão nos deslocámos às faldas do Marão para cumprir a tarefa. Razão porque o blogue esteve inativo durante estes dois dias. Elaborámos um pequeno texto, para homenagearmos o escritor e o Amigo*.

Armando Palavras

 * O Dr. Pires Cabral não pôde estar presente por questões de saúde. Também não houve tempo para lhe fazer uma visita. Havemos de a fazer em Agosto.

Nascido em Vale de Nogueiras há 100 anos, uma aldeia nos arredores de Vila Real, António Passos Coelho deixou o Caramulo em 1970 para embarcar naquela que viria a classificar como a “loucura africana”, ao aceitar o desafio lançado pelo então ministro do Ultramar de organizar um serviço de pneumologia moderno em Angola.

A Revolução de Abril apanhou o médico pneumologista em Luanda, onde residia com a mulher e os quatro filhos, entre eles o ex primeiro-ministro, Pedro Passos Coelho, e ocupava o cargo de diretor de hospital e chefe do serviço de combate à tuberculose.

Esta passagem por África inspirou, anos mais tarde, o livro “Angola, amor impossível”, em que o autor aborda a guerra, o 25 de Abril e a descolonização.

Na altura, encontrou uma Angola onde a “vida era normalíssima” e apenas do norte e leste chegavam alguns relatos da atividade da guerrilha. Primeiro passou pelo Bié e, só depois, se instalou na capital para colocar em funcionamento um novo e moderno hospital.

A notícia da revolução foi-lhe dada por uma enfermeira, mas não ligou. O “puto”, como em Angola chamavam à metrópole, estava demasiado longe, mas depois o país africano “entrou em efervescência”.

Quanto à descolonização, afirmou à agência Lusa que “foi tudo feito à pressa”. “Eu acho que a independência deveria ter sido dada com o auxílio da ONU ou da organização das Nações Africanas, deveria ter sido assim, de maneira a ter lá uma força qualquer que evitasse a guerra entre eles”, salientou.

O MPLA ou a UNITA eram “partidos armados” que “não faziam política” e o resultado foi, na opinião do médico, “uma guerra que matou famílias inteiras” e “destruiu Angola”.

António Passos Coelho acreditava que o país caminhava já há alguns anos para uma independência que iria acontecer com ou sem 25 de abril e revelou que, quando estava a recrutar pessoal para o hospital, recebeu uma “confidencial” que dizia para contratar também angolanos.

 

Além deste belo e primeiro romance que trata da sua experiência como médico, colocado em Angola para dirigir a luta contra a Tuberculose no distrito do Bié, sendo ainda nomeado director do Sanatório de Luanda; uma narrativa onde descreve a terra, as gentes, os conflitos políticos que levaram ao período trágico da descolonização, o escritor / médico, escreveu mais três:

 

Zélia - onde desenvolve um tema que, durante muitos anos, foi um flagelo no país – o aborto. Celeste, uma das personagens centrais, pratica o aborto numa cidade nortenha – Viseu. No desenrolar da narrativa surge Zélia, o ponto nevrálgico do romance. Sob o ponto de vista científico, o autor é rigoroso, metódico, esclarecendo com simplicidade o leitor.

 

Memórias de Céu e Inferno - desenvolve-se em torno do destino do seu protagonista. Entregue ainda de peito, por sua mãe que definhava da doença, a uma sua tia, Silvestre passa na pequena aldeia da Peneda, localizada entre o Marão e o Alvão, uma infância de brutal pobreza. É entregue a um casal de Lamego e, mais tarde, ruma para Chaves onde toda a narrativa se desenvolve.

Sobre ele escrevemos uma recensão na revista Tellus, dirigida há anos pelo talvez maior escritor vivo transmontano: A.M. Pires Cabral.

 

CaramuloEste quarto romance, desenvolve um tema similar ao tratado por duas lendas da Literatura: Thomas Mann (um dos últimos discípulos de Goethe) que alerta, pela primeira vez, para esse flagelo europeu que era a tuberculose (tal como o faz o autor de Caramulo em Portugal, embora muitos anos mais tarde), e Hermann Hesse em Aquista, para o tratamento de doentes com águas medicinais (as denominadas termas). Ambos situam a acção na Suíça. Aquele no sanatório Berghof, em Davos, no remoto mundo dos Alpes suíços e este nas termas de Baden, região designada pelo vulgo por terra dos nabos.

Este belo romance (Caramulo) foi reeditado pela editora Fronteira do Caos em parceria com a Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro (UTAD), numa homenagem prestada ao médico/ escritor (transmontano), no dia 24 de Junho (2014), no auditório Geociências da UTAD.


Além de romancista, António Passos Coelho foi poeta. A sua obra poética começou por estar condensada num pequeno volume – Material Humano. A este, acrescentou-se, mais tarde, Refugo, cujo prefácio tivemos o privilégio de redigir.

E ao romancista e poeta juntou-se o contista, consumando, assim, as várias vertentes literárias. Os seus contos estão reunidos em três volumes: Gente da Minha Terra, Histórias Selvagens e Mais Gente da Minha Terra.

Eu e a minha Vila, foi publicado na revista Tellus.

Os contos de António Passos Coelho são de uma simplicidade desconcertante; cobertos de tristezas e amarguras, mas também de ternura; de Amor. De amor para com a pessoa humana; um Amor Universal. Tal como estes agora publicados pela chancela da Fronteira do Caos, em homenagem ao já desaparecido escritor: A Crise e outros contos.


A obra literária do escritor (e médico) transmontano (Vila Real) António Passos Coelho, distribui-se por alguns volumes. Mesmo dedicando a vida à medicina, não deixou de escrever nas horas vagas. Mas são os suficientes para neles se vislumbrar o encanto da palavra escrita. Juan Rulfo apenas publicou 300 páginas e não deixou de ser o escritor que foi - divinizado por Gabriel Garcia Marquez e Jorge Luís Borges. E com Jean-Arthur Rimbaud sucedeu o mesmo; praticamente, apenas escreveu Iluminações e Uma Cerveja no Inferno.

 

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