Em rúbrica própria, Pedro
Correia, jornalista de carreira, publicou no seu Delito de Opinião,
texto por nós lavrado sobre a Literatura Russa, sobretudo do período Soviético.
Um esboço de ensaio
futuro. Pode ser lido AQUI,
como inédito, como bem entendemos por questão de princípio.

Mais completa que a obra
de Reed é a História da Revolução Russa
de Trotsky. Mas essa só se for patrocinada pelos beatos e beatas do Bloco de
“Esquerda”.
Entendemos agora
publicá-la neste espaço, para os leitores de Tempo Caminhado, com as imagens (sobre os autores) escolhidas por
Pedro Correia.
Mas para que não haja polémica, advertido por
experiência recente, salientamos que a nomenclatura é a seguida por vários
tradutores portugueses: Fernando Pinto Rodrigues, Cordeiro de Brito, João
Gomes, Nina Guerra, Filipe Guerra, Natália Vakhmistrova, Maria Vassilieva e
José Milhazes. Bem como as traduções sob os auspícios do Programa TRANSCRIPT
para o Apoio à Tradução da Literatura Russa da Fundação Mikhail Prokhorov. E para as obras de autores russos não
vertidos para português, seguiram-se obras de George Steiner, Marshall Berman,
Simon Ings e Orlando Figs. Bem como a tradução francesa para Evguénia S.
Guinzbourg.
E, embora se não adapte bem a Isaac Babel, o titulo que encima o artigo foi inspirado em missiva online de Pedro Correia.
E, embora se não adapte bem a Isaac Babel, o titulo que encima o artigo foi inspirado em missiva online de Pedro Correia.
Não há ninguém que não tenha ouvido falar de Auschwitz. Mas quem sabe que Kolima foi uma gigantesca máquina de aviltar e matar? Poucos. Em que escolas se fala de Kolima? Os autores abordados neste pequeno "ensaio" tocaram a fundo a morte em massa.
A Rússia, em relação ao Ocidente,
no século XIX, foi um arquétipo do Terceiro Mundo no século XX. Este atraso em
relação ao Ocidente desempenhou um papel central na politica e na cultura
russas, da década de 1820 ao período soviético. Cerca de cem anos.
No
inicio do século XX, o país com maior dimensão populacional, em quase todos os
outros padrões surgia em último. Em 1913 tinha o rendimento per capita mais baixo da Europa
(exceptuando o império Otomano), e a esperança de vida (30 anos) colocava-a
século e meio atrás da Grã-Bretanha e dos Estados Unidos da América. Tchékhov
di-lo sarcasticamente na sua peça “O Cerejal”.
Contudo,
esta era do subdesenvolvimento russo produziu, no espaço de duas gerações, uma
das maiores literaturas do mundo. E, curiosamente, foi São Petersburgo, a
capital imperial, a mais clara expressão de modernidade no solo russo do século
XIX. Que iniciou uma tradição literária brilhante com características próprias.
Assumida com Puchkine (no seu Cavaleiro
de Bronze), e se estendeu a Gogol, Chernyshevski, Dostoievski e Bieli. Nela
surge como personagem principal o “homem comum”, cujo destino é sempre o de
vitima. Mas uma vitima cada vez mais audaciosa no século XIX, fruto das várias
revoluções. Uma vitima que encarna a vida real de alguns dos autores.
Dostoievswki, por exemplo, teve a vida moldada por dois acontecimentos. O seu
pai morreu quando este era ainda jovem, provavelmente assassinado por um dos
seus servidores. Mais tarde, o autor de Recordações
da Casa dos Mortos, esteve prestes a ser executado por traição. Foi
cruelmente conduzido ao cadafalso e deixado de olhos vendados à beira da morte,
antes de ser informado que a pena fora comutada.

