segunda-feira, 3 de abril de 2017


 Manuel Villaverde Cabral - OBSERVADOR


Também no Novo Banco o governo optou, como de costume, por adiar os verdadeiros problemas que estão por resolver. Prefere minimizar os custos no curto prazo enquanto espera por um milagre.

É certo que actual «geringonça» que nos governa também é responsável pela crise bancária portuguesa mas não foi ela que a criou. Essa crise vem de longe e é evidente que a crise financeira de 2007, em que Portugal e boa parte da Europa do Sul continuam mergulhadas, apenas revelou a dimensão abissal dos problemas em que os bancos portugueses já estavam mergulhados. Foi o enorme conluio interno e externo fabricado pelo governo Sócrates que criou a bolha de «imparidades» em que a chamada banca nacional continua a dissolver-se praticou, infiltrando os bancos e as grandes empresas rentistas com gente sua, aliando-se com o polvo em que se tornou o BES e alargando os tentáculos da finança portuguesa a sócios estrangeiros tão suspeitos como Angola, a China e o próprio Brasil.
Este último caso da entrega sem controle do que restava do empório BES a um «fundo abutre» norte-americano que dá pelo nome peculiar de «estrela solitária» arrisca-se, aliás, a não ser o último. É a isso que leva a crer o silêncio mortal do governo do PS sobre o que se passa no Montepio e que coisa boa não é de certeza. Quanto ao «Novo Banco», nem de venda se trata propriamente, mas de entrega parcial e temporária que seja, mediante uma prometida capitalização de mil milhões de euros coberta pela garantia de mais 4 mil milhões eventuais pelo Estado português ou, o que vem a dar no mesmo, pelo famoso Fundo de Resolução Bancária que reembolsará tal garantia nas próximas décadas… Directa ou indirectamente, todas as perdas que venham a ser registadas ficarão na prática entregues aos contribuintes portugueses, os quais já têm de tapar os buracos que não cessam de surgir, incluindo o prometido reembolso aos chamados «lesados» do BES…
É bem possível que o fundo norte-americano só queira açambarcar o imobiliário das Amoreiras e do Marquês de Pombal, como proclama Francisco Louçã, mas tudo foi efectivamente feito para nos espantarmos com esta pseudo-venda, que o anterior governo tinha aliás recusado. É certo que este último também não arranjou alternativa e, por isso, o caso se arrastou de tal modo que as perdas absorvidas desde a resolução de 2014 foram tais que os 5 mil milhões de euros entregues então pelo Fundo – 4 mil dos quais emprestados pelo Estado a 30 anos – levaram sumiço desde então. Nas explicações dadas pelo Banco de Portugal na véspera da entrega do «Novo Banco» ao Lone Star, ainda se acenou com a vaga promessa de o Estado vir a vendê-lo de novo, se e quando o novo proprietário despachar o negócio entretanto.
Na realidade, o governo do PS continua não só a omitir todos factos relativos a esta estranhíssima operação como oculta a verdadeira razão que o obrigou a tal. Com efeito, já na primeira tentativa de venda do ex-BES o anterior governo recusara as propostas de bancos activos em Portugal, como o Santander e o BPI, com o pretexto de oferecerem pouco dinheiro mas, na verdade, porque certa opinião pública veria nisso a entrega da nossa banca aos rivais espanhóis… O governo de então viu-se assim obrigado a desistir da venda a fim de não ceder o «maior banco privado português» a um «fundo abutre»!
Com efeito, basta consultar o «site» desta «Estrela Solitária» para nos darmos conta de que o Lone Star não é um banco. Esta palavra não figura aliás no site: este menciona apenas os «activos de perto de 1.300 ‘bad banks’», pois aquilo de que se trata é, na realidade, um conjunto de fundos que – cito – «procura oportunidades em mercados desenvolvidos que sofreram crises económicas e/ou bancárias». Alimenta-se pois de carne podre e, a seguir, explica o que faz com os activos comprados: não esconde ao que vem…
Sendo assim, repito, por que razão se apressaram António Costa e Mário Centeno, com o habitual beneplácito do Presidente da República, a fechar um negócio destes? A verdadeira razão só pode ser uma. O risco de, a breve prazo, visto ninguém querer comprar o ex-BES, a UE obrigar o governo a liquidar o banco e isso teria muito maiores custos a curto prazo. E são esses custos de curto prazo que o actual governo não pode pagar sem aumento do défice e da dívida, cujos juros não baixarão enquanto o futuro da UE não estabilizar – se estabilizar – depois das várias eleições nacionais deste ano e da resolução do Brexit!
A própria nacionalização e a eventual fusão com a Caixa Geral de Depósitos, que encantariam os aliados do PS e muitos soberanistas iludidos, foram afastadas, desde logo por falta de dinheiro mas também para não desagradar ainda mais às agências de rating. Em suma, o governo optou, como de costume, por adiar os verdadeiros problemas que estão por resolver. Em vez disso, continua a minimizar os custos no curto prazo do défice e da dívida, enquanto espera por algum milagre! Mas fontes tão abalizadas e insuspeitas como o antigo ministro das Finanças do PS, Teixeira dos Santos, que acabou por fazer cair Sócrates, não tem dúvidas: vamos todos pagar a conta!

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