sábado, 13 de maio de 2017

Por terras de Montemuro, no Festival das Painças, de Tendais 

 
JORGE LAGE
Tendais é uma grande freguesia, composta por 15 aldeias ao longo do vale e rio Bestança e fica na nave poente da Serra de Montemuro, no concelho de Cinfães e junto à estrada que conduz de Cinfães a Castro Daire. Desta terra, graças à amizade do José Carlos, Presidente da Junta de Freguesia, e do Antonino, um académico a viver no Porto, quando ali me desloco a convite, sinto-me como em casa. Em 25 de Fevereiro fui ao «I Festival das Paínças e Papas de Milhos» (a 25 e 26). Importa desde já referir que as «Paínças», ficaram do nome do milho-miúdo ou painço que era utilizado na alimentação e para as aves, antes de milho graúdo ou milhão se vulgarizar no país, com a descoberta do Brasil. Neste lugar na parte média-superior das margens do rio Bestança, ficaram as «paínças» como nome associado ao milho. Tive direito a uma visita guiada à preparação das Paínças (ou milhos, aqui em Mirandela) e feita pela Irene Resende, uma acérrima defensora das receitas e produtos tradicionais livres de fertilizantes e pesticidas químicos. Começou logo por me dizer que o segredo das melhores e tradicionais Paínças está no bom refugado com bom azeite; um «pouquinho de polpa de tomate», para dar cor; leva ainda feijão branco (se levar feijão vermelho não precisa de tomate); 1 ou 2 folhas de louro; sal a gosto; a água de cozer os enchidos; água de cozer as carnes salgadas (a necessária). Leva o trilo do tempo de cozer do arroz. As paínças crescem um pouco mais que o arroz e devem ser das peneiradas, sendo as cascas retiradas ao lavá-las e as cascas vêm acima. As verdadeiras levam a farinha. As paínças eram muito utilizadas nas vessadas (torna jeira ou entreajuda para preparar a terra para o milho, segar ou malhar o centeio). Juntamente com o «Festival das Paínças» são confeccionadas as «Sopas de Manteiga» que têm na sua base o aproveitamento das côdeas duras da broa de milho e para as quais os mais velhos já não dispõem de dentes capazes de as mastigar. Das sobras das côdeas do broa acaba por surgir uma nova iguaria que culmina uma boa refeição e cuja receita se deixa mais abaixo. Curioso é verificar que esta minha ao I Festival das Paínças, depois da visita guiada à confecção das paínças e sopas de manteiga seguiu-se a visita guiada ao «Moinho das Travessas» (junto ao rio Bestança), propriedade da Associação para Desenvolvimento de Tendais, onde é moído o milho, o centeio e a castanha pilada. Aqui produz-se a melhor farinha (excelente) de castanha do território nacional e talvez da Península Ibérica. Pena é que se não avance para a certificação destes e doutros produtos excelentes. (O Moínho das Travessas e Pratos das carnes e das paínças – cortesia de Alfredo Figueiredo/Face Design)


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