A
literatura russa é intima, escrita para o leitor russo, mas mesmo o leitor
exterior a esse território com a dimensão de metade da lua, consegue perceber o
tormento de Pushkin, o desespero de Gogol, a alma dilacerada de Dostoievski na
Sibéria, a luta impetuosa de Tolstoi contra a censura e o desalento do extenso
rol de assassinados (ou desaparecidos) incrustados nas façanhas literárias
russas do século que nos precedeu. A estes podemos juntar Turguénev, Tchecov,
Andréev ou Nikolai Leskov que se tornaram clássicos para as gerações
posteriores.
Mas
o homem comum torna-nos a aparecer no contexto soviético, após uma revolução
que juntamente com os seus companheiros venceram; numa nova ordem onde
teoricamente goza de todos os direitos de que necessita. Uma ilusão que pagou
cara.
O
mítico John Reed, no seu imortal 10 Dias
que abalaram o Mundo, descreve-nos em rigor os primeiros 10 dias da tomada
do poder bolchevique. Só a História da
Revolução Russa de Trotski se lhe assemelha, suplantando-o em muitos
pontos.


Nicolas
Werth destaca o escabroso editorial do jornal da tcheka de Kiev: “Que o sangue
jorre a rodos!”.
Caracterizado
pela obsessão da depuração, o terror de massas leninista cria a via de limpeza
social que Estaline empreende a partir de 1929, ano da “Grande Viragem” e dos
“Amanhãs que cantam!”.
É
neste contexto histórico que surge esta literatura, produzida por homens e
mulheres que sofreram na pele o terror soviético, cujas personagens das
narrativas são, na dimensão humana, os mesmos “deuses” e heróis evocados por
Homero, Sófocles, Ésquilo e Euripides[1].


Emigrou
em 1922 para França. A sua obra-prima, onde conta a história da Crimeia do
pós-guerra, um testemunho vivo da pavorosa concretização da “grande experiência
de transformação” politica e social da Rússia levada a cabo pelo partido
bolchevique, foi saudada por Thomas Mann.
Em
Março de 1922, 400 mil pessoas passavam fome; 75 mil morreram. Até ao Verão de
1923, 100 mil pessoas morreram de fome.
É
sobre esta tragédia que Chmeliov se debruça em O Sol dos mortos.


Em
1931 endereça uma corajosa missiva critica a Estaline.
Os
contos de Ziamatine são “um lampejo do que a literatura pós-revolucionária
poderia ter sido, se a ditadura não tivesse eliminado totalmente a
independência, a ousadia e o individualismo” (Mirra Ginsburg). Nas suas
narrativas, impelido pela total liberdade humana de criar, converteu-o num
cidadão inconveniente em dois regimes despóticos. O czarismo condenou-o por um
ano de exílio; o comunismo baniu-o para sempre.

Dois
anos depois da publicação d’O Selo
Egípcio, o poeta, juntamente com Nadejada, sua esposa, regressa a
Leninegrado, mas os esbirros do Partido que estavam ao comando da Sociedade de
Escritores e controlavam os empregos e a habitação, expulsaram-nos.
Os
Mandelstam regressam a Moscovo. E em 1933, no meio da campanha estalinista pela
colectivização das terras, onde perecem mais de quatro milhões de vidas
camponesas, e a um passo da Grande
Depuração que levaria à morte outras tantas (ou mais), o poeta compôs o
poema nº 286 sobre Estaline.
Embora
Mandelstam o não tenha escrito, leu-o em voz alta diversas vezes em reuniões à
porta fechada. Um dos que o ouviu denunciou-o à policia secreta. Numa noite de
Maio de 1934 foram busca-lo. Após terríveis sofrimentos físicos e mentais,
quatro anos depois morreu num campo de passagem perto de Vladivostok.


Borges,
referindo-se a Babel, dizia que o “clima habitual” da sua vida “seria uma
catástrofe”.

