sábado, 1 de abril de 2017

O mel na ponta da língua


Por Miguel Esteves Cardoso - FUGAS - Público

Alberto Caetano Tomas é apicultor e produtor de mel da Mel do Forno Nuno Ferreira Santos
Os inimigos das abelhas são todos: o mel das abelhas do senhor Tomás é uma prova da existência de Deus

Muitos bichos são importantes. Mas as abelhas (e as minhocas) são essenciais. A nossa sobrevivência depende delas.
Pensar-se-ia que nós, os seres humanos, tudo faríamos para demonstrar a nossa gratidão às abelhas. Mas não. Cada vez andamos mais esquecidos delas. Como sempre, desatamos a assobiar à beira do abismo.
O mel é apenas uma das muitas coisas boas que devemos às abelhas. Em vez de celebrar as variedades de mel que podemos provar, nem sequer nos damos ao trabalho de procurar o mel que é colhido por quem sabe e por quem respeita as abelhas.
Desculpem o sermão. Mas no que toca às abelhas é de sermões, sobretudo, que precisamos. Há um mínimo de atenção para tudo. Até para o mel.
O bom mel é barato para o que é. Um pote de mel gasta-se devagar e dura anos a fio sem quaisquer cuidados para guardar. Com pouco dinheiro se faz em casa uma colecção de méis de várias flores e vários países. É interessantíssimo descobrir as diferenças, mais do que as semelhanças.
Em Portugal há méis deliciosos mas melhor ainda é a oportunidade de conhecer os apicultores que o colhem. Aqui em Colares o melhor mel que provei é o Mel do Forno, produzido por Alberto Caetano Tomás.
Não tem presença na Internet nem Facebook porque não precisa. Toda a gente conhece o senhor Tomás e as abelhas dele. As flores onde as abelhas dele vão buscar o néctar estão à vista de todos, em campos bonitos e selvagens espalhados pelo Mucifal, por Monserrate e por Almoçageme.
A chuva recente foi bem-vinda. Sem chuva não há néctar. O mel do Forno tem um sabor genuinamente floral. O adjectivo é tão abusado que já não quer dizer nada. O mel do Forno sabe mesmo a flores. O mel industrial sabe apenas a açúcar e é monocromático. O mel do Forno é a cores. Muda de ano para ano, conforme as flores. Às vezes cristaliza, às vezes não. O senhor Tomás não interfere. Há empresas de apicultura que tiram o mel todos às abelhas e depois dão-lhes açúcar ou deixam-nas morrer.
O senhor Tomás só tira o mel que as abelhas generosamente produzem em excesso. É frequentemente chamado para ir levantar enxames que aparecem em locais recônditos. Os apicultores são heróis mas em vez de respeitá-los e defendê-los preferimos cultivar mitos à volta deles, achando-os detentores de saberes ocultos.
Falando da varroa — um ácaro mortífero que destrói as colmeias — o senhor Tomás diz que as abelhas melíferas mais bravas, que mais picam, são menos susceptíveis.
Ele diz que as abelhas não conhecem os apicultores. Outra história da carochinha é dizer que as abelhas não os picam. Muitas não picam. Mas outras picam.
Quando lhe pergunto quais são os inimigos das abelhas, ele responde “são todos”. Nós, com os nossos pesticidas, os nossos maus hábitos, a nossa ignorância e a nossa desconsideração, estamos à cabeça. Mas até as andorinhas são assassinas de abelhas: “Onde se vêem andorinhas, há sempre uma colmeia por perto.”
Há muitos preconceitos contra o mel, muitos deles inventados pela indústria do açúcar. O açúcar é mais barato mas é apenas doce. O mel é mais doce ainda (basta usar dois terços da quantidade de açúcar indicado numa receita) mas tem, para além de sabores deliciosos, minerais e vitaminas.
Comparar um produto industrial como o açúcar refinado com o mel — feito exclusivamente pelas abelhas, sem mais intervenções — é contrariar a própria natureza.
As abelhas, para além de polinizadoras, dão-nos o mel. Porque é que somos incapazes de aceitar este milagre? Como é que nos tornámos nos maiores inimigos das abelhas? É uma crueldade absurda.
Basta pôr uma colher de mel do Forno para a estupidez humana se tornar perfeitamente incompreensível.

Mel do Forno
Alberto Caetano Tomás
Rua do Forno, 4
Celão, Colares.
À venda em várias lojas da freguesia de Colares.

Tel.: 219 291 392.

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