Em
1930 testemunha, na Ucrânia, a brutalidade e as mortes causadas pela colectivização
forçada da agricultura. No Congresso da
União de Escritores Soviéticos, em 1934, Babel é já um autor marginalizado
pelo realismo socialista. O regime silenciou-o. Em 1935, a sua peça Maria, viu a sua estreia cancelada em
Moscovo pela policia politica. Em 1939 foi preso e interrogado sob tortura na
prisão do KGB em Moscovo. Segundo a versão oficial teria morrido numa prisão do
Gulag em Março de 1941. Os seus manuscritos foram confiscados e destruídos.


Como
correspondente do jornal militar russo Krasnaya
Zvezda, cobriu as batalhas de Moscovo, Stalinegrado, Kursk e Berlim. Será
um dos primeiros repórteres a testemunhar a libertação dos campos de extermínio
de Treblinka e Majdanek. E o seu artigo “O Inferno de Treblinka” servirá de
prova nos julgamentos de Nuremberga.
Em
1961, os agentes do KGB assaltam-lhe a casa levando-lhe todas as anotações que
possuía para Vida e Destino, um
volume extraordinário, mas de leitura complexa. Em 1974 um dos originais que
sobreviveu é microfilmado pelo poeta Semion Lípkin e através do físico nuclear
Andrei Sákarov e do humurista Vladimir Voinovich, esse manuscrito sai do país
para ser editado em vários países em 1980. Em 1988 é publicado na Rússia de
Gorbatchev.

O
Terror leninista/estalinista assinalado anteriormente, foi confirmado em obras
literárias como Tudo Passa, de
Grossman. Um dos seus personagens, um activista convicto, a dado passo diz:
“escorraçámo-los como a um bando de gansos”. Mas noutra passagem a barbárie
humilha; vai ao limite da dignidade humana: “… eles … ”filhos da puta”. E
gritam-lhes: “Bebedores de sangue”! … não podemos sentar-nos à mesa desses
parasitas, o filho do Kulak é asqueroso, a sua filha é pior que um piolho. Eles
consideram esses camponeses como gado, como porcos. Tudo o que se relaciona com
os kulaks é repugnante: primeiro a sua pessoa, depois o facto de não terem alma
… Depois, eles fedem … Quando os tivermos exterminado, começará uma era feliz
para o campesinato”.
No
fim da vida escreve o seu último volume. Uma espécie de reportagem na Arménia.
Com o qual tornou a ser molestado por abordar o genocídio Arménio.
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A Taiga de Kolima na Primavera! |


Kolimá
é lugar de maldição e o rio que ali passa foi também enchido pelas lágrimas dos
condenados como no Cócito de Dante. Varlam não tem dúvidas quando se refere a
este local: “Recordar primeiro o mal, e o bem depois. Recordar o bem durante
cem anos, e o mal durante duzentos anos”.

Um Dia na
Vida de Ivan Denisovich foi
a sua primeira novela.
E foi o primeiro testemunho publicado na antiga URSS, por um dos presos
políticos a mando de Estaline. O Ocidente soube tarde da tragédia do Gulag. E
para isso contribuíram intelectuais como Bertolt Brecht que há muito se sabia
dessa tragédia e continuava a venerar o sanguinário Estaline.
Ivan
Denisovich é um prisioneiro politico do antigo regime soviético que revela as
atrocidades (psicológicas e físicas, nas quais se inclui a repressão) dos
campos de trabalho forçado, o Gulag, que o regime de Estaline (e Lenine)
aproveitaria do tempo dos Czares. É, aliás, bem provável que a sua origem
esteja na prisão da ilha de Sacalina, à qual Tchécov dedicou um livro sobre o
estudo que aí fizera.
Os
detalhes são assombrosos. Denisovich acorda adoentado, é castigado por dormir
alguns minutos a mais, passa o dia trabalhando num frio de rachar e tem de se
indispor para conseguir uma ração miserável. O cenário é desolador. Os
prisioneiros enfrentam o inferno branco (neve e inverno) do Cazaquistão com
sapatos onde não cabem os pés, luvas que rasgam a qualquer movimento, camas
esqueléticas e cobertores ratados. Embora cercados de um frio imenso, só são
dispensados do trabalho escravo quando o termómetro marca 41º negativos!
O
relato sobre Ivan, é o relato da experiência sofrida pelo próprio Alexandr
Solsjenitsin, um historiador à época com 43 anos. Não imaginou os factos (o
relato não é ficção ou narrativa romanceada), não ouviu testemunhos. Ele
próprio, mais tarde prémio Nobel da Literatura, sofreu na pele a fúria do
regime e dos seus caciques; da corrupção do sistema. Num dos campos de
prisioneiros no Cazaquistão (Ekibastuz) foi escravizado, em condições
sub-humanas, como mineiro e pedreiro, deixando o campo em 1953 à beira da
morte, vitima de cancro. Retomou uma vida normal como professor do Ensino
Secundário, dedicando as noites (em segredo) à escrita deste relato memorável.
Só por milagre a sua detenção lhe não custou a vida. Comandante de um pelotão
de artilharia no Exército Vermelho
durante a II Guerra Mundial, foi condecorado duas vezes por bravura em combate.
No fim da campanha, foi detido por criticar Estaline numa missiva enviada a um
amigo.

Quantos
desapareceram nos Gulag? Pelo menos seis vezes mais dos que foram chacinados no
holocausto Nazi. Anne Applebaun em Gulag,
trata dos números e de muito mais. Uma fonte recomendável. Armando Palavras
[1] Porque se trata de
um esboço, neste escrito, por receio de lhes não dar a dignidade que merecem,
não se reproduz reflexão sobre muitos autores russos, dessa época, que mereciam
uma referência tão elevada como aqueles que nos mereceram essa reflexão:
Sinyavsky que cumpriu pena em vários campos de trabalho forçado entre 1966 e
1977; Pasternak, Anna Akhmatova, Marina Tsvetaeva, Joseph Brodsky, Jaan Kross
(Estónia) e Chukovskaya que na sua novela trata de Bilibin e Veksler.
Também não se faz
reflexão sobre ficções como O
Meteorologista de Rolin, ou de narrativas como Rumo à Liberdade do polaco
Slavomir Rawicz.
[2] José Milhazes diz-nos sobre o assunto:” Ao vaguear na Net deparei com a publicação de
um trecho de um livro traduzido por mim em 1990 "Contos de Kolima” num
blog chamado "Teor Crítico".
Escrita
por Varlam Chalamov, ela exerceu em mim uma grande importância, tendo contribuído
fortemente para a revisão de algumas das minhas ideias políticas. É depois de
obras como estas, de relatos directos, pessoais, que se conclui que entre os
campos de concentração nazis e o GULAG poucas diferenças existiam. Uns diziam
matar pela "limpeza da raça", outros pela "classe
social"... Descubra a diferença!”. (http://darussia.blogspot.pt/2013/11/contos-de-kolima-excerto.html).
[3] GULAG - acrônimo
para Glavnoe Upravlenie Lagerei, ou "Administração Central dos
Campos", palavra que por fim passou a descrever todo o sistema soviético
de punição e trabalhos forçados para prisioneiros criminais e políticos,
crianças e mulheres - espalhavam-se por todo o país, da gélida Sibéria às
inóspitas regiões da Ásia Central, passando pelas florestas dos Urais e os
subúrbios de Moscovo. Cerca de dezoito
milhões de pessoas passaram por esse sistema de trabalho escravo, tema do
livro Gulag, de Anne Applebaum.
Os
maiores gulags ficavam em regiões geográficas quase inacessíveis e com
condições climáticas extremas. A combinação de isolamento, frio intenso,
trabalho pesado, alimentação mínima e condições sanitárias quase inexistentes
elevavam as taxas de mortalidade entre os presos. Para se proteger da
violência, alguns grupos de presos criaram códigos e leis internas que deram
origem aos Vory v Zakone – a máfia russa. A quantidade de campos foi reduzida a
partir de 1953, logo após a morte de Estaline. Porém, os campos de trabalho
forçado para presos políticos duraram até os anos 90.